Embora o presidente tenha consistentemente criticado as guerras do Oriente Médio, ele agiu (com a morte de Soleimani) de modo que, ao menos no curto prazo, aumenta o risco de que o atual conflito político-econômico entre Irã e EUA escale para uma guerra.
‘Política de castigo e recompensa’
William Tobey é senior fellow no Centro Belfer para Ciências e Assuntos Internacionais da Harvard Kennedy School, além de ex-vice-administrador de não proliferação nuclear da Agência de Segurança Nuclear dos EUA
O “timing” provavelmente reflete o fato de que a campanha de pressão máxima tem sido surpreendentemente eficiente.
Teerã escolheu escalar (a rivalidade com os EUA) da dimensão econômica para a militar, primeiro com ataques contra navios petroleiros e instalações e, mais tarde, contra terceirizados (em referência à morte de um civil americano no Iraque, em ataque atribuído a milícias apoiadas pelo Irã, em dezembro).
É possível ver isso (a morte de Soleimani) como uma tentativa de interromper essa escalada, de dizer a Teerã que isso não vai funcionar.
Qual é a estratégia de Trump?
Ele está tentando uma política complexa: tentar aplicar pressão o suficiente para que o Irã sinta que literalmente não tem escolha senão voltar à mesa de negociação e obter um acordo melhor. Ao mesmo tempo, a pressão não pode ser grande demais ao ponto de levar o Irã a desistir totalmente de negociar.
De certo modo, há (uma estratégia de) castigo — o ataque ao comboio de Soleimani — mas uma recompensa, com o presidente (Trump) dizendo: “Não quero ir para a guerra com o Irã”.
Ele está tentando manter no ar a ideia de que não vê o conflito aberto como um caminho construtivo.
O Irã tem sofrido com a alta inflação e a desvalorização da sua moeda. Tendo lutado uma batalha perdida no front de sanções econômicas, o país decidiu abrir uma nova frente: de ataques militares. Acredito que países que sintam que estão sendo lesados ou atacados se vejam mais propensos a assumir riscos.
Com certeza estamos vendo uma alta tolerância a riscos pelo governo de Teerã. E suspeito que sua vontade de assumir mais riscos vai aumentar.
Então, a questão é: o que vai acabar primeiro, a campanha de pressão máxima ou a capacidade de Teerã para resistir?
Luke Coffey é diretor do Centro Allison de Política Internacional da Fundação Heritage, centro de estudos de orientação conservadora em Washington, e também um veterano do Exército americano e ex-conselheiro especial do Ministério da Defesa britânico.
Acho que cada pessoa tem um limite. Quando olhamos tudo o que o Irã fez ao longo do último ano (…), me parece claro que o país estava tentando provocar algum tipo de resposta dos EUA.
Trump, por não ser muito intervencionista militarmente, estava tentando evitar essa situação. Suspeito que ele tenha sido apresentado a essa opção (de matar Soleimani) antes e tenha rejeitado, mas na última semana pode ter decidido que chegou ao seu limite.
Ele continua a dizer que quer um acordo negociado com o Irã, sem precondições para as conversas. Trump chegou a um ponto em que tinha de revidar.
Qual é a estratégia de Trump?
A campanha de pressão máxima é a estratégia — o governo tem sido muito consistente nisso.
Trump mostrou que está tentando levar os iranianos de volta à mesa de negociações, e acho que está tentando fazê-lo com o mínimo possível de ação militar.
Acho que Trump de fato vê a si mesmo como um grande negociador e queria ser a pessoa a fazer esse acordo, mas foi encurralado porque o Irã continuava a aumentar sua pressão.
Você não acorda um dia e simplesmente decide matar Qassem Soleimani. Foi preciso planejamento entre diferentes setores de governo e militares para monitorar seu paradeiro e identificar janelas de oportunidade.
Não podemos esquecer que Soleimani era um combatente dentro de uma zona de combate. Sem dúvida que, se os iranianos tivessem a oportunidade de eliminar alguém similar dos EUA, o fariam.
Isso é parte do ritmo do conflito em que estamos presos no Oriente Médio. Não acho que isso vai escalar até se tornar a Terceira Guerra Mundial.
O Irã certamente não vai voltar à mesa de negociações agora.
Isso não era um motivo para não fazer o ataque — falando francamente, Soleimani teve o que mereceu. Ele tem o sangue de soldados americanos nas mãos e aterrorizou grande parte do Oriente Médio por mais de uma década. Só porque Trump quer negociar com o Irã não significa que ele não deveria eliminar Soleimani.
Não acho que ele agiu pensando em política; acho que ele queria evitar essa situação, ou teria feito isso (o ataque) antes. Mas, politicamente falando, isso faz ele parecer como um líder mais forte entre seus apoiadores.
E a promessa de Trump de sair do Oriente Médio?
Trump mal gosta de ter tropas americanas na Alemanha, então a ideia de que Trump enviará tropas para o Irã em um ano eleitoral é, para mim, inconcebível.
Mas ele também tem de mostrar que os EUA só aceitarão ser pressionados até determinado ponto.
Fonte;G1