PIABA, O FUTEBOL NO DNA DE FAMÍLIA
Por Walmir Rosário*
Custo a acreditar que o craque já nasce feito, embora tenha minhas dúvidas sempre me
vem à mente a história de determinados jogadores de futebol do passado, que já
apareceram “arrepiando” nos campinhos de baba, tanto faz na zona rural ou na cidade. É
certo, que por mais modesto que tenha sido, sempre atuava um “jogador técnico” nos
diversos times de futebol por esse Brasil afora.
No caso em questão, me refiro a Piaba, um itajuipense baixinho que “sobrava” nas zagas
e meio campo dos times pelos quais passou, e tinha lugar assegurado na Seleção de
Itabuna amadora, a hexacampeã baiana. E Piaba fazia parte de uma família pródiga em
craques, com os irmãos Almir, Abel, Aloísio, Luiz e Ariston, jogadores importantes nos
clubes de Itajuípe, Buerarema, Ibicaraí, Ilhéus e Itabuna.
Batizado Antônio Avelino dos Santos, nasceu em Itajuípe em 26 de outubro de 1935 e o
apelido Piaba veio do seu comportamento e estilo de jogo, pela forma esguia,
escorregadia, serelepe de tomar a bola e se desvencilhar dos adversários. Assim que saiu
da fazenda Independência, onde foi criado e veio residir em Itajuípe, começou a aprender
o ofício de alfaiate com o mestre Boca-rica, o mesmo que lhe deu o apelido.
E foi o Boca-rica – um mestre de alfaiataria de renome – que apadrinhou Piaba em sua
famosa oficina e nos campos de futebol, atuando pelo Independente, Internacional e o
lendário Bahia de Itajuípe. Com o tempo, Boca-rica se muda para Ibicaraí, e não abre mão
do seu aprendiz de alfaiate e promessa de craque. Na nova cidade, Piaba dá um show de
bola e se torna revelação.
No Independente de Itajuípe, de Litinho (Wanderlito Barbosa), chamava a atenção a
atuação de duas famílias, que praticamente completavam o time inteiro. Eram Piaba e os
cinco irmãos, além do próprio Litinho e seu irmão Bel. Esse era um pequeno exemplo da
quantidade de craques itajuipenses que jogavam em sua cidade, além de Itabuna, Ilhéus
e até em Salvador, a capital do estado.
Mas Piaba dá saudade de casa e retorna a Itajuípe, passando a jogar no lendário Bahia.
Considerado um dos maiores craques, é também convocado para a Seleção de Itajuípe. E
não era por menos, pois o Bahia chegou a ser considerado o time do século da região
cacaueira. Com o crescimento de Piaba no futebol passou a ser cobiçado pelos grandes
clubes das cidades de Itabuna e Ilhéus.
E o Flamengo de Ilhéus, de Gildásio Almeida, foi mais rápido e conseguiu fechar contrato
com Piaba, levando o craque para a cidade rival de Itabuna. O goleiro Antônio Pires, do
Bahia de Itajuípe e do Janízaros, ainda lembra que o dirigente do Fluminense de Itabuna,
Frederico Midlej, e o itajuipense Hemetério Moreira, diretor do Janízaros, disputaram a
vinda de Piaba para Itabuna, queda de braço vencida pelo Fluminense. Posteriormente,
Piaba se transfere para o Janízaros, como queria o amigo Hemetério Moreira.
Em Itabuna, como era praxe entre os jogadores de Itajuípe, Piaba chega pra ficar,
encantando pelo seu futebol sério e decisivo, despertando a atenção de outros clubes. O
atleta itajuipense também jogou pelo Flamengo, sagrando-se campeão em 1963, com o
timaço formado por Luiz Carlos, Abiezer, Zé David, Leto, Péricles, e Piaba; Gagé, Maneca,
Tertu, Tombinho e Luiz Carlos II.
Apesar de sua pequena estatura – 1,66 metro de altura – Piaba tinha disposição para
cabecear e bolas altas não eram problema. Possuía uma grande impulsão, sendo
constantemente comparado ao seu companheiro de seleção, Ronaldo Dantas, outro
baixinho do futebol que não se amedrontava com adversários mais altos. Piaba e Ronaldo
se revezavam nos jogos da seleção.
Piaba foi convocado para a Seleção de Itabuna e já em 1961 terminou o Campeonato
Intermunicipal como bicampeão. Daí não saiu mais até a conquista do hexacampeonato,
em janeiro de 1966, embora o certame seja relativo a 1965. Na seleção de Itabuna foi
decisivo na conquista do Hexacampeonato baiano e sua figura em cima do carro do Corpo
de Bombeiros com o rosto enfaixado chamou a atenção.
Na partida final, Piaba levou um pontapé no rosto, aplicado num choque com o jogador
Meruca, que até hoje gera controvérsias se foi um simples encontrão ou premeditado para
tirar o craque de campo, pois seu substituto estava contundido. Meruca foi o mesmo
jogador que não conseguiu evitar a cabeçada de Pinga e que resultou no gol da vitória da
Seleção de Itabuna e no hexacampeonato.
A chegada da Seleção itabunense que acabara de conquistar o Hexacampeonato Baiano
de Futebol amador em Itabuna foi uma verdadeira apoteose, numa comemoração sem
precedentes. Na chegada foi realizada uma carreata com os jogadores desfilando em cima
do carro de bombeiros, cedido pela Prefeitura de Itabuna. A imagem mais marcante era a
de Piaba com o rosto inchado e coberto com gases e faixas, contrastando com a alegria
estampada na fisionomia dos jogadores e da torcida.
Piaba foi um dos poucos jogadores a atuar pelas seleções de Itajuípe, Ilhéus e Itabuna,
além do Galícia, de Salvador. Devido a alguns problemas de saúde, Piaba retorna a
Itajuípe, sua terra natal. Até atingir os 30 anos de idade, o atleta não bebia nem fumava.
Porém, o laudo médico apontou o uso do cigarro como a causa de sua morte, em 15 de
julho de 1997.
Piaba morreu triste, no hospital, sem conseguir ver os seus companheiros de sucesso no
futebol.

*Radialista, jornalista e advogado.


