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NEM SÃO JOÃO NEM 2 DE JULHO; ADEUS NOSSA CULTURA

NEM SÃO JOÃO NEM 2 DE JULHO; ADEUS NOSSA CULTURA

Pois é, você comprou uma mercadoria, lhe entregam outra. De uma tacada só perdemos
nossos festejos juninos, o São Pedro das viúvas e o majestoso 2 de Julho. Digo perdemos
– eu, você e mais alguém que tem a sagrada mania de obedecer as leis, mesmo que elas
não tenham valor prático nenhum, mas por sermos legalistas.
Se fosse uma aquisição com proteção no Código de Defesa do Consumidor você poderia ir
a juízo e buscar a reparação dos danos sofridos. Só que o eleitoral não lhe dá essa chance
e caso você tenha juízo poderá se redimir nas eleições vindouras, desde que não caia – de
novo – no “conto do vigário” da propaganda eleitoral gratuita.
Como o babado é outro, nos resta o jus sperniandi, por agora, e julgarmos nas urnas o
prejuízo sofrido. E não me venham com chorumelas que a fumaça das fogueiras e dos
fogos nos deixaria mais expostos à Covid-19. Essa desculpa não cola, haja vista que Bahia
afora o couro comeu solto.
Não faltaram fogueiras e fogos – os permitidos ou não – nas cidades onde os festejos são
mais tradicionais, bem como nos distritos e área rural, locais em que São João é mais que
um simples primo de Jesus Cristo. Tem status de padroeiro, santo forte cuidador das
plantações, da fartura no campo e na cidade.
Não há doença, epidemia ou pandemia que faça o coração e a mente do nordestino virar a
casaca por meio de uma simples lei ou decreto, ainda mais quando se trata das coisas
divinas. A quem o sofrido nordestino vai rezar e pedir senão ao Deus Senhor de todas as
coisas e aos santos padroeiros?
Não há registro na história de que nossos sertanejos tenham perdido a fé, pois pode até
demorar um pouquinho, mas os pedidos feitos aos céus são atendidos sem qualquer tipo
de cobrança. Já não se pode dizer o mesmo em relação aos homens, mormente os que
tratam da política.
Deve ser por causa das dificuldades em se encontrarem mais vezes. Esses desencontros,
pelo que dizem são causados pelas péssimas condições das estradas por esse sertão, onde
sobra poeira e falta água até para as necessidades mais básicas. E nem precisa levar em
conta que em Salvador e Brasília têm muito trabalho pela frente.
Não é que eu queira falar mal, apenas cito as dificuldades entre os da terra – políticos – e
os do reino do céu – santos – em atender nossas solicitações. Apesar de mais longe,
nossos santificados padroeiros conseguem fazer com que as anotações de suas agendas
não sofram qualquer tilt, como costuma acontecer a dos da terra.
Mas vamos esquecer os pedidos e atendimentos e vamos tratar dos nossos júbilos
terrestres, nossas consagradas vitórias pelos bravos combatentes baianos, especialmente
os do Recôncavo, ringue das batalhas. Um mutirão daqueles de fazer inveja, com homens
e mulheres – bacamartes às mãos – detonando os portugueses.
É certo que naquele tempo não existiam essas descriminações de raças e gêneros, haja
vista a diversidade do cortejo do 2 de Julho, onde se misturam o caboclo, o negro, o

branco, o homem e a mulher. No dizer dos livros de história, os tiros que saiam do
bacamarte de Maria Quitéria matavam portugueses do mesmo jeito que o índio
Bartolomeu ou Agostinho Sampaio.
Juro de pés juntos que não estou reclamando atoa ou por causa dos feriados, até ter
todo o tempo livre do mundo, mas como um patriota que vai às ruas homenagear nossos
heróis no garboso desfile. No feriado antecipado não havia o mínimo clima para me
empertigar e cantar o Hino ao 2 de Julho.
“Nasce o sol a 2 de julho / Brilha mais que no primeiro / É sinal que neste dia / Até o sol,
até o sol é brasileiro”. Já na introdução essa brilhante letra de Ladislau dos Santos Titara e
música de José dos Santos Barreto inflama nossos corações por lembrarmos de ter
expulsado os invasores vencidos em 1822 e teimosos por não aceitar nossa vitória.
E jamais poderemos nos descuidar do final do hino, compostos com o mesmo poder de
uma cláusula pétrea da nossa Constituição: “Nunca mais, nunca mais o despotismo/
Regerá, regerá nossas ações, / Com tiranos não combinam / Brasileiros, brasileiros
corações / Com tiranos não combinam / Brasileiros, brasileiros corações”.
Quero a minha cultura de volta.

Walmir Rosário; Radialista, jornalista e advogado

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