ESTA INTENSA VIDA SOCIAL ME CANSA!
Por Walmir Rosário
Durante anos me planejei para ter uma vida sossegada assim que iniciasse a desfrutar da
tão sonhada aposentadoria. Não deu certo e não me perguntem o porquê, pois também
não tenho a mínima ideia, embora acredite que tenha feito tudo da maneira mais
acertada, sem pular uma só etapa do que recomendam os especialistas nesse tipo de
transformação de um trabalhador em vagabundo – no bom sentido, é claro.
Foi uma transição pacífica, equilibrada, segura, sem qualquer tipo de arroubo para cair na
gandaia pelos bares da vida ou vestir o tal do pijama listrado, sentar numa
espreguiçadeira e contar estórias como fazia Pantaleão, personagem de Chico Anísio.
Continuei a trabalhar nos mesmos moldes e intensidade de antes, arrefecendo aos poucos
para não sentir nenhum impacto e desparafusar a cabeça.
Nos primeiros seis anos tudo saiu como planejado e, aos poucos, fui me desligando das
amarras até ficar completamente livre, leve e solto. Para os entendidos, aviso que não caí
de cabeça na gandaia, embora assumisse, cada vez mais, compromissos em agremiações
etílicas como confrarias (do Alto Beco do Fuxico, em Itabuna; d’O Berimbau e o Clube do
Rolas Cansadas, em Canavieiras.
Além dos compromissos juramentados, um convite para uma segunda-feira desregrada,
uma terça-feira de sustança e uma sexta-feira para abrir o fim de semana foram se
juntando às atividades sociais sem que me dessem conta da responsabilidade. Seguindo o
conselho do jornalista aposentado, hoje vagabundo mor Tyrone Perrucho, o único dia
consagrado ao descanso é o domingo, desde que não tenha um corte de cana em vista.
Longe de mim reclamar do acúmulo de atividades sociais – também conhecidas como
etílicas –, desde que, comprovadamente, seja acompanhada de boa e farta gastronomia
de sustança. Confesso que já não tenho o mesmo entusiasmo cotidiano de participar de
inaugurações de freezeres e geladeiras, aniversários de bares, da aposentadoria de Tyrone
e até do ingresso de um confrade no grupo de Whatsapp.
São tantas as emoções – como diria o rei Roberto Carlos – que cansa nossa beleza. Em
determinados dias os compromissos se encavalam, sobrepondo-se de tal maneira que não
tem como participar de todos, o que pode parecer uma descortesia da minha parte. Este
sábado é um exemplo da intensidade de convite que não conseguirei dar conta de atendê-
los como merecem.
Eis que me chega a convocação do Alto Beco do Fuxico, em Itabuna, para participar do
bota-fora do fidalgo itabunense José d’Almeida Senna, que após tantos anos de labor
passa a gozar da prometida aposentadoria. Viajou o Brasil inteiro para comemorar a
libertação trabalhista e se encantou com a capital soteropolitana, onde cuidará de filhos e
netos, deixando órfãos confrades.
E vai na contramão da ciência, pois abandona o refúgio da mais fina-flor da boemia
itabunense, o bar Confraria do Alto Beco do Fuxico, onde faria a transição trabalho
aposentadoria, preparando-se para o pijama. Garanto que em Salvador, além de cuidar
dos netos, poderá frequentar um boteco, quem sabe o grupo dos Rolas Murchas que se
reúne às tardes no Shopping Barra.
Queria ter um tete a tete com Senna e explica-lhe que a vida na capital foi muito boa no
passado, quando frequentava o agito dos anos 60 e 70 no Rio de Janeiro, na flor da
mocidade em plena Copacabana. Em Salvador não fará como no Cervantes, onde à noite
sentava-se na calçada para ouvir os mais recentes bochichos e sucessos nacionais.
Antes, tinha dado uma passadinha no Modern Sound, do amigo Pedro Passos, ali pertinho
na Barata Ribeiro. De repente, volta a Itabuna e demonstra seus dotes de promoteur no
PUB, no Grapiúna Tênis Clube e outras tantas casas badaladas até chegar à Confraria do
Alto Beco do Fuxico. Fez amigos e história. Sem mais nem menos, deixa o
empreendimento aos cuidados do assessor Mirinho e arriba pra Salvador.
Como não poderia deixar de ser, promove um bota-fora de responsa, com música ao vivo,
comidas e bebida, com o beco interditado para os festejos e mimos prestados ao viajante.
Uma só dúvida entre os amigos e confrades: quem será o consagrado herdeiro que
passará a operar o honorável sistema VTNCC (não tem no dicionário), que se tornou uma
tradição nos momentos de descarrego emocional do fidalgo Senna, e que não será dito na
capital.
Com outros compromissos assumidos anteriormente, não me farei presente fisicamente e
sim de espírito no bota-fora de Senna, mas estarei presente à apresentação do Secretário
Plenipotenciário da Confraria d’O Berimbau, Gilberto Mineiro, que retorna a Canavieiras
para uma inspeção. É que ele passa uns dias em Santa Cruz de Cabrália e aparece ao
aconchego dos confrades.
Não sei quem é o autor da frase “tudo que abunda não vicia”, mas gostaria de conhecê-lo
para debater a respeito.
Radialista, jornalista e advogado



