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ITABUNA, 110 ANOS DE GENEROSIDADE

ITABUNA, 110 ANOS DE GENEROSIDADE

Não é todo o dia que se comemora 110 anos! Uma idade respeitável para uma venerável
cidade, generosa, acima de tudo, e que sempre concedeu todas as oportunidades aos que
a procuram. Mesmo antes de se emancipar de Ilhéus em 1910, o distrito de Tabocas era
conhecido pela sua ousadia de filha precoce que sempre buscou andar com as próprias
pernas, sem a dependência financeira.
De início, mal interpretada pela mãe Ilhéus, exigente e responsável pelo futuro da filha,
cujos planos e costumes da época se limitavam ao agarramento das saias e submissão ao
pátrio poder. Os quase 30 quilômetros da sinuosa estrada que os separavam Itabuna
proporcionavam um desejo de independência, emancipação, pois a gente desbravadora
das terras do sem-fim também sabia e queria dirigir seus destinos.
Em 1909 os comerciantes do distrito de Tabocas demonstravam sua pujança e fundaram
sua Associação Comercial, com sede e diretoria própria, pronta para cuidar dos seus
interesses econômicos. O distrito prosperava a olhos vistos com a chegada de leva de
pessoas da Bahia, do Brasil e do exterior, fazendo funcionar todas as instituições da
comunidade, sem a ajuda de Ilhéus.
Enquanto lutava por sua emancipação, desbravava novas áreas, plantava e colhia cacau,
produzia alimentos para sobrevivência, comercializava e os melhores produtos da moda
vindos da Bahia (Salvador), Rio de Janeiro e Paris. Os cacauicultores lucravam com a
colheita do cacau e construíam as casas de comércio e seus sobrados, verdadeiros
palacetes.
As adversidades sofridas com as cíclicas enchentes alternadas com as secas eram
superadas à custa de muitas dificuldades daquela gente nortista – baianos da caatinga,
sergipanos, alagoanos –, aliada aos turcos, sírios, libaneses, portugueses e espanhóis. E
massa deu liga e até hoje está amalgamada na famosa Nação Grapiúna, de novos
costumes e cultura do cacau.
Por anos a fio Itabuna esteve no ranking das cidades que mais cresciam no país e passou
a ser considerada uma das principais para investimentos. O comércio e serviços
contribuíram decisivamente para mantê-la continuamente nessa posição de destaque.
Foram construídos hospitais, escolas, melhorada a infraestrutura urbana e rural e os filhos
dos coronéis do cacau voltaram das capitais diplomados, ostentando anéis nos dedos.
E Itabuna se fez cosmopolita, passou a interagir mais com Salvador, Rio de Janeiro, São
Paulo e Paris, desta vez não só com as compras de catálogos, mas através das casas
residenciais adquiridas nas capitais, a exemplo dos palacetes no chiquérrimo corredor da
Vitória. Tudo financiado com o lucro das fazendas de cacau, produto exportado para todo
o mundo.
E Itabuna não se fez de rogada ao perder quase uma dezena de distritos – emancipados
–, ao contrário planejou sua economia no que mais pendia sua vocação: o comércio e a
prestação de serviços, implantada com os melhores equipamentos. Época de estradas

ruins e navegação de cabotagem precária, o itabunense construiu um aeroporto para
chamar de seu.
A cada necessidade de crescimento ou desenvolvimento, os coronéis do cacau, do
comércio e dos serviços se reuniam e se cotizavam, doando terras, recursos em dinheiro e
materiais para implantar uma rede de energia elétrica, a pavimentação de uma rua, e até
a construção do aeroporto. O sobe e desce dos aviões rivalizavam com muitas capitais
brasileiras, devido ao alto poder aquisitivo da população.
Se o itabunense se preocupava com a economia, desprezava a política estadual e federal,
mesmo elegendo deputados locais. Se ufanava da riqueza que produzia, mesmo
recebendo migalhas em contrapartida. Bastava chegar ao tesouro estadual os recursos
oriundos do Imposto de Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS) do cacau para rodar a
folha de pagamento dos servidores e honrar os compromissos com fornecedores.
Não eram recursos exclusivos produzidos por Itabuna, embora grande parte foi gerada
com a comercialização nas grandes empresas compradoras e exportadoras de cacau aqui
localizadas. Veio a vassoura de bruxa e as aves de mau agouro vaticinaram o fim da
lavoura cacaueira, a extinção de Itabuna do mapa econômico regional. Apenas ameaças
que não chegaram a atemorizar o itabunense.
Aos poucos, a cidade conseguiu se recuperar e voltou a ocupar o lugar de destaque na
Nação Grapiúna. Administrações desastrosas, intemperes, políticas econômicas, preços do
cacau em baixa, nada disso abalou as estruturas sociais. Prova inequívoca é a pandemia
da Covid-19, cujo efeito devastador não chega a paralisar a cidade, apesar dos decretos e
ordens de fique em casa.
Consequência maior e mais triste é o itabunense nativo ou de coração poder comemorar o
Dia da Cidade na verdadeira data, por ter sido antecipada. Doloroso hoje, prazeroso
amanhã comemorar a volta por cima, nos moldes da cultura e tradição deste povo que
não se entrega às dificuldades, pois sabem combater o bom combate, sagrando-se
vencedor, como sempre.

Por Walmir Rosário;Radialista, jornalista e advogado

Foto;Waldyr Gomes

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