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PINTADINHO, HOMEM DOS 7 INSTRUMENTOS E DA BOLA

PINTADINHO, HOMEM DOS 7 INSTRUMENTOS E DA BOLA
Em pé: Patuca, Vilson, Paim, Dal (Tarzan) João Bocar e Vitor Baú;
Agachados: Jonga, Pedrinha, Pintadinho, Afrânio e Esquerdinha

Por Walmir Rosário*
Concordo plenamente com os que defendem a tese de que há muita proximidade entre o
futebol e outras artes, a exemplo da música. Certifico e dou fé – se é que assim posso
proceder – que muitos dos meus conhecidos fazem dessas artes “gato e sapato”, com a
maior intimidade. E para provar, apresento aqui Zé Pintadinho, Pintadinho Alfaiate ou
simplesmente Pintadinho, como exemplo.
Habilidade na música e no futebol não lhe faltava. Para ele, tanto fazia jogar na ponta-
esquerda, ponta-direita ou como centroavante. O que importava mesmo era fazer gols
para seu time ganhar o jogo. E tudo isso pode ser comprovado por quem o viu jogar ou
pelos livros de registro da Liga Desportiva de Itabuna (Lida), onde está tudo anotado para
dar conhecimento à posteridade.
Na música não era diferente. Era considerado o homem dos sete instrumentos: cantava,
tocava surdo, pandeiro, reco-reco, e agogô e ainda fez incursões por alguns instrumentos
de sopro, principalmente o trombone, que o considerava um dos mais sublimes da música
e que fazia tocar a alma das pessoas. Deixou o instrumento aconselhado pelo maestro,
que o avisou dos riscos de ficar com a “papada” grande. E ele obedeceu.
Zé Pintadinho já fez de tudo em Itabuna assim que chegou de Sergipe, em 1944, aos 16
anos de idade. Trabalhou em sorveteria, feira livre, enveredou pela música, onde se sentia
bem, e pelo futebol. Porém, aconselhados pelos amigos mais velhos, buscou aprender um
ofício mais seguro, como o de alfaiate, profissão que exerceu até o final de sua vida, e que
lhe proporcionou criar uma numerosa família.

Pintadinho na profissão de alfaiate


Pintadinho jogou futebol em Itabuna em apenas duas equipes: o Botafogo do bairro da
Conceição e no Bahia de Álvaro Barbeiro, o esquadrão de aço do sul da Bahia. Pelo
Botafogo, atuou nas célebres partidas contra o Brasil de Buerarema e o Bahia de Itajuípe,
ganhando as duas. Esta última para decidir uma aposta firmada por Sílvio Sepúlveda –
jogador e cartola do Botafogo – e Oswaldo Gigante, do Bahia.
Outras partidas memoráveis jogadas por Pintadinho – já no Bahia – tiveram como palco
Belmonte, na festa para comemorar o aniversário da cidade. No sábado, venceu por 3X2 e
no domingo 2X1. Àquela época, diante da dificuldade de viajar pelas estradas ruins,
embarcaram num avião em Itabuna e fizeram valer a supremacia do futebol itabunense,
para o desgosto dos belmontenses, que não aceitavam fácil as derrotas.
Na década de 1950 sete times disputavam o campeonato amador de Itabuna –
Corinthians, Grêmio, Janízaros, Flamengo, Fluminense, Itabuna e Botafogo – numa
disputa ferrenha pelo título. Jogador que decidia partidas com os inúmeros gols que
marcava, Pintadinho jogava cadenciado, com estilo, embora soubesse impor seu ritmo de
jogo para não ser incomodado pelos zagueiros adversários.
Com toda essa habilidade e determinação, em campo atuava com humildade e sabia
respeitar os adversários para também ser respeitado, gostava de dizer Pintadinho, para
não ser visto como um jogador boçal. Além do respeito em campo, Pintadinho era uma

pessoa muito querida na sociedade, além de ser um profissional da alfaiataria de conceito,
haja vista as encomendas que recebia.
Soube parar o futebol quando as pernas e o fôlego já não conseguiam ter o mesmo
rendimento de antes. Parou na hora exata, para que os amigos e torcedores lembrassem
dele como o excepcional e implacável atacante. Se deixou de entrar em campo, continuou
fora dele, torcendo para o magnífico futebol de Itabuna, levando seus filhos ao campo da
Desportiva nas tardes de domingo.
Fora de campo, continuou fiel à máquina de costura, sua inseparável companheira de anos
a fio na antessala de sua residência, onde recebia clientes e amigos para desempenhar
seu trabalho, ou simplesmente ter uma boa prosa. E ali conversa sobre tudo,
principalmente seus feitos no futebol e na música, atividade que continuou a exercer até
os últimos dias de sua vida.
Na música, além de cantor, ensinava os colegas a cantar, principalmente boleros e
sambas. Com sua charanga animava os comícios de seus candidatos ou eventos políticos
de prefeitos nas inaugurações de obras em toda a cidade. Nos domingos, participava dos
programas de auditório ou externos, realizados nos bairros da cidade pelos radialistas Titio
Brandão e Germano da Silva.
O Carnaval era seu forte e desfilava nas baterias de blocos e escolas de samba de
Itabuna. Cantou e tocou nas escolas Império Serrano, Salgueiro e Nova Mangueira, esta
fazendo parte da diretoria. Perto de completar os 80 anos, Pintadinho surgia
garbosamente na bateria do Bloco Casados I…Responsáveis, no qual participou
ativamente desde o a sua fundação. Homem de variados instrumentos, Pintadinho
recebeu certificado da Sociedade Montepio dos Artistas de Itabuna como percussionista
pelos instrumentos que tocava.
Mesmo após ter sofrido duas cirurgias: próstata e hérnia, Pintadinho continuou
trabalhando como alfaiate, já não mais com as encomendas de ternos, calças e camisas,
mas sobretudo de consertos, com a mesma dedicação. Pintadinho não abria mão de no
fim do dia descer até a praça dos Capuchinhos para comprar os pães e trocar uns leros
com os amigos.
José Pintadinho, ou José Alves da Silva, nos deixou num sábado, 13 de agosto de 2011,
aos 83 anos.

*Radialista, jornalista e advogado

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