ÉTICA – DO PÚBLICO AO PRIVADO
José Augusto Ferreira Filho*
02 de maio amanhece chuvoso no sul da Bahia – um sábado de feriado
prolongado, como outros tantos que esse ano de 2026 nos reserva. Ruas mais
vazias, repartições públicas fechadas, o silêncio ocupando o lugar da pressa
habitual. O Brasil, por um instante, parece suspenso: sem filas, sem carimbos,
sem balcões entre o cidadão e o Estado. E, ainda assim, é justamente hoje o
Dia da Ética.
À primeira vista, poderia parecer uma ironia. Celebrar a ética num dia em que o
serviço público descansa, logo este que é sempre o mais cobrado dentre todas
atividades, como se ela dependesse apenas do expediente aberto. Mas talvez
haja, nisso, uma oportunidade rara: pensar a ética fora da rotina, sem o ruído
das urgências, sem o automatismo dos protocolos. Porque a ética não mora no
prédio da repartição — ela habita quem, na segunda-feira, voltará a ocupá-lo.
Os servidores públicos, ausentes hoje de seus postos, não deixam de ser o que
são. Carregam consigo — para casa, para o convívio familiar, para o descanso
merecido — os mesmos valores que sustentam seu ofício. É no cotidiano
invisível, longe dos olhos do público, que se forma o caráter que, depois, se
manifesta no atendimento, na decisão, na responsabilidade com o bem comum.
Os servidores públicos, em sua imensa maioria, sustentam o cotidiano do
Estado com dignidade silenciosa. São eles que garantem que a escola abra, que
o hospital funcione, que o documento seja emitido. São a face concreta do
compromisso com o bem comum. Mas também vivem sob a sombra de um
sistema que, por vezes, cobra mais do que oferece — e que, não raramente,
falha em reconhecer o valor da integridade cotidiana.
E, acima deles, ou melhor, à frente das decisões que orientam o país, estão os
agentes políticos. Também em pausa, ao menos formalmente. Mas a ética que
lhes cabe não conhece feriado. Não se interrompe com o fechar das portas nem
com o apagar das luzes dos gabinetes. Ela os acompanha — ou deveria
acompanhar — em cada escolha, em cada articulação, em cada pensamento
sobre o uso do poder que lhes foi confiado.
O Brasil contemporâneo, mesmo num sábado silencioso, não se desliga de suas
contradições. Elas persistem, latentes, esperando a retomada da semana para
voltarem à superfície. Entre leis que apontam caminhos e práticas que insistem
em atalhos, a ética continua sendo mais exigida do que exercida — mais
lembrada em datas do que vivida na constância.
Mas talvez seja justamente neste intervalo, neste respiro coletivo, que se possa
enxergar com mais clareza o que realmente importa. Sem a distração da rotina,
resta a consciência. E nela, uma pergunta simples e incômoda: que tipo de
serviço público queremos quando as portas se abrirem novamente? Que
postura esperamos de quem nos representa?
Porque, mesmo no silêncio de um sábado prolongado, o Brasil continua sendo
construído — ou negligenciado — pelas escolhas de cada um. E a ética, ainda
que hoje não esteja de plantão, segue sendo chamada para o serviço que
nunca deveria parar.
O Brasil contemporâneo conhece bem essa tensão. Entre leis bem escritas e
práticas tortuosas, entre discursos moralizantes e condutas contraditórias, a
ética muitas vezes parece um ornamento — algo que se veste em ocasiões
solenes e se abandona na rotina do poder. E, no entanto, é na rotina que ela
mais importa. Não nas grandes declarações, mas nas pequenas decisões
repetidas todos os dias.
Há quem diga que o problema é cultural, como se fosse destino. Mas cultura
não é sentença; é construção. E toda construção começa com escolhas. A
escolha de não favorecer o próximo em detrimento do justo. A escolha de não
usar o cargo como escada pessoal. A escolha de lembrar que o poder é
transitório, mas suas consequências, não.
Porque, no fim das contas, a ética não transforma o Brasil de uma vez. Mas,
sem ela, o Brasil não se transforma nunca.
*Procurador Municipal – Servidor Público


