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Insegurança Alimentar na Educação Superior: Desafios para a Permanência Estudantil

Insegurança Alimentar Na Educação Superior: Desafios Para A Permanência Estudantil

Durante décadas no Brasil oacesso à educação Superior era restrito às famílias denominadas nobres, ou seja,aquelas que tinham recursos financeiros para garantirem a seus herdeiros acessoe permanência no ensino superior, (quase sempre localizado nas capitais e  grandes centros urbanos). Conforme Teixeira(1989), saímos de 24 escolas de ensino superior em 1900 para 375 em 1968. Já em2020, conforme Censo da educação superior,  foram registradas 2.456 instituições com um totalde matriculas  de 8.680.354  (INEP/MEC, 2022).

O avanço das matriculas naeducação superior pública se deu entre os anos 2000 e 2010. Conforme Barros(2015), as matrículas mais que dobraram no período. Programas como UniversidadePara Todos e Reuni possibilitaram a descentralização das IES para cidades dointerior,  diversificando os tipos decursos e períodos de realização.

As camadas mais  pobres da população brasileira, que até entãonão tinham recursos para o deslocamento e permanência em cidades distantes desuas origens e familiares e cuja grande parte, para sobreviver, necessitavatrabalhar e ajudar nas despesas familiares, começava a vislumbrar apossibilidade de ingressar no ensino superior.

A democratização do acesso(cotas/reservas de vagas) às universidades públicas, somada ao processo de descentralizaçãodas instituições, trazendo-as para mais perto de seus locais de origens,contribuiu para que um significativo número de aluno(a)s das camadas populares ingressassemem uma universidade pública, apesar da maioria das matrículas ainda estarem nainiciativa privada.

Após duas décadas dessa políticade ampliação de vagas e de democratização do acesso,  originários da educação básica pública, negro(a)s,indígenas, quilombolas, pessoas com necessidades educativas especiais naeducação superior passaram a integrar a paisagem das universidades públicas dandoa sensação de que, finalmente, o ensino superior era de todos e para todos .Grande engano!

Além da garantia do acesso, erapreciso se pensar urgentemente em políticas de permanência e de sucesso no ensinosuperior para esses grupos tradicionalmente excluídos desse nível da educaçãonacional. Mesmo sendo pública e gratuita, manter-se no ensino superior custamuito caro. Alimentação acesso a material da reprografia, deslocamento, roupa,sapato, material didático em geral, tudo isso tem um custo alto. Mal o(a)sestudantes das camadas mais vulneráveis economicamente da população brasileiraadentram às instalações das universidades públicas e já percebem que não seráuma trajetória fácil.

Conforme decreto 7.234/07/2010. “O Plano Nacional de Assistência Estudantil(Pnaes) apóia a permanência de estudantes de baixa renda matriculados em cursosde graduação presencial das instituições federais de ensino superior. Oobjetivo é viabilizar a igualdade de oportunidades entre todos os estudantes econtribuir para a melhoria do desempenho acadêmico, a partir de medidas quebuscam combater situações de repetência e evasão”.

Com o sucateamento da educação superior em nível estadual efederal, “assistência à moradia estudantil, alimentação, transporte, à saúde,inclusão digital, cultura, esporte, creche e apoio pedagógico”, estão extintasou minimizadas nas IES.

Dentre as dificuldades que enfrentamtalvez as mais difíceis sejam a insegurança alimentar e o cansaço.

Com o retorno às aulaspresenciais após dois longos e difíceis anos da pandemia de Covid-19 e duranteuma das maiores crises econômicas que o país enfrentou nos últimos 27 anos, temsido comum encontrar discentes que após vivenciarem perdas da família, doençasfísicas e psicológicas chegam famintos à universidade e/ou,  sem acesso á moradia próxima ao campus, queprecisam se levantar ainda de madrugada  para garantir o transporte de sua cidade, sóretornam para lá quando a noite termina.

Como docente de uma instituiçãopública de ensino superior, percebo durante as aulas a dificuldade deconcentração desse(a)s jovens, o esforço que fazem para esconder sua necessidadede se alimentar corretamente e a perda gradual de esperança em encontrar  os recursos mínimos para estarem ali.

Nesse contexto, o mínimo que auniversidade pública que se quer democrática precisaria garantir seria amanutenção de um autêntico restaurante universitário. Não estou falando de umacantina terceirizada que recebe da instituição vouchers para subsidiar aalimentação para poucos estudantes. Estou falando de um restaurante mantido porrecursos públicos com alimentação subsidiada para todos e todas da comunidade universitária.Um restaurante cuja a comida também refletisse a ciência que é produzida pelauniversidade, isto é, saudável,diversificada, balanceada e segura.

Sem esse mínimo a universidadepública está fadada a não conseguir cumprir os seus propósitos de permanência estudantil.Enquanto a luta pela satisfação das necessidades básicas estiver maior do que ascondições para o estudo estarão nós, enquanto universidades, fracassando emproduzir conhecimentos e emancipar a humanidade.

Em tempos de pós-pandemia e decrise econômica, pensar a segurança alimentar de nossa comunidade universitáriatornou-se fundamental para manter nosso(a)s estudantes na universidade. E a fomenão pode esperar!

É preciso que, enquanto coletivo,se faça algo agora! Pela imediata implantação do restaurante universitário já!Contra os valores absurdos que contribuem e fortalecem a exclusão.

Prof. Dr. Reginaldo de SouzaSilva, Departamento de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual doSudoeste da Bahia – UESB/DFCH

Foto:divulgação

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