O retrato de um tempo e de uma geração em conflito
Gestado em 1968, considerado um ano mirabilis e revisado à posteriori para esta edição, Desbunde, de Kleber Torres, em fase de prevendas até o dia 29 na Amazon, quando será feito o seu lançamento, reflete um período da vida brasileira marcada pela contestação, pela contracultura e envolve questionamentos políticos, sociais e culturais de toda uma geração que viveu num mundo conturbado, anárquico e em constante mudança.
A obra revela influências do Uivo, de Allan Ginsberg e de Lula Corporal e Novos Poemas de Ferreira Gullar, que também dos legou Poema Sujo, bem como dos Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan e de uma geração de músicos brasileiros como Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Torquato Neto. O livro tem uma face contracultural.
No livro 1968 – O que fizemos de nós, Zuenir Ventura definde desbunde como “aquele estado em que, por efeito de drogas ou por uma opção consciente, a pessoa procurava trocar um comportamento careta por uma vida desregrada à margem do sistema.” O fato é que a vida, mesmo nos dias hodiernos, é feita de escolhas e poucas são as chances de sucesso e ascensão social.
O livro Desbunde, começa e termina dialeticamente com “aruê, dão/aruê dandão”…um mote da festa de São Sebastião evento tradicional no início de cada ano, em Olivença, no Sul da Bahia, e revela a busca de uma linguagem e de uma forma poética num mundo marcado pela disputa do sucesso econômico, pela propaganda e por uma série de valores ligados ao consumo ou à cultura de massas.
Na obra, o autor questiona a função da poesia e diz que “Camões não sabia que eu vinha depois dele/ nem manuel maria du bocage (Bocage)/ e joseph marie du arouet (Voltaire) também não/ nem kafka,/ (James) joyce,/ (Ezra) pound ) e eliott ness (uma referência a Thomas Stern Elliot)/ intocáveis habitantes desta/ e doutras galáxias ou nebulosas gums”.
Há também questionamento sobre a rotina do dia a dia com suas mesmices, o emprego e o patrão com seus reclames, além dos assaltos a mão armada que não são novidade e “do chofer de caminhão/ que estanca insone na pista antes da buzina inevitável/ indeciso diante das rotas infinitas/ desmembradas entre retas e curvas/ muitas vezes sem ponto de partida” e muito menos de chegada.


