Palestra sobre Ulisses: uma viagem entre o labirinto & o caos
O escritor Kleber Torres ministrou uma palestra sobre Ulisses: O labirinto & o caos, livro publicado pela Amazon, na Academia Grapiúna de Letras (Agral), que realizou a sua última reunião na Loja Maçônica 28 de Julho, numa sessão presidida por Samuel Leandro Oliveira de Mattos . O livro o Labirinto & o Caos reúne uma série de artigos, resenhas críticas e ensaios sobre a obra de James Joyce, um escritor que foi reconhecido como genial, experimentalista e também despertou criticas e reprovações. Ele foi apontado por muitos como obsceno e louco, sendo considerado pelos ingleses como excêntrico e irlandês, uma vez que, segundo o seu biógrafo maior Richard Ellmann, este é “um epiteto que, levando-se em conta a variedade de literatura produzida pelos irlandeses”, parece perigosamente inglês. O livro também coincide com os festejos agora em 1922 do centenário de Ulisses, hoje um clássico e uma referência definitiva na literatura universal.
O ensaio Algumas ideias por trás da construção de uma obra em progresso mostra James Joyce como autor de Música de Câmera – uma obra pálida com 36 poemas e Giácomo Joyce (poesia), Dublinenses (
Já Uma teoria estética para compreensão da obra de James Joyce procura apontar uma chave para a compreensão da obra do escritor irlandês e que foi deixada de propósito pelo escritor na quinta parte do Retrato de um Artista Quando Jovem, uma espécie romance autobiográfico, em que propõe e elaboração de uma teoria estética aplicável no campo da arte e da própria vida. Para Joyce, objetivo do artista é criar a beleza, mas o que seria esta beleza é uma outra questão, valendo lembrar que Santo Agostinho dizia que chama-se de belo o que a vista agrada.
O autor de uma obra em progresso é também citado no ensaio O garimpeiro das insignificâncias em busca da iluminação mostrando a religião como um importante ponto de referência na vida e na obra do escritor James Augustine Aloysius Joyce, ex-aluno do Clongowes Wood Colllege, mantido pelos padres jesuítas. Esta experiência religiosa se refletiu nas suas epifanias, consideradas o ponto central da sua concepção artística e que emerge de forma enfática no conjunto de toda a sua revolucionária produção literária.
As Formas de penetrar na leitura e compreensão de Ulisses tem como marco teórico o ensaio comparativo de “Ulisses” e Suas Traduções: Um Estudo de Avaliação Comparada elaborado por Débora Landsberg Gelander Coelho ainda quando aluna do Departamento de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. O trabalho avalia as duas traduções de Ulisses de Antônio Houaiss (1966) e Bernardina Pinheiro (2005), mas não inclui uma terceira tradução de Caetano Galindo (2012), publicado após a conclusão do estudo.
O artigo Um homem que acreditava na palavra e na busca de Deus, destaca o rompimento de James Joyce com a Igreja Católica, a quem chamava copeira da cristandade, mas a doutrinação religiosa pela mãe e pelos jesuítas foi tão forte, que a sua influência emerge de forma plena no conjunto da sua obra literária. A religião aparece como pano de fundo até de paródias de preces e jaculatórias ou até uma espécie de sacramento, para quem acreditava na arte da palavra, como também no Pai, no Filho, no Espírito Santo e até em Jacks MaCarthy.
Além de adorar o herói homérico Odisseu pela sua astúcia e capacidade de invenção no enfrentamento dos problemas em suas aventuras entre sereias, bruxas, ciclopes, monstros, ninfas, lotófagos, gigantes ou nos confrontos os mais diversos, James Joyce considerava Ulisses, num pedestal mais elevado que outros grandes personagens da literatura universal, a exemplo de Hamlet, de William Shakespeare; Dom Quixote, de Miguel de Cervantes; Raskolnikolv , de Fidor Dostoiévski ou Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe. Este é o tema o ensaio A engenharia mágica na construção de um anti-herói moldado pela astúcia e invenção.
