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MEU RIO CACHOEIRA DE ANTIGAMENTE

MEU RIO CACHOEIRA DE ANTIGAMENTE

Walmir Rosário
Confesso que sou um pouco saudosista, mas quem há de resistir àquelas boas lembranças
dos tempos de criança e adolescente? Poucos insensíveis, diria eu, recordando a belezas e
a funcionalidade do rio Cachoeira dos anos 1950/60. A beleza plástica está quase toda
registrada nas telas dos nossos artistas, com suas pedras à mostra, às vezes nem tanto,
pois também serviam de “quarador” para as centenas de lavadeiras de ganho, ou de casa,
que utilizavam as abundantes águas.
Labutavam, ainda, nas águas do velho Cachoeira pescadores – alguns especializados – de
pitus, calambaus e camarões; peixes das mais variadas espécies, em sua maioria nobre, a
exemplo de robalos, jundiás, tucunarés; os areeiros, que retiravam a areia para as
construções com suas canoas e transportadas nos jegues; tipo de transporte também
utilizados para levar água (de gasto e de beber) às residências que não dispunham de
água encanada, artigo (melhor, serviço) raro à época.
Com poucos esgotos in natura (tratamento também não existia) despejando no nosso rio,
era o local da higiene corporal de muitos moradores, alguns que se exibiam com saltos e
braçadas durante a natação num simples banho. As águas límpidas – embora salobra –
era um convite, inclusive durante a noite quando alguns se aventuravam a mergulhar e
nadar sorrateiramente para furtar os peixes capturados nas grozeiras e outras armadilhas
colocadas em frentes às residências.
Os donos sabiam quem eram os larápios, mas nada de chegar às vias de fato, bastava
uma simples censura, como geralmente assim fazia Pepê, hoje o advogado Pedro Carlos
Nunes de Almeida, que tinha suas armadilhas ali na rua da Jaqueira, hoje avenida
Fernando Cordier. Nos tempos atuais, mesmo com os parcos recursos, poucos se
aventurariam a entrar nas águas superpoluídas do nosso velho rio, ainda mais com peixes
suscetíveis a todos os tipos de doenças.
Sem medo de errar ou ser interpretado como politicamente incorreto, até as inundações
do rio Cachoeira eram de encher os olhos e correr o mundo com as notícias da invasão
das águas na pujante Itabuna. E olhe que naquela época não existia internet ou redes
sociais, ganhava o mundo através dos jornais, telégrafo e dos microfones das rádios
Clube, Difusora e Jornal, já que os serviços de alto-falante Tabu (bairro Conceição) e a Voz
da Cidade não tinham longo alcance.
Passada a refrega, o comércio contabilizava seu prejuízo, refazia seus planos e tudo
voltava à normalidade. A economia cacaueira dava o seu ar da graça e todos voltavam a
ser o grapiúna de sempre, rico mesmo sem ter dinheiro no bolso, mas com muito crédito
na praça. Nenhuma cidade do porte de Itabuna possuía o número de agências bancárias
numa mesma avenida, a Cinquentenário, e todas funcionando, emprestando dinheiro e
recebendo aplicações da venda do cacau.
Voltando ao comércio, a Cinquentenário e adjacentes se impunham com a galhardia de
seus luminosos, confeccionados em gás neon, apagando e acendendo em intervalos

diferentes, como só se viam nas grandes metrópoles pelo mundo afora. E os visitantes
ficavam de “queixo caído” com nossa beleza feérica, tanto assim que muitos anos depois
um conhecido biólogo da capital fluminense (à época Niterói), José Zambrotti, enchia os
pulmões para nominar Itabuna como a Broadway brasileira.
Nem parecia que meses atrás tinha sofrido a grande catástrofe e, assim como no
comércio, indústria e serviços maiores, a vida do rio voltava ao normal, com todos
utilizando o que as águas produziam e permitam que fosse retirado para o bem do
homem. Até as pontes voltavam ao normal. Me refiro às pontes do Tororó (conhecida
como dos Velhacos), estreita, baixa e somente para pedestres, e a do Marabá, cujo nome,
Miguel Calmon, ainda é desconhecido da maioria da população, que eram interditadas.
Hoje maltratado, o rio Cachoeira ainda tenta sobreviver, mesmo contra a falta de vontade
dos nossos governantes, que pela importância dos rios, já poderia merecer tratamento
diferenciado, com um projeto de despoluição desde sua nascente até o chamado “mar de
Ilhéus”, onde deságua. Atualmente nenhum artista plástico dedicaria parte do seu tempo
para retratar seu leito tomado pelas baronesas, criadouro do mosquito da dengue, ou as
águas fétidas e de cor encardida pelo caldo derramado pelos esgotos.
Mesmo assim, ainda tenho a esperança de vê-lo, se não como o de antigamente, mas um
rio importante na nossa vida e na socioeconomia do itabunense, do grapiúna. Gostaria de,
em cima das pontes atuais e das que serão construídas, poder apreciar o Cachoeira
revitalizado na Itabuna altaneira que sempre acostumamos a ver. Espero um dia possa ter
essa oportunidade, assim como todos os itabunenses – daqui e de fora – que aprenderam
a amar essa terra.

Radialista, jornalista e advogado.

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