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OS COBIÇADOS RAPAZES DO BANCO DO BRASIL Por Walmir Rosário

OS COBIÇADOS RAPAZES DO BANCO DO BRASIL Por Walmir Rosário

O Banco do Brasil sempre foi considerada uma instituição singular, de prestígio em todo o
país. Queiram ou não, era bem diferente dos demais estabelecimentos bancários, de
acesso mais restrito a correntistas e funcionários. Estes somente ingressavam no corpo de
funcionários pelo sistema de meritocracia, por meio de um concurso nacional, após anos
de estudo. Valia a pena, por ser um emprego pra vida toda, até a sonhada aposentadoria.
Assinada a carteira e vencido o estágio probatório, o funcionário do BB era considerado
um ser diferente, quem sabe superior, na hierarquia social, tanto pelo prestígio que gozava
na sociedade. A começar pelo contracheque, apelidado de espelho, recheados de
cruzeiros, cruzados ou reais, em comparação aos salários pagos pelos bancos privados,
também considerados bons pelos empregados.
E somente ingressavam no quadro de funcionários rapazes e moças cujo desempenho no
concurso fosse bem acima da média. Uma prova considerada “pau a pau” com os temidos
vestibulares. Língua portuguesa, com questões difíceis de gramática; história, e a mais
temida: a matemática. Mas não bastava, quem não fosse ágil e com um pedigree de ouro
na datilografia nem se habilitasse, seria reprovado na hora.
Lembro dos meus tempos de menino, em que ficava deslumbrado ao entrar na agência
Itabuna do BB e apreciar – com emoção – os lépidos funcionários datilografando contratos
ou outros serviços. Mas além de “bater a máquina”, ficávamos embevecidos com o cálculo
feitos na máquina Facit manual, com as teclas numéricas e manivelas girando para frente
e para trás, era um espetáculo para nós garotos.
Nem precisaria comentar, mas os funcionários do BB chamavam a atenção por serem
considerados moços de alto partido pelas donzelas casadoiras, que se postavam nas
janelas de suas casas no horário em que eles encerravam o expediente. Era um festival de
suspiros quando eles passavam, muitas das vezes marcados por troca de olhares e
algumas frases galanteadoras. Melhores partidos não haviam nas cidades.
Mas para ostentar esse pesado status, os funcionários do BB foram obrigados a abrir mão
de certos comportamentos e enfrentarem algumas mudanças na vida. Como o Concurso
era nacional, na maioria das vezes tomavam posse no cargo em cidades e estados longe
de onde moravam. Tinham que enfrentar as famosas repúblicas (morada coletiva) até que
constituíssem família ou uma transferência para a cidade de origem.
Lembro que em minha vida profissional, que me obrigava a “morar” em várias cidades e
estados ao mesmo tempo, sempre encontrava um membro da Família Satélite (como são
conhecidos os funcionários do BB). Era uma festa quando encontrávamos esses
“conterrâneos), que muitas das vezes até davam um jeito de facilitar nossa saída das
intermináveis filas de atendimento nos caixas.
Por volta de 1977, saí da empresa em São Paulo com destino a Angra dos Reis para
receber o pagamento de uma medição na Petrobras (oleoduto de Angra a Caxias). A
Petrobras liberava o cheque três dias antes, com a recomendação de ser sacado no dia tal.

Com o atraso na viagem, ao chegar na agência do BB, enquanto estacionava o carro, o
relógio marcou as fatídicas 4 horas e os vigilantes fecharam as portas.
Eu não acreditava no que via, depois de horas viajando, consegui pegar o cheque na
Petrobras e enquanto estacionava o carro encerrava o expediente. Enquanto eu olhava,
sem acreditar, as portas fechadas, vejo um amigo de Paraty, Paulinho Polaco, gerente da
casa lotérica em frente, que me pergunta: “O que foi?” E eu, desolado, conto o meu triste
contratempo.
Paulinho me pede para esperar e entra por um corredor ao lado do prédio, conversa com
o vigilante e entra na agência. Acena-me e entramos na agência. Quando me dirijo ao
caixa indicado, dou de cara com um velho conhecido de Itabuna, Luiz Magaldi, que dá um
grito: “Menino, o que você está fazendo aqui?”. Após o cumprimentos, agradeço a
Paulinho e aos funcionários do BB, guardo a grande soma de dinheiro e vou embora.
Canavieiras é outro local onde guardo boas recordações do BB, muitos velhos e bons
amigos. A agência do BB era uma potência e atendia a vários municípios da região, nas
transações de impostos federais ou empréstimos da então pujante cacauicultura. Como
àquela época dispunha de linhas regulares de aviação, era considerada uma cidade de
grande porte.
Nos anos 1950, num desses concursos, uma turma da zona sul do Rio de Janeiro é
aprovada e escolhe Canavieiras, cidade praiana e com voos diários para tomar posse.
Quando aqui chegam, descobrem que a cidade não dispõe de energia elétrica, ruas
calçadas, boates refinadas, enfim, a vida carioca. Com o prestígio, conseguem,
transferência para a cidade Maravilhosa e resolvem prestar uma homenagem.
Entram no avião e um deles volta para o esperado discurso de despedida, que Boinha
Cavaquinho lembra até hoje: “Canavieiras, Canavieiras, /Terra dos coqueirais,/Vai pra puta
que pariu, /Que aqui não volto mais”. Temendo reações, imediatamente fecharam a porta
do avião, que partiu com direção do Rio de Janeiro. Como toda a família, a Satélite
também tem sua pluralidade.

Radialista, jornalista e advogado.

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