O SUL DA BAHIA TEM QUE BEBER CONHECIMENTO NA ORIGEM
Por Walmir Rosário*
Rever os conceitos faz um bem danado para quem quer se manter na
onda, auferindo resultados positivos. Por mais que façamos certo,
sempre tem algo em nossa vida ou nossos negócios que precisa ser
acertado. Afinal, como diz a piada, relógio que adianta não atrasa. É o
tal de adiantar o passo após as reflexões, já transformadas em ações
presentes e futuras.
Num simples apanhado, o Sul da Bahia não vai mal: o cacau se
recuperando em genética, sanidade e preço de comercialização; o
comércio se mantém estável, passando pelas mudanças de sempre,
resistindo bravamente; os serviços a mil por hora, principalmente na
área da saúde privada, com profissionais qualificados e equipamentos de
ponta.
Não sei se estaria sendo coerente comigo mesmo se afirmasse que
estamos apenas a um pontinho acima da mesmice, tendo em vista que
grandes investimentos não são direcionados para o Sul da Bahia. Prova
disse é a população estável, com índices bem abaixo de outras regiões
da Bahia, mesmo possuindo terras férteis, chuvas em abundância e
infraestrutura considerável.
Não nos faltam faculdades e universidades, embora, em minha opinião,
ainda um pouco distantes dos setores produtivos, sem dar régua e
compasso para fazer a economia prosperar. Como se tal não bastasse,
nossa antiga fonte de desenvolvimento científico – devidamente
comprovada – a Ceplac, é hoje carta fora do baralho.
Nossa tão sonhada indústria de informática, implantada em Ilhéus, não
prosperou como planejada, embora ainda contribua para o crescimento –
e quem sabe –, um dia para o desenvolvimento. Não conseguimos
implantar um aeroporto internacional (gargalo para informática) e somos
sobressaltados constantemente com a paralisação da construção da
Ferrovia Oeste-leste (Fiol).
A Fiol e o Porto Sul – irmãos siameses –, e atual esperança nossa de
desenvolvimento, sofrem com as paralisações decorrentes da política
governamental e das empresas mães. Os motivos são os mais díspares
possíveis, que vão desde as dificuldades econômicas do mercado
internacional, as mudanças societárias e até desconfiança na política
governamental.
E nós sul-baianos, já acostumados às dificuldades, simplesmente
aguardamos que as bênçãos dos céus desçam por aqui para solucionar
problemas que não foram criados pelos religiosos ou nossos santos
padroeiros. Esperar por ações de nossos representantes políticos é tarefa
impossível, pois não os colecionamos nas muitas eleições por décadas
passadas.
Se olharmos para o passado, quem sabe poderíamos nos espelhar em
nossos ancestrais, os sergipanos, que há mais de um século deixaram
suas cidades assoladas pela seca para construir a civilização cacaueira,
grapiúna. Aqui enfrentaram as matas fechadas e inóspitas,
enriqueceram, criaram praticamente toda a infraestrutura de uma nova
região.
Não custa lembrar que a economia da região cacaueira prosperou em
níveis cada vez mais crescentes, apesar das dificuldades de então.
Criaram um mercado forte, cujo produto por eles comercializado era
pago ao produtor mesmo antes de entregá-lo. Comércio bem diferente
do restante da atividade agrícola, cuja liquidez inicia geralmente após os
30 dias da entrega.
Como bons descendentes de sergipanos – caatingueiros dos bons –,
visitamos nossos parentes, passamos férias em Aracaju, local em que
encontramos sul-baianos nas ruas como se em Ilhéus ou Itabuna
estivéssemos. Só que desprezávamos o campo, há anos em plena
transformação. Pois bem, aos poucos começamos enxergar as
mudanças, realizadas de forma silenciosa.
Há muito os sergipanos descobriram que, se tinham capacidade de fazer
crescer negócios em outras regiões, também poderiam prosperar em sua
própria terra, já bastante conhecida. No campo, resistiram às secas,
criaram tecnologias para conviver e superar as dificuldades. Nas cidades,
desenvolveram pequenas indústrias, notadamente de confecções, redes
e o turismo.
Hoje todo o Brasil está perplexo com a capacidade de superação do
sergipano, na cidade ou no campo. Silenciosamente, desenvolveram
gado de leite e corte de alta qualidade, animais criados com comida de
qualidade; e todas as espécies de produtos agrícolas, com produtividade
de fazer inveja aos centros mais avançados.
Se antes se deslocavam em cima de caminhões pau-de-arara para se
livrar da seca e ganhar a vida no Sul da Bahia, hoje plantam cacau numa
região antes impensável. Não acredito que essa virada histórica saiu
apenas de um papel num gabinete qualquer, mas sim da vontade de
viver bem na sua própria terra, construindo sua própria e nova história.
Se antes o Sul da Bahia “importava” os sergipanos como simples mão de
obra para implantar a cacauicultura, bom seria fazermos o caminho
inverso, desta vez para beber da sabedoria dos nossos parentes em
todas as áreas da economia. Por certo, voltaríamos com um novo
cabedal de conhecimento para impulsionarmos nossa região. Também
aproveitem o passeio, pois o sergipano continua sendo um excelente
anfitrião.
*Radialista, jornalista e advogado.