Uma série de processos e censura marcou o lançamento de Ulisses nos Estados Unidos, Inglaterra e outros países. Este é o tema do ensaio Uma obra polêmica que ampliou o debate sobre pornografia e erotismo, pois UIisses foi considerado um romance obsceno para os padrões morais da época do seu lançamento, desde a sua publicação como folhetim seriado na revista The Little Review, de Nova York, dois anos antes do lançamento definitivo do livro, que teve o mérito histórico de ampliar o debate estético sobre a diferença entre a pornografia e o erotismo com os seus diferenciados componentes artísticos.
A morte é um tema recorrente em Ulisses, de James Joyce, que é de certa forma uma grande paródia da Odisseia, uma narrativa considerada fundamental para mudança dos cânones da literatura Ocidental. O artigo Entre o Hades, a morte ou humor negro em Ulisses tem como referência o entêrro de um amigo de Leopold Bloom e envolve uma profunda reflexão sobre a transitoriedade da vida e os rituais para sepultamento dos mortos, que são parecidos entre as diferentes classes sociais. O texto também envolve uma paródia de humor negro.
Ao analisar a obra de James Joyce, o poeta Paulo Leminski, que cuidou da tradução de Giacomo Joyce, considerava que Os Dublinenses revelava a Irlanda vista do lado de fora; Retrato do Artista quando Jovem, a Irlanda vista de dentro; Ulisses foi definido por ele como o entrechoque entre o fora e o dentro, num monólogo interior, que revelava a luminosidade do dia e a história. Para ele, Finnegans Wake, quarta obra prima desta cavalgada das valquírias joyceana, seria uma síntese dialética entre o fora e o dentro, um exercício de pura linguagem, revelando a noite e o sonho. Este ensaio fala de Finnegans Wake : um sonho para ser lido em voz alta, mostrando um livro essencialmente noturno e que se contrapõe a Ulisses considerado diurno pelos críticos.
O texto Mallarmé x Joyce e a complexa escritura do retorno é uma análise crítica do livro Escritura do Retorno – Mallarmé, Joyce e Meta-Signo, de Piero Eyben, publicado pela Editora Horizonte, 760 páginas, tendo como pano de fundo a produção de uma dissertação e tese de doutoramento com o objetivo discutir na área acadêmica — a partir do conceito de escritura e de suas consequências para a teoria literária — a problemática da estrutura de retorno que a linguagem dos textos de Mallarmé, a partir de um Coup de Dés Jamais N’Abolira le Hasar e de James Joyce, em Finnegans Wake, mantém sobre si mesma.
Ninguém discute que os avanços tecnológicos geram impasses e mudanças em todas as áreas, com impacto na cultura, na economia, no trabalho e até mesmo na própria vida das pessoas, com a internet das coisas – IoT. Hoje, vivemos um momento de transição em que graças ao suporte dos notebooks, dos iphones, dos telefones celulares e de uma série de gadgets digitais com acesso à internet e às redes sociais através do uso do hipertexto, com a mídia impressa convencional sendo colocada em xeque e imersa numa profunda crise, este é o tema do artigo O hipertexto e os múltiplos caminhos da invenção.
A ideia do livro A poesia e os caminhos da invenção, de Kleber Torres, surgiu após um debate online promovido pela Academia Grapiúna de Letras (Agral), no início de setembro de 2021, em Itabuna e que teve como tema É a poesia necessária? Este é também o tema da resenha crítica As pedras rolantes atiradas no meio do caminho da invenção poética.
Ulisses, editado em 1922, é considerado uma obra-prima de James Joyce, autor que se propôs a fazer tudo o que quisesse com a linguagem quebrando normas e cânones literários, acabando ao mesmo tempo com a forma e concepção do romance convencional. Este o foco central do artigo A polêmica sobre uma obra prima e recheada de erros, levando em conta uma publicação editada pela Garland Publishing, nos anos 80 do século passado, com o dobro das páginas do texto original, contabilizando mais de cinco mil erros, aproximadamente sete por página, isso na primeira edição financiada por amigos do escritor.
