“SÓ MORREREI DEPOIS DE VER PELÉ JOGAR”
Por Walmir Rosário*
O brasileiro sempre foi apaixonado pelo futebol. Não conheço nenhuma
pesquisa que nos coloque no topo da pirâmide entre os vários países do
mundo, mas nem precisa, somos nós e pronto. Nenhum povo alcançou os
nossos feitos em copas do mundo, temos resultados fantásticos nos
campeonatos mundiais de clubes e mais que o valham.
E nos apaixonamos por um clube, devotando a ele toda a nossa paixão. Pra
cada um de nós o meu time é o melhor e só não ganhou o campeonato por
fatores extracampo, como as decisões dos árbitros de futebol, cujas coitadas
das mães são xingadas por qualquer motivo fútil. Pouco interessa se os
diretores não contrataram os melhores jogadores e sim pernas de pau.
Mais que torcer por um time, alguns se apaixonam – no bom sentido – pelos
craques, e isso tenho como provar desde meus tempos de menino lá pras
bandas do ainda bucólico bairro da Conceição, em Itabuna. Tínhamos os nossos
craques, jogadores dos times amadores e da imbatível Seleção Amadora de
Itabuna, mas também devotávamos nosso amor pelos craques do Rio de
Janeiro e São Paulo.
E um desses era o Tio Coló, que não era bom de bola, mas gostava de jogar
com estilo. Estilo, aliás, era com o próprio: não dispensava uma calça de linho
passada a ferro com goma, um sapato do tipo mocassim branco, camisa
esporte listrada, fino violonista. No máximo se permitia andar com sandália
japonesa, a legítima, nas cores preto e branco, como do Santos de Pelé.
E ele era um exímio motorista, escolhido a dedo por grandes empresários para
viagens, muita delas voltadas para jogos de futebol. Segurança total com o Tio
Coló ao volante. E quando o assunto versava sobre futebol ele cortava qualquer
conversa e dizia em alto e bom som: “Só morrerei depois de ver Pelé jogar”. Já
era um mantra incorporado ao tema futebol.
Pois bem, lá pros idos de 1964, se não me engano, chega a grande
oportunidade para o Tio Coló realizar seu eterno desejo, com a notícia dada na
resenha esportiva da Rádio Bandeirantes de São Paulo, informando que o
imbatível Santos viria a Salvador enfrentar o Bahia. Foi um alvoroço no salão de
sinuca de Ismael. Seria agora ou nunca para Tio Coló.
Na mesma hora começaram a planejar a viagem entre os presentes. Tio Coló, o
mestre de obras da prefeitura, Antônio Cruz, o comerciante Nicanor Conceição,
o dono de bar Teles, o comerciante de leite e cana Nivaldo (Cacau). O próximo
passo seria alugar um carro e embarcarem para a capital baiana e assistir ao
jogo com o Rei do Futebol, Pelé.
E no próprio bairro da Conceição alugaram um carro de praça (táxi), o jipe de
Eliseu, também interessado em assistir à partida. Na data marcada partiram
para Salvador onde realizariam o sonho, antes considerado impossível. E as
estradas daquela época eram horríveis, de terra batida até Jequié, e daí pra
frente o asfalto da Rio-Bahia e da BA- 324 até a capital.
Chegaram um pouco antes do início do jogo, e torceram por Pelé, que marcou
os dois gols do time santista. Partida encerrada, eles tomaram a estrada de
volta e ao chegar a Feira de Santana Eliseu se sentia cansado. O jeito era
passar o volante para o colega Tio Coló. E esse era um gesto ímpar, pois o jipe
de Eliseu ninguém dirigia. E Tio Coló seria o primeiro a ter o privilégio.
Tomaram um café e partiram, passaram por Feira de Santana, e tocaram pela
famosa Rio-Bahia. Madrugada pela frente, muitos caminhões e ônibus na
estrada tornavam intenso o movimento. Lá pelas tantas, um caminhão tenta
ultrapassar outro e dá de cara com o jipe que conduzia nossos torcedores que
voltavam pra casa.
O choque foi inevitável e o caminhão atingiu o jipe do lado esquerdo. Rodovia
interditada por causa do acidente os passantes iniciaram o atendimento aos
seis ocupantes do jipe, todos bastante machucados e iam sendo levados para o
hospital mais próximo. Na realidade, somente quatro puderam ser atendidos:
Antônio Cruz, Teles, Nicanor e Nivaldo Cacau.
Na direção Tio Coló não resistiu ao impacto da colisão e morreu no local. O
Mesmo destino teve Eliseu, o proprietário do jipe, que se encontrava sentado
logo atrás do banco do motorista. Assim que a notícia chega a Itabuna, se
instala um clamor no bairro da Conceição, que passa a chorar seus mortos e
feridos.
Acredito que, em relação ao Tio Coló, a profecia foi feita: morreu exatamente
após ter assistido jogar o seu grande ídolo, Pelé, o Rei do Futebol. Nunca mais
um solo de violão do Tio Coló, que sempre era lembrado quando o assunto no
salão de sinuca de Ismael era o futebol. É triste entrar para a história por sua
morte, pois todos queriam que ele ressaltasse sua alegria ao ver Pelé jogar. E
logo mais, em 1965, Pelé jogou em Ilhéus, pertinho de casa.

*Radialista, jornalista e advogado.


