O BERIMBAU, A SAPOPOCA E O FAZ TUDO JUVENAL
Por Walmir Rosário
Ainda na praça da Feira, em Canavieiras, onde hoje funciona o Classe A Magazine, O
Berimbau funcionava num compartimento ao lado e aos fundos da mercearia dos sócios
Neném de Argemiro e Himério Cavalcante. À época, O Berimbau era uma instituição quase
autônoma, assim como hoje é o Banco Central em relação ao Governo Federal, o que quer
dizer que manteria uma independência relativa.
Na mercearia, dois sócios; em O Berimbau, reinava absoluto Neném de Argemiro e seu faz
tudo Juvenal, personagem histórico da área da feira livre, homossexual, que àquela época
gostava mesmo era de ser chamado de dona Juvênia. Naquele tempo não existia o
politicamente correto e era a apoteose quando chamavam com o apelido, o mesmo que
flutuar entre plumas e paetês.
Em O Berimbau, Juvenal tinha afazeres tantos, que até se confundia com suas múltiplas
habilidades, que iam de atuar como moço de recados (office boy), comprar o peixe das
muquecas de sábado, incluindo aí os temperos, servir os clientes na ausência de Neném
de Argemiro e rodar a baiana, o que fazia com imenso prazer. Alto e de boa compleição
física, vivia a vida que escolhera, se dava bem com todos e pouco se zangava.
Mas Juvenal tinha uma serventia maior para Neném de Argemiro: era o seu piloto de
provas na feitura e preparo da sapopoca, cachaça rinchona, como era chamada
pejorativamente naqueles tempos e que se perpetuou até hoje. Era a cachaça feita a
partir do álcool desdobrado, após as alquimias ao ser misturado com água e açúcar, em
um tonel de 200 litros.
Neném de Argemiro já tinha a receita da mistura guardada na cabeça, mas como nem
sempre o álcool e o açúcar eram de boa procedência, as qualidades duvidosas apareciam
na primeira mistura. E era justamente Juvenal – na especialidade de piloto de prova –
quem conferia o ponto certo da mistura. Com um enorme remo na mão, mexia a calda e,
em seguida, com um caneco provava o ponto da mistura.
Precisa de mais um pouco de álcool, mais um pouquinho de açúcar, agora um litro de
água, até acertar o ponto. Enquanto preparava a sapopoca, os clientes aguardavam na
porta, geralmente os hoje conhecidos como a turma da meiota, e os clientes dos
botequins de ponta de rua, que vendiam cachaça sem qualidade e utilizada largamente
por ser mais barata do que as cachaças de rolha ou tampilhas.
E era Neném de Argemiro o mais famoso alquimista, cachacier ou cachaçólogo de
Canavieiras e que fornecia a conhecida sapopoca interior adentro, levadas nas canoas rio
acima, vencendo distâncias. Os pedidos eram tantos, que Neném de Argemiro e Juvenal
se desdobravam para atendê-los, sem perda de tempo, para não deixar os clientes da
cidade e interior na falta do produto.
Na praça da feira, além da mercearia d’O Berimbau, outros botequins – principalmente os
chamados pés-sujos – comercializavam a sapopoca de Neném de Argemiro e seus clientes
eram bastante conhecidos, por beberem até irem ao chão, dormindo por longas horas.
Esses eram conhecidos por apresentarem os pés inchados, que segundo comentários do
povo, causados pelo alto consumo da cachaça.
Um desses era o também conhecido Chico, que se ocupava em dar recados, ajudar os
clientes a levar as compras em casa, coisas deste tipo, até iniciar os trabalhos etílicos,
quando passava a recusar qualquer tipo de serviço, por mais alta que fosse a gorjeta.
Como Chico, outros tantos faziam a festa diária ao comprarem uma pequena garrafa – daí
o nome meiota – de sapopoca.
E Juvenal chegava cedo para cumprir suas tarefas diárias em O Berimbau, passando antes
por um tabuleiro de mingau onde fazia o seu desejum matinal. Barriga cheia, ao se dirigir
para abrir a porta d’O Berimbau, se depara com Chico dormindo debruçado numa lixeira
com as calças arriadas. Juvenal não contou conversa e, na frente de todos, praticou o
“serviço”.
Com o fato consumado, passou a se vangloriar, dizendo pra todos os clientes e passantes
o ato antes cometido contra Chico, sem economizar nas explicações, contando tintin por
tintin. Mesmo após a história passar a ser de domínio público, Juvenal não aceitou a
qualificação de heterossexual, por considerar um adjetivo que não combinaria com sua
performance de Juvênia.
Ao ser questionado, dizia sem a menor cerimônia:
– Quem disse que padeiro não come pão?
Assegura o bancário aposentado Raimundo Tedesco que esta foi a única vez que se
registrou uma história deste tipo em O Berimbau, que mudou de endereço dois meses
depois do fato ocorrido.
Radialista, jornalista e advogado