O livro Giacomo Joyce (poesia) “é a tentativa joyceana de educação sentimental de uma dama morena, seu adeus a uma fase de sua vida e, ao mesmo tempo, sua descoberta de uma nova forma de expressão da imaginação criadora”, segundo Richard Ellmann. Este é o assunto da resenha Um poema de amor platonicamente nunca dito, sobre uma obra minimalista em que o menor aparece em lugar do maior.
15 contos que nos introduzem nos cenários joyceanos de Dublin é uma curtaresenhasobre oprimeiro livro de Joyce, Dublinenses que reúne 15 contos, entre os quais Arábias, Graça e Os mortos, considerados um mergulho na cidade natal do autor, escrito em 1904 e publicado dez anos depois, que foi recebido com indiferença pela crítica literária.
O anexo de O Labirinto e o Caos, incorpora um ensaio A Obra Aberta e a estética do caos, que parte do principio de que o discurso aberto é típico da arte e da arte de vanguarda em particular, o que se aplica à obra de James Joyce. O livro a Obra Aberta, escrito em 1962, por Umberto Eco tem sido objeto de uma série de reedições e atualizações, por considerar que o novo discurso é acima de tudo ambíguo, pois não tende a nos definir a realidade de modo unívoco, definitivo e acabado, nos colocando diante de uma situação de estranhamento e nos deixando na grande área sem pai e sem mãe. Em síntese ele pressupõe que a obra aberta tem como primeiro significado a sua própria estrutura e o fato de que a mensagem não se consuma jamais aparecendo como uma fonte de informações possíveis e de respostas nem sempre prontas e acabadas.
Outro artigo é Microcontos : um desafio minimalista , tem como base o livro Microcontos, de Kleber Torres, uma experiência literária que envolve desafio minimalista de contar uma história em poucas palavras. A obra parte da sugestão de Ítalo Calvino, que defendeu, em “Seis propostas para um novo milênio” (1988), a construção de uma obra minimalista com leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência, mas esta última não chegou a ser apresentada porque o autor faleceu antes da conclusão da obra.
Antipoesia entre a contestação, humor e o plágio é o título do ensaio sobre a obra do poeta e contestador Isidore Ducasse, morto prematuramente aos 24 anos e que esperou outros 17 anos para conquistar os primeiros leitores, na segunda metade do século XIX, sendo considerado o pai da antipoesia. Ele nos legou dois volumes paradoxais de Poesias, livros antipoéticos que sucederam à publicação do iconoclasta e enigmático Os Cantos de Maldoror, escrito sob o pseudônimo do Conde de Lautrémont.
O ensaio A estética revolucionária da poesia concreta fala dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, que juntamente com Décio Pignatari lançaram em paralelo à 1ª Exposição Nacional de Arte Concreta, as bases do que seria o equivalente literário de uma tendência deflagrada a partir das artes plásticas. O concretismo considerava que em lugar das metáforas, da inspiração e transpiração do poeta, deveria haver uma busca de um novo conteúdo gráfico e de uma nova forma com força expressiva similar a das palavras.
O painel caótico de um poeta criativo e que brincava com a morte é o título uma resenha critica da biografia de Paulo Leminski (1944-1988), no livro Minhas Lembranças de Leminski, assinado por Domingos Pellegrini e é resultado da convivência de dois escritores durante uma amizade de décadas, mostrando um poeta criativo e que brincava com a morte. O livro revela o gosto do poeta pelas bebidas destiladas, consumindo duas garrafas de vodca por dia e pela cerveja que o levaram a uma morte prematura.
O último ensaio Um iconoclasta que quebrou os cânones e mudou a essência da poesia é sobre uma das obras-primas da modernidade e um marco de rebeldia, o livro Os Cantos de Maldoror (Les Chants de Maldoror) escrito por Isidore Ducasse, com o pseudônimo de Conde de Lautréamont, é uma inovadora experiência poética em prosa, dividida em seis partes, que apontou com a quebra dos cânones literários para os caminhos do surrealismo e da vanguarda no século XX. O autor questiona ao homem como um inseto predador, ao seu Criador e debocha da própria existência do poeta como ser não essencial ao mundo material e ao sistema produtivo.
|
ResponderEncaminhar
|


