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WANDA, O CURINGA DO ITABUNA NA LINHA DE FRENTE

WANDA, O CURINGA DO ITABUNA NA LINHA DE FRENTE

Por Walmir Rosário*
Wanderlino Amaral Azevedo, ou simplesmente Wanda, do alto dos seus 90 anos, lembra,
com orgulho, o dia 6 de abril de 1957, data gravada em sua memória por ter recebido a
medalha de campeão do Torneio Antônio Balbino do presidente da República, Juscelino
Kubitschek. Ele integrava a Seleção de Itabuna amadora que dava o pontapé inicial para
se tornar vencedora, conquistando o Hexacampeonato Baiano Intermunicipal.
Que honra maior para um jogador de futebol amador do interior baiano, que ganhava a
vida como comerciário do ramo de tecidos e confecções, ser condecorado na capital como
campeão de um importante certame, ainda mais pelo presidente da República? Assim
como Wanda, seus colegas da Seleção de Itabuna guardam com muito carinho a medalha
de campeão do Torneio Antônio Balbino, na inauguração dos refletores da Fonte Nova.
E Wanda teve uma carreira futebolística de sucesso nos clubes amadores que defendeu,
culminada pelas convocações na Seleção de Itabuna, sonho de todos os jogadores
itabunenses daquela época. Modesto ao falar sobre o futebol que praticou, garante apenas
que era um bom jogador. Embora tivesse a preferência por atuar como centroavante, o
baixinho jogava em qualquer posição na linha de frente.
Mas sua atuação na Seleção de Itabuna teve que, intempestivamente, chegar ao fim por
um motivo fora das quatro linhas do gramado: É que o proprietário da Loja A Invencível,
onde Wanda trabalhava, não gostava de futebol, portanto, não ficava nada satisfeito com
as pequenas ausências por ocasião das viagens durante a realização dos jogos pelo
Campeonato Intermunicipal da Bahia.
Wanda deixa de jogar na seleção, mas continua sua carreira de sucesso nos clubes pelos
quais jogou, como Janízaros, Botafogo, Fluminense, Bahia, Flamengo, e até o Grêmio,
onde atuou por empréstimo. Continuou alegrando a torcida itabunense com suas jogadas
e gols marcados no velho campo da Desportiva, nas tardes de domingo, como
habitualmente fazia há anos.
Não pensem os leitores que o pequeno Wanda não tinha experiência em jogos com
grandes esquipes, a exemplo do Bahia (Salvador), Botafogo (o Glorioso, de quem é
torcedor), Fluminense, Flamengo, Vasco da Gama e Bangu, do Rio de Janeiro. Ao
enfrentar o Botafogo carioca, no campo da Desportiva, em Itabuna, não contou conversa
e disputou a bola de igual para igual com o maior lateral-esquerdo do mundo.
Ele não esquece que ao driblar Nílton Santos, conhecido como a “Enciclopédia do Futebol”,
foi agarrado pela camisa pelo craque, dentro da grande área, e pediu a marcação do
pênalti. O árbitro da partida, o itabunense Mangabeira, pegou a bola e colocou em cima
da linha, marcando uma simples falta, sendo alvo de reclamações pelo atleta itabunense,
quando foi advertido por Nílton Santos:
– Calma, baiano, senão o juiz lhe expulsa do jogo –.
Acatou o conselho e jogo seguiu normal. No final da partida, o placar de 2X1 para o
Botafogo foi considerado satisfatório. Contra o Vasco da Gama, o placar de 2X1 se repetiu,

apesar da excelente partida feita pela Seleção de Itabuna. Já o Flamengo venceu por 3X1,
e o Bangu, em Ilhéus, por 7X2. Goleada acachapante sofreu do Fluminense carioca, que
enfiou 10X1, após o árbitro Mangabeira marcar um pênalti inexistente. Foi quando o
técnico tricolor autorizou o massacre de gols.
Na sua infância e adolescência, Wanda jogava os babas nos campinhos perto de sua casa,
em times de camisa, porém sem chuteiras. O convite para atuar no quadro aspirante do
Janízaros foi um reconhecimento do seu potencial. Depois, trocou de clube, indo para o
time principal do Botafogo do seu bairro, o Conceição. Em seguida, vieram outros
convites, aceitos, de preferência, quando acompanhados de um agrado financeiro.
Wanda não se acanha em falar que somente jogavam no futebol amador de Itabuna os
que tinham bastante intimidade com a bola, pois todas as posições eram ocupadas por
verdadeiros craques:
– E se eu tive vez era porque era um deles. Eu jogava porque gostava de futebol. É certo
que ganhávamos uma pequena soma de dinheiro, mas o amor pelo futebol falava mais
alto. Tínhamos o reconhecimento da torcida. Quando o Botafogo jogava o bairro
Conceição em peso ia ver o jogo na desportiva –.
E o futebol de Wanda agradou o técnico do Bahia, Bengalinha, que o convidou para ir
jogar no tricolor da capital baiana. O convite foi feito logo após um jogo contra o Bahia,
quando o técnico comentava com jogadores do Itabuna ter gostado do futebol do jogador
de número 8. Neste momento ele entra na sala e é convidado de forma curta e grossa:
– Se quiser jogar no Bahia pode ir em casa buscar sua roupa e amanhã nós partiremos
para Salvador –.
Wanda agradeceu o convite e preferiu continuar jogando em Itabuna – nos times e na
seleção – o que era motivo de orgulho, pois era incluído como os melhores. Para ele era
uma alegria imensa jogar contra Ilhéus, que ganhava sempre, bem como outros ossos
duro de roer, a exemplo de Santo Amaro, São Félix e Cachoeira, principais adversários no
Campeonato Intermunicipal.
O jogador realça, ainda, a capacidade dos atletas de antes, que jogavam com raça. Se
tomassem uma pancada levantavam e corriam para a bola, mesmo sem ter preparo físico
adequado; hoje, a um pequeno encostão caem e esperam a maca. Wanda também
comenta que hoje o jogador parece ter medo da bola, pois mal a recebe já quer se livrar
dela, não sai para o drible e dar o passe a um companheiro bem colocado, mais próximo
do gol.

Wanda, hoje, aos 90 anos

* Radialista, jornalista e advogado

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