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OS CASTIGOS EM NOME DA CIÊNCIA OU ESFERAS DIVINAS

OS CASTIGOS EM NOME DA CIÊNCIA OU ESFERAS DIVINAS

Não se brinca com assunto sério! Esse ditado tem perpassado gerações e é dito
geralmente quando não se admite qualquer controvérsia em relação a um tema que
envolva determinado fato, que cause dor ou constrangimento. Fora disso, vem como
advertência a uma determinada crítica feita por alguém do povo a ato ou fato praticado
por alguém ou autoridade de escalões superiores.
O que critica, embora embasado na consagrada Carta Cidadã, como queria Ulisses
Guimarães, poderá enfrentar sérios problemas de ordem legal junto ao poder judiciário,
atrelado aos dissabores financeiros e outros contratempos. Ao entendimento juntam-se as
famosas proibições do politicamente incorreto, hoje “legalizado” pelos ditos progressistas e
o incauto cidadão estará metido em camisa de onze varas.
Se nesta terra de Santa Cruz existisse pena de morte, um desavisado qualquer estaria em
maus lençóis ao propor, por exemplo, um suco de mastruz misturado com leite de vaca –
tirado na hora –, para extirpar o mal dos peitos, botando para fora todo o catarro. Mas
como por aqui pena de morte só é aplicada por meio da pobreza, cujo cumprimento se dá
pela falta de ingestão dos alimentos, me atrevo a recomendar: Mastruz com leite (não a
banda musical) para os males do Covid-19.
E posso comprovar cientificamente os benefícios medicamentosos do mastruz, do alto dos
meus 70 anos, certificando, a quem interessar possa, todos os milagres desta santa
plantinha, fartamente encontrada no campo e na cidade. Lembro de um vizinho que sofre
daquela doença ruim que o povo tinha até medo de falar – a tuberculose – e que se curou
com a ajuda providencial do mastruz com leite.
Num domingo desse vi uma reportagem na televisão que uma cidade mineira está
estimulando a plantação desses remédios caseiros nos quintais das unidades de saúde,
com a ajuda dos próprios pacientes, moradores das redondezas. Ao que parece está tudo
indo às mil maravilhas. Só não posso dar um atestado científico de sua eficácia contra o
maldito vírus de agora por falta de outra reportagem.
Mas voltando a um passado mais ou menos recente, me salta aos olhos as tristes visões
dos amigos e vizinhos acometidos de doenças “brabas” como sarampo, catapora, papeira
e até varíola, a pior de todas. Todas elas curadas com plantas cultivadas nas casas
vizinhas e que eram tiro e queda: um bom banho de sabugueiro para fechar as feridas,
um chá de pitanga para acalmar a febre e uns caroços de milho em baixo da cama.
Além de não custar um centavo, bastava apenas ser amigo dos cultivadores dessas
plantas e um muito obrigado. Já a papeira, ou caxumba, requeria outros cuidados
significativos, principalmente nos homens. Caso fossem bem cuidados e os pacientes não
fizessem nenhuma estripulia durante a recuperação, estava sarado para o resto da vida;
do contrário, a inflamação desceria para os testículos e o dito cujo ficaria estéril.
Um corte mais ou menos profundo merecia um tratamento de certa forma mais simples,
como uma pequena porção de pó de café para estancar o sangue; caso o estrago fosse

maior, o pó de café estancaria o sangue até chegar ao hospital. Uma picada de cascavel lá
pelas caatingas bastaria uma incisão de canivete junto à marca dos dentes da danada e
um pouco de querosene, o cabra estava novinho em folha. Melhor ainda se fosse em local
que desse para sugar o sangue e cuspi-lo fora.
Não sei como explicar, mas as doenças daquela época pareciam menos perigosas,
bastando um remédio caseiro e um meio dia de descanso, já as de hoje se sofisticaram e
ficaram metidas a besta. Qual o filho de Deus que imaginaria algum dia ver, com os olhos
que a terra há de comer, as manias dessas doenças de hoje, que não precisam ficar
vagando a esmo por aí e têm até horário e local de acometer o coitado.
Pelo que fui informado, o vírus tem hábitos noturnos em algumas cidades e se recusam a
dar o ar da graça em supermercados (deve ser com receio dos preços altos), agências
lotéricas, bancos e farmácias. Também não gosta de andar (fuxicando) em casa alheia e
tampouco se apavora com leis e decretos de autoridades. Quanto mais o povo se esconde,
o danado do Covid-19 fica amuado e não respeita qualquer isolamento.
Pelas notícias chegadas de Ipiaú, o vírus agiu com flagrante desrespeito ao Santo
Padroeiro da cidade, São Roque, o Roque de Montpellier, protetor contra a peste e
padroeiro dos inválidos e cirurgiões. Em Itabuna, terra que goza do prestígio de São José,
pai do Nosso Senhor Jesus Cristo, ele também não deu a mínima e espalhou o terror nos
quatro cantos da cidade.
Dentre todas as possibilidades que engendrei, tirando fora o mastruz com leite, a
hidroxicloroquina, a ivermectina e a azitromicina, vistas até então como coisa sem
importância pela ciência, só resta ao povo apelar para outras esferas divinas. Como disse
nosso colega baiano, radialista e compositor da música Súplica Cearense: “Oh! Deus, se
eu não rezei direito o Senhor me perdoe, / Eu acho que a culpa foi / Desse pobre que nem
sabe fazer oração / Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água / E ter-lhe pedido
cheiinho de mágoa…”

Walmir Rosário; Radialista, jornalista e advogado

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