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O CRAQUE BORRACHUDO E A BRONCA DA MAMÃE

O CRAQUE BORRACHUDO E A BRONCA DA MAMÃE

Por Walmir Rosário
O futebol é pródigo em tudo! E por isso mesmo – acredito eu – a razão de tanto sucesso.
No futebol, as coisas erradas acabam dando certo e nem mesmo o politicamente correto
consegue sobreviver. Ainda bem! É o futebol que faz muitos jogadores famosos – alguns
conceituados –, embora efêmeros, não importa, embora também seja perverso com
outros tantos que vão do céu ao inferno em bem pouco tempo.
Se todo o jogador que se preze pudesse jogar como atacante, marcando gols, por certo
estaria em alta constante com a torcida, endeusado pelos feitos, um drible desconcertante
ali, um gol de placa para ganhar o jogo, quem sabe o campeonato. É a glória. Já outras
posições, principalmente as defensivas, já não conseguem sempre conviver com esse
clímax, que digam os goleiros.
Pra não ter que encompridar esse “nariz de cera”, vamos ao que interessa: os apelidos dos
jogadores. Sejam eles oriundo da infância – de casa ou da rua – ou os recebidos nos
campos de futebol. Não causa espanto que uma grande parte dos apelidos tenha sido
dados pelos cronistas esportivos – notadamente os repórteres de campo e narradores de
partidas inconformados com a pronúncia ou bizarria.
No nosso futebol paroquiano – seja Itabuna, Ilhéus ou Salvador – os jogadores conhecidos
por apelidos não são poucos e muitos fizeram história sem se importar de como passaram
a ser conhecidos. O importante era jogar bola, e bem, seja em que posição atuasse. Há
também casos em que os nossos cronistas esportivos simplesmente não gostaram do
apelido e passaram a chamá-lo pelo nome, o que nem sempre deu certo.
Alguns apelidos são inesquecíveis e se encaixam perfeitamente nas pessoas – no caso os
jogadores em questão – e o exemplo mais límpido é o de Pelé (Edson Arantes do
Nascimento soa estranho); Garrincha, Mané Garrincha, tanto faz; Didi, o Folha Seca, o
Príncipe Etíope, o Senhor Futebol, todos conhecem, mas se perguntarmos por Waldir
Pereira…dará um trabalho danado para sabermos de quem se trata.
O Furacão da Copa também atende por Jair Ventura Filho, ou Jairzinho, sem qualquer
problema, já o também botafoguense Heleno de Freitas era chamado de Príncipe Maldito,
o que, convenhamos, não pega bem. Artur Antunes Coimbra ainda é chamado de Zico, um
diminutivo dado pela família, mas os narradores da época gostavam de chamá-lo pela
alcunha de Galinho de Quintino, sem qualquer problema.
Agora imaginem a mãe de um jogador de futebol ter que aturar a crônica esportiva
chamar o seu mimoso filhote de Leandro Banana, Flávio Caça-Rato, Pinga (o herói do
Hexa da Seleção de Itabuna). Cláudio Caçapa? Melhor a morte! Pior, ainda, é Cascata, Ruy
Cabeção (ex-Botafogo), Yago Pikachu, Boquita, Rafael Ratão, embora pouco importassem
que nomes os chamassem e sim o que futebol que jogavam.
Em certos casos os nomes de batismo e registro civil não pegam bem para um jogador de
futebol. Imagine o narrador ter falar com rapidez que Parmênides passou a pela para
Ariclenes, que driblou Pelópidas Guimarães. Esses nomes não deram certo nem no cinema

e televisão, tanto que Ariclenes se transformou em Lima Duarte e Pelópidas passou a ser
conhecido e chamado por Paulo Gracindo.
E assim é por esse mundo afora. Não foi diferente com um lateral-esquerdo do meu
Botafogo do bairro Conceição, conhecido por Borrachudo. Para não perder a embocadura,
nesta época o Botafogo de Rodrigo tinha o jovem Iaiá como um promissor goleiro e
mecânico da empresa de ônibus Sulba. Ao ser convocado para Seleção de Itabuna não
quis saber do apelido e só aceitava ser chamado por Aderlando, conforme lembra outro
não menos famoso goleiro Raul Vilas Boas, também conhecido no futebol por Marcial
(goleiro do Flamengo) pelas pontes que cometia para pegar as bolas altas.
Como sempre, a mídia acredita que sempre sabe das coisas e o grande narrador da
época, Geraldo Santos (hoje Borges), e o repórter e comentarista Ramiro Aquino
resolveram dar uma forcinha para Borrachudo. Apesar de experientes, a dupla nunca tinha
visto um apelido desse, e logo no jovem reserva do Botafogo que assumiria a titularidade
o apelido poderia ser um fator negativo.
Tudo combinado na emissora e no dia seguinte começa o jogo no velho campo da
desportiva entre o Botafogo e Fluminense. E o nosso lateral-esquerdo fez valer sua
ascensão e foi um dos destaques do jogo. Só que em vez de Borrachudo, os radialistas
Geraldo Santos e Ramiro Aquino se esmeraram em chamar o jovem pelo seu nome de
batismo: José Carlos, como tinham prometido.
No dia seguinte, ao chegarem à emissora para apresentarem a resenha esportiva, o jovem
Borrachudo, destaque no jogo, esperava os radialistas para que consertassem um mal-
entendido que lhe causou dissabores em casa. É que a senhora mãe de Borrachudo –
agora José Carlos – passou-lhe o maior sabão por ele ter dito que jogaria naquela tarde e
seu nome sequer apareceu no rádio. Ela não tinha ouvido uma vez sequer na transmissão.
Desse dia em diante a dupla Geraldo Santos e Ramiro Aquino desistiu do intento de mudar
os nomes dos jogadores, se esmerando para tornar as transmissões mais humanizadas.
José Carlos voltou a ser chamado de Borrachudo e o seu colega goleiro Aderlando, que
não teve grande êxito na seleção itabunense, voltou a ser chamado pela crônica esportiva
de Iaiá. Sem traumas!

Radialista, jornalista e advogado.

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