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IPOSSMÍVEL CALAR A IMPRENSA ILHEENSE

IPOSSMÍVEL CALAR A IMPRENSA ILHEENSE

Walmir Rosário
Conheço o radialista Luke Rey há muitos anos, com quem tive o prazer trabalhar junto.
Um repórter nato, daqueles que não briga com a notícia, dos que numa análise rápida
enxerga o futuro, sabe perguntar e respeita o entrevistado. Há muito não nos vemos e
recentemente soube que virou notícia, daquelas que ele sabe fazer. O que me intrigou foi
que o bom comunicador faz notícia, não se transforma em notícia.
Imediatamente, pensei…tem alguma coisa errada, pois Luke Rey nunca foi de pular para o
outro lado do balcão. Após uma busca na internet, chego aos fatos. Luke Rey foi obrigado
a deixar o comando do programa Gabriela News, na Gabriela FM. Até aí tudo bem, não
fosse a violência perpetrada contra ele pelo prefeito de Ilhéus, Mário Alexandre, o
conhecido Marão.
E Marão usou contra Luke Rey – um fiscal da sociedade – uma arma torpe, aquela usada
pelos poderosos, os de alto poder econômico: as ações judiciais, num total de nove,
contra um comunicador indefenso, cuja uma única arma que possui é o microfone e as
ondas do rádio. O crime cometido – pasmem os senhores e senhora –, apontar erros de
uma administração pífia, desorientada, de olhar enviesado para os problemas da cidade.
– A minha voz ficará muda, não sei até quando – reclama o radialista.
E Luke Rey não é um menino afoito, daquele que empunha um microfone como se fosse
um justiceiro, policial, membro do Ministério Público, um juiz ao sentenciar. O profissional
Luke Rey sabe muito bem distinguir a qualidade da notícia, a análise dos fatos, o que dizer
aos seus ouvintes. Não agradará a todos e isso é fato, principalmente aos que prometem
administrar uma cidade e nem sempre cumprem o compromisso.
Em Ilhéus um fato é notório: quem administra a cidade é o governador Rui Costa e não
Marão. E Luke Rey também sabe disto, afinal, são 35 anos de experiência. Por ser um
grande comunicador, é ameaçado por uma tempestade de ações judiciais contra o
exercício legal de sua profissão. Nove ações judiciais o forçam a encerrar o programa e a
carreira por conta da velha política do manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Se tornou uma prática corriqueira em todo o Brasil ingressar com ações judiciais contra os
comunicadores. É a luta dos filisteus com o gigante Golias à frente, contra os israelitas
liderados pelo pequenino Davi. Poderoso, Marão e seu exército de advogados entulham o
poder judiciário com ações, com o mero objetivo de apequenar, calar a voz de um
defensor da sociedade.
É a luta do milhão contra o tostão. Sim, pois ingressar com ações no poder judiciário,
mesmo sendo um preceito constitucional garantido no artigo 5.º, inciso XXXV, ao
determinar que “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a
direito”, independentemente de ter razão em uma demanda, qualquer pessoa pode iniciar
um processo judicial.
Ora, qualquer pessoa, por mais desinformada, sabe que para manejar a justiça é preciso
poder econômico, bancas de advogados que cobram os olhos da cara, custas judiciais

altíssimas. E esses são atributos intrínsecos ao poder político, notadamente quando se
exerce um cargo executivo, com uma grande procuradoria política a promover o ataque ou
a defesa do mandante de plantão.
Enquanto os interessados buscam ser amigos dos poderosos, aparecendo nas fotos,
colunas sociais, defendendo polpudos contratos, Luke Rey tem apenas na sua carteira de
clientes os ouvintes, milhares deles ávidos que a notícia de uma rua esburacada chegue
ao conhecimento do prefeito e consiga sensibilizá-lo. O que nos parece ser o dever
cumprido, é tema iminentemente pueril para os palacianos.
Não é a primeira vez que um comunicador se depara com esse golpe contra a dignidade
da pessoa, em que um poderoso tenta lhe tirar o emprego. Mais que isso, querem lhe tirar
a dignidade, a capacidade de trabalhar e com o suor do seu rosto manter as obrigações
mínimas de sua casa, cuidar de sua família, levar para casa o pão de cada dia, como todo
o trabalhador.
Mas o que importa aos poderosos é continuar com suas homéricas farras nos condomínios
de luxo, incomodando vizinhos madrugada afora, com músicas ao som mais alto. Estão
felizes, comemoram seus feitos, quem sabe calar a voz de Luke Rey e de outros
comunicadores que não rezem pela cartilha palaciana. Como disse Luke, manda quem
pode, obedece quem tem juízo.
E assim, Luke Rey encerrou o programa lembrando o trabalho de comunicação social que
fez ao longo da carreira, defendendo os ouvintes e agradecendo a todos que estiveram
com ele durante a caminhada no rádio.
– Me recuso a crer que fracassei, apenas me sinto injustiçado – desabafou.
Sem condições emocionais de apresentar o programa, Luke encerrou o Gabriela News
antes do terceiro minuto de duração. Mas como não há mal que sempre dure, neste
sábado (10), após a repercussão do caso, o radialista recebeu inúmeros manifestações de
solidariedade, inclusive de advogados se oferecendo para defendê-lo das ações judiciais.
Uma verdadeira campanha social para que a justiça seja feita e Luke Rey possa continuar
sendo o grande secretário a elaborar a ata dos acontecimentos sociais.

*Radialista, Jornalista e advogado

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