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POR GENTILEZA, NÃO METAM A MÃO NOS MEUS FERIADOS

POR GENTILEZA, NÃO METAM A MÃO NOS MEUS FERIADOS

Alto lá! Em meus feriados ninguém lança a mão, são imexíveis! Afinal, lutei tanto para
conseguir a minha sagrada aposentadoria e agora não tenho o sagrado direito de gozá-los
como me convêm. Esse é mais um absurdo praticado em nome do todo-poderoso Covid-
19, que tem mais poderes do que a nossa constituição, rasgada e esfacelada ao bel-prazer
dos que estão nos governos. Tudo em vão, fui vencido.

Os donos do poder passam a vida inteira esculhambando o brasileiro por não ser afeito ao
planejamento e agora desandam tudo, causando um prejuízo sem precedentes naqueles
que ouviram e confiaram nos conselhos. Meus antepassados sempre me aconselharam a
desconfiar dos atos dos governos e olha que eles nunca foram adeptos ao anarquismo
como forma de governo. Simplesmente não acreditavam e pronto.

Agora, sem mais nem menos, elaborei uma planilha para festejar nesta segunda-feira (25)
o aniversário dos 129 anos de emancipação político-administrativa de Canavieiras e agora
descubro que estou por fora um eito, como se diz lá na roça. Todo o meu planejamento
veio por água abaixo quando fui informado que nesta data será comemorado o São João.
Custei acreditar, mas depois que vi o decreto do governador, capitulei.

Desde que me conheço por gente, aprendi na escola que a festa de São João é realizada
logo depois do solstício de inverno (21 de junho), para comemorarmos a renovação da
vida, a começar com a colheita. Agora, teremos que desaprender tudo e, ainda por cima,
passar o São João no maior miserê, sem um prato de canjica, uma pamonha, um milho
assado na fogueira.

Nesta sexta-feira, assim que soube na notícia que custei a acreditar, tentei me preparar
para os festejos juninos e não tive o menor êxito. E sabe qual a desculpa? A tal da
logística. Liguei para cada um dos meus fornecedores – todos artesãos – e ouvi o que não
queria. O licor nem foi para a infusão por falta de gente para colher os jenipapos. Pelo que
entendi, estavam todos na fila dos seiscentos. Só para o mês que vem, me garantiram.
Tudo por falta de planejamento do governo. Todo o mundo está cansado de saber que o
milho para o São João tem que ser plantado no dia de São José (19 de março) e colhido
no dia 22 de junho para ficar no ponto exato da canjica. Fui questionar o meu fornecedor
e tiver que ouvir lero:
– Diga aí para as autoridades acertarem com a Embrapa para fazer um milho mais precoce
que terei todo o prazer de plantar. Por enquanto vale o milho criado por Deus com licença
de São José e São João, com a ajuda de São Pedro.

Diante de tamanha evidência, não me restou outra escolha que não ser me recolher à
minha científica insignificância. Não satisfeitos de todo, liguei para Beco dos Fogos, que
também me deu um má notícia, o pedido feito por ele ainda não saiu da fábrica e só
dispõe de rojões, mesmo assim reservado para as festas da prefeitura. Como sou
precavido, não vou liberar esse tipo de fogos para as crianças.

Meu consolo seria participar do desfile cívico do Dia da Cidade, apreciando a juventude
escolar fardada marchando ao som das bandas e evoluções das fanfarras. Qual nada, o
cortejo foi cancelado por conta do isolamento. Minha única esperança seria o feriado de
terça-feira (26), onde nós veríamos os caboclos, Maria Quitéria, a irmão Joana Angélica e
os garbosos oficiais das forças baianas que expulsaram os portugueses do Brasil. Tudo
cancelado.

Em meio ao festival de cancelamentos, me resta continuar recolhido em casa, dando azo
às comemorações etílicas de costume, mesmo desprezando a gastronomia junina tão a
gosto de um descendente de caatingueiros. Mas como sou obediente às ordens
superiores, só me resta pedir licença ao fígado e quebrar o porquinho chamado por nós de
mealheiro para abastecer convenientemente a adega.

Ao ligar para um amigo em Itabuna para desabafar dos desencontros, após me ouvir
pacientemente, respondeu em tom de gozação:
– Pois fique sabendo que você não sabe da missa a metade. Aqui em Itabuna vamos
gozar da esbornia a semana inteira. Pra mim, foi a mesma alegria de ganhar a mega sena
acumulada. Graças ao prefeito Fernando Gomes, que tem know how em festas
antecipadas, comemoraremos o São João na segunda, o 2 de julho na terça, o Dia da
Cidade (28 de julho) na quarta (27). E de lambuja, a quinta e a sexta será ponto
facultativo público e privado.

Só espero que da próxima vez o governador tenha a bondade de avisar com bastante
antecedência para que possamos providenciar os insumos adequados para as tradicionais
comemorações. Que o novo decreto também satisfaça nossas necessidades financeiras na
forma de um auxílio emergencial para a aquisição das bebidas e comidas, pois ninguém
aguenta essas despesas extras em tempos de crise.
Já quanto à saúde hepática, dá para negociar com o fígado o conforto de uma semana
atípica.

*Radialista, jornalista e advogado;Walmir Rosário;Foto;Divulgação 

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