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JUAREZ VICENTE, O MULTIFACETADO BOKADEFOGO

JUAREZ VICENTE, O MULTIFACETADO BOKADEFOGO

Por Walmir Rosário*
A única certeza que temos na vida é a da morte. Às vezes ela chega sem esperar e conclui
sua empreitada, outras, nem tanto, encosta no indivíduo e fica ali apesar de todas as
resistências, minando a saúde até concluir o seu intento. Com Juarez Vicente de Carvalho
foi assim, não adiantou espernear, a morte venceu a vida. 30 de janeiro de 2013. Se vivo
ainda estivesse, neste 5 de abril de 2022 completaria 70 anos.
Tristes, nós, que gostamos de Juju (apesar dele ter morrido), estamos de luto, embora
sua morte não vá apagá-lo de nossas memórias. Cumpriu o ciclo da vida. Nasceu, cresceu,
viveu e foi embora. Particularmente, considero a vida (o viver) uma das características
mais importante de Juarez Vicente, dada a sua vontade de exercê-la em sua plenitude e
deixou um importante legado.
Professor de Química, Juarez deixou um vasto conhecimento repassado aos alunos, hoje
homens feitos e que sentem orgulho quando falam do seu professor. Mas a sala de aula
não foi o seu principal sacerdócio, reservado ao jornalismo, um repórter dedicado, um
editor que “não brigava com a notícia”. Trafegou na contramão enfrentando poderosos
sem se importar das consequências, muito comum no interior.
E foi assim que foi conhecido nos veículos de comunicação por que passou, notadamente
nos rádios e jornais, onde tratava a notícia com seriedade, mas sem desprezar as
especulações. O “Bokadefogo”, como era conhecido pelo título da coluna que sempre
levou para os veículos em que trabalhava, cuspia marimbondos. Era implacável em suas
críticas, notadamente sobre política.
Com a mesma seriedade com que tratava a comunicação social nos veículos de
comunicação, exercia os cargos de assessoria de imprensa de autoridades dos poderes
Executivo e Legislativo com responsabilidade. Transitava bem dos dois lados do balcão,
com se diz comumente no jargão do jornalismo. De natureza tranquila por excelência,
comprava brigas comunitárias, defendia os mais humildes.
E Juarez não se limitava somente ao exercício da labuta das redações e assessorias. Era
um sindicalista que participava de todas as lutas dos profissionais de comunicação,
compartilhando com os companheiros de congressos, mesas redondas e workshops com a
mesma desenvoltura de uma mesa de negociação salarial. Lutava por uma categoria
acostumada a divulgar notícias de outras, nem sempre se importando da sua.
Sua luta está registrada na direção do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado da
Bahia (Sinjorba), particularmente na Delegacia Sindical do Sul da Bahia, da qual participou
como candidato da eleição mais concorrida, no final da década de 1980. Pleito acirrado, o
Sinjorba enviou dois representantes da capital – Nestor Mendes Júnior e Anísio Félix –
para verificar os acontecimentos e apaziguar os ânimos. Perdeu a eleição, mas não sua
dignidade e o ímpeto para a luta.

O Juarez Vicente das redações, que por vezes não fazia concessões para escamotear a
verdade, era o mesmo Juarez Vicente poeta, com livros publicados e participação ativa na
vida cultural grapiúna. Fundador do Clube do poeta, exerceu também sua presidência,
cuja contribuição é por demais conhecida. No livro “Avisos” dava conselhos em versos
sobre o cotidiano da comunidade.
Multifacetado, ou multimídia, tanto faz, ainda conhecemos o Juarez Vicente cantor, com
passagens por diversos grupos musicais e bandas de Itabuna. Com um vasto repertório de
sambas, boleros, jovem guarda, bossa-nova e jazz, animava as madrugadas nos quatro
cantos de nossa cidade. Esperava o sol raiar com a maior tranquilidade, animando os
amigos mais chegados.
A boemia era uma das facetas de Juarez Vicente, onde colecionava amigos tantos para um
grande bate-papo nas mesas de bar da cidade. Aconchegado num desses ambientes
debatia com maestria desde a atividade de um varredor de ruas até as científicas viagens
à lua, com argumentos irrefutáveis. Lá pras tantas, para evitar as distensões por conta da
ingestão de cachaça e cerveja, sabia como ninguém encerrar o bate-papo que
descambava para o prenúncio de uma confusão:
– Deixa pra lá, isso tudo é uma questão de hermenêutica; está entre a dialética e a
metafísica – argumentava com altivez.
E não se fala mais nisso.
Juju faz uma falta danada!

*Radialista, jornalista e advogado

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