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O SUMIÇO DA CORUJA DO BAR DE PEDRÃO

O SUMIÇO DA CORUJA DO BAR DE PEDRÃO

Por Walmir Rosário
Pelo que se comentava – a boca miúda –, Pedrão (Pedro Ribeiro) teria desistido de manter
o seu estabelecimento aberto no hoje Alto Beco do Fuxico, após ter perdido seu pássaro
de estimação, que lhe acompanhava há mais de 20 anos. Era uma coruja supereducada,
que não se intrometia na conversa dos clientes, embora prestassem atenção a tudo e a
todos com a maior discrição. Uma amiga fiel de Pedrão.
Além de servir à vasta clientela quase todos os tipos de bebidas, Pedrão também oferecia
serviço de restaurante, considerado por servir uma das comidas mais deliciosas do centro
da cidade, rivalizando, na parte de aves, com as galinhas ensopadas e a molho pardo do
ABC da Noite, do Caboclo Alencar. Também era inigualável nas comidas de resistência,
como rabadas, fatadas, mocotós, sarapatéis e sobe-e-desce.
Bastava chegar no dia anterior ou logo cedo e sugerir a Pedrão que gostaria de comer o
prato de sua predileção que ele se encaminhava à feira livre e adquiria todos os produtos
necessários para o almoço ou jantar aprazado. Todos os dias, além da clientela de bebidas
e tira-gostos, apareciam alguns senhores da alta sociedade para desfrutar das coisas boas
da vida deixada por Deus para satisfazer os homens de boa vontade.
Pedrão era um cozinheiro afamado – atualmente seria considerado um conceituado cheff
de cozinha – e era procurado pela gente da alta sociedade para preparar a comida das
farras com os amigos fora de casa. Aniversários, despedidas de homens solteiros,
comemorações futebolísticas, pagamento de apostas entre os fortes comerciantes,
fazendeiros e profissionais liberais tinham endereço certo: o bar de Pedrão.
Mas eis que um dia, por volta das 11 da manhã, chega um cliente já em estado avançado
de bebedeira e diz que voltaria logo mais com alguns amigos para beber e a comida de
sua predileção: galinha a molho pardo. Pedrão questionou que não teria tempo suficiente
ir à feira para comprar as galinhas vivas, matá-las e cozinhá-las a tempo de servir ao
conhecido grupo.
Irredutível, o exigente cliente diz que não aceita desculpas e se sentiria desmoralizado se
não fosse servido no seu pedido predileto. Pedrão bota as mãos na cabeça sem saber que
rumo tomar para atender ao cliente – nem tão frequentador –, mas que inspirava receios
por falar alto, andar armado e ter fama de não ter medo de briga e ainda trocar tiros ao
se sentir desfeiteado.
E Pedrão corre para a feira e àquela hora não encontra uma galinha sequer, nem viva nem
morta; passa em dois restaurantes de amigos para tentar que lhe cedam umas duas
cabeças para atender a emergência e nada. Não conseguiria atender ao esbravejado
cliente e por certo teria enormes e insolúveis problemas à frente. Enquanto caminhava de
volta ao bar e restaurante, a cabeça girava em busca de um milagre.
Como bom cozinheiro, se virou com o que tinha dentro de casa, pois como calculava, a
turma deveria chegar no mais alto grau e seria fácil entretê-los com uma comida de
sustança, bem temperada. Antes, eles deveriam beber um litro de whisky, uma caixa de

cerveja, entre um prato e outro de tira-gostos dos mais diversos, preparados com o que
tinha dentro de casa.
E assim fez como o planejado: Lombo de porco de panela, passarinha assada, saboroso
sarapatel, mocotó misturado a fatada com legumes, e carne do sol dois pelos bem
assadinha. A cada pedido de bebida Pedrão pedia a Deus e todos os santos que o livrasse
dos malfazejos e da raiva de seus clientes, sem querer nem pensar no resultado. Bastava
olhar a cintura de cada um deles para ver um revólver pendurado.
Eram filhos de coronéis do cacau e de boiadas, a exemplo do anfitrião da turma, filho de
grande fazendeiro, com força política junto ao governador do Estado, pois era deputado
eleito com um grande número de votos. A cada vez que saía da cozinha não queria nem
pensar da hora de colocar a panela de galinha a molho pardo para aquele batalhão de
gente. Para se livrar, a todo a hora renovava os pratos de feijão, arroz e carnes.
Lá perto da boquinha da noite, eis que o cliente se levanta e pede a galinha a molho
pardo que tinha encomendado, pois já passava de hora de irem para casa. Era visível o
fastio e o sentimento de barriga cheia no rosto de cada um deles, bastante alegres e
cansados pelo tamanho da farra. Após mais uns minutos de espera, surge Pedrão com
uma pequena travessa com a tão solicitada galinha a molho pardo.
Pedrão pede desculpara por não conseguir servi-los como sempre e cada qual come um
pedaço da ave, arrematam com mais uma carne do sol de dois pelos, pedem a conta,
pagam e vão embora. Tão logo deixam o estabelecimento, alguns vizinhos chegam para
saber dos mais recentes acontecimentos e os motivos daquela farra em pleno dia semana.
Ainda nervoso, Pedrão pede desculpas e fecha o bar, alegando muito cansaço.
No dia seguinte, os clientes notaram a falta da observadora coruja, pendurada na gaiola
aberta, presa por uma corrente. A todos Pedrão dava uma desculpa qualquer, sendo a
mais utilizada a impensada fuga do seu animal de estimação, anos e anos juntos. Pelo que
os vizinhos deduziram, na falta da galinha que deveria ser cozida a molho pardo, Pedrão
lançou mão da coruja, temeroso em não atender aos exigentes e valentes clientes.
Muitos anos após, após uma farra na casa do pecuarista Rui Nunes – assíduo frequentador
do Beco do Fuxico –, perguntei ao seu irmão mais velho, Paulo Nunes Filho, se seria
verdade ele ter sido o responsável pelo sumiço da coruja de Pedrão. À época, já sem
militar na área etílica, ele jurou não ser conhecedor de tal fato. Acredito que teria sido um
esforço para esquecer os arroubos da juventude.
Só que a coruja nunca mais apareceu e anos depois o bar de Pedrão deu lugar ao bar de
Itiel, preenchendo uma irreparável e sentida lacuna que deu início ao repovoamento etílico
do Alto Beco, ressentido da aposentadoria de Alcides Rodrigues Roma. Pelos meus
conhecimentos no ramo, daqui pra frente cristão algum terá coragem para desfalcar o Alto
Beco do Fuxico, dos bares Artigos para Beber e Confraria.

Radialista, jornalista e advogado

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