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UMA VIAGEM A BUERAREMA COM ANTÔNIO LOPES

UMA VIAGEM A BUERAREMA COM ANTÔNIO LOPES

As duas últimas obras do escritor Antônio Lopes

Por Walmir Rosário*
O prezado e estimado leitor conhece Buerarema desde quando? Se a resposta do distinto
for de uns tempos pra cá, passo a ter dó e piedade dele, pois na verdade, pouco ou quase
nada viu do seu povo e de sua história. E bote História (com H maiúsculo) nisso, daquelas
de cair o queixo, acontecidas desde o tempo que a aconchegante Macuco (seu nome
enquanto distrito de Itabuna) reunia os melhores personagens num só local.
Pois fiquem os senhores sabendo que aquele pedacinho de terra cercada de matas e
cacaueiros por todos os lados, entrecortados por pequenos riachos e rios caudalosos em
busca da praia de Ilhéus têm muito a ser contado. Ponha sua cabeça pra pensar naquele
amontoado de gente, vinda de todos os cantos do mundo, e que acabou formando um
arruamento, vila e depois cidade, com essa gente mandando neles mesmos.
Estás curioso! Pois não perdes por esperar! Basta sentar com uns cinco livros de autoria
do professor, jornalista e escritor Antônio Lopes,

um pernambucano que se fez
macuquense e bueraremense por obra e graça de sua mais legítima vontade. Pense numa
viagem (há quem chame de imersão) voltando no tempo e conhecendo histórias, estórias
e causas cometidos pelos seus personagens, inclusive o próprio.
Mas agora vamos nos ater aos dois últimos livros publicados, do contrário vamos perder
muito tempo nessa leitura e passar dos “entretantos aos finalmentes”. Em “A Bela
Assustada”, uma antologia pessoal, alguns textos inéditos, Antônio Lopes não se conteve e
apresenta Manuel Vitorino, Zé Mijão, Mundinho Cangalha, João Baié, Léo Briglia, Dr. Elias,
o padre Granja, o pastor Freitas, Manuel Lins, Clarindo Corno Preto, Zeca de Agripino,
Vilson Cordier, e muitos outros brilhantes personagens.
E o menino trazido de Triunfo, no Pernambuco, pelo seu irmão mais velho, João Lopes,
estudou o primário e o ginásio, fez jornalismo estudantil e formou seu caráter em
Buerarema. Mais tarde, foi estudar em Ilhéus, trabalhar em Itabuna, até chegar a São
Paulo escrevendo para a Última Hora, do lendário Samuel Wainer. Foi seguir o caminho e
aportou na Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras da Bahia.
Não sei se essas incursões mundo afora fixaram na memória do autor os causos vividos
em tempos idos. O que sei mesmo é que são contados com simplicidade e o humor
daquela gente e daquela época. Quem melhor narraria – a posteriori – um jogo do Brasil
Esporte Clube, o BEC, do que o sapateiro Zé Vitorino? Que os senhores saibam o delírio da
plateia com seus lances, tornando Galvão Bueno um simples fichinha. E nem tínhamos TV.
A Buerarema dos cines Cabral e Maracanã, à época em que não sofriam a concorrência
das redes de televisão e era ponto de fixo para a troca de gibis e o encontro de
namorados trocarem juras de amor, enquanto bandidos e mocinhos de digladiavam na
tela. Uma boa pedida são os banhos no Poço da Pedra, onde o autor aprendeu a nadar,
boiar e distribuir cangapés e quase se afogar.
Da minha lembrança não sai o causo de Agripino Vieira, fazendeiro de 15 mil arrobas de
cacau, cliente assíduo do Bar Pingo de Ouro, que deu um drible no médico Dr. Elias, após

o conhecido esculápio proibir suas incursões aos bares. Sem qualquer peso na consciência
chegou na Farmácia Maria e decretou ao balconista Afonso que lhe desse o um vidro de
Biotônico Fontoura, o maior que tivesse na referida botica.
Em “A vida Refletida”, Antônio Lopes conta que na sua adolescência quem não tinha
habilidade para coisa nenhuma ia para a Marinha. Mas ele quis fazer diferente, por não
levar jeito. Não estudou medicina, engenharia ou direito, mas trabalhou em rádio,
televisão, assessoria, escritório, deu aulas, vendeu remédios. Profissões essas que lhe
garantiram o uísque de cada dia. E as histórias, acrescento eu.
Em “Um Tabaréu em Paris” (pgs. 101/103), o autor conta que se encontrava na cidade luz
quando um cara branco, vestido à classe média, lhe dá um encontrão. Desculpou-se (todo
cheio de “pardon”, monsiseur, e continuou puxando conversa. Procurou se livrar dele,
afinal estava em Paris, o melhor lugar do mundo, depois de Buerarema. Na manhã
seguinte, ao dar pela falta do cartão de crédito, percebeu ter sido vítima de um legítimo
vigarista parisiense. Fazer o quê?
Sobre o livro de Lopes, Joaci Góes escreveu: “Antônio Lopes é um autodidata que atingiu
elevado patamar como humanista, polindo seu crescimento com as aulas que deu de
português, matemática, história e redação, sem falar em suas experiências como
animador de comícios e redator de discursos políticos, de festas carnavalescas,
comentarista de futebol, vendedor, gestor de recursos humanos, fez tudo isso para
sobreviver e ter as condições mínimas de se dedicar à leitura dos grandes autores, na
geografia do tempo, experiências que contribuíram para torná-lo um dos mais refinados
escritores brasileiros da atualidade”.
E prossegue Joaci…“Provavelmente, se Antônio Lopes tivesse produzido sua
surpreendente obra de Paris, Londres, Roma ou New York, não faltasse quem dissesse que
só a partir de domicílios tão cosmopolitas seria possível produzir literatura de conteúdo e
forma tão marcadamente universais”.
A vida refletida/Antônio Lopes – Ilhéus, Ba: Editus, 2019.
A bela assustada : antologia pessoal + inéditos/ Antônio Lopes. – Itabuna, BA : A5 Editora,
2021.

*Radialista, jornalista e advogado

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