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ESSE TAL DE CORONA É UM VÍRUS MUITO EXIGENTE Walmir Rosário

ESSE TAL DE CORONA É UM VÍRUS MUITO EXIGENTE  Walmir Rosário

Creio em Deus Pai Todo-Poderoso! Cruz Credo, pé de pato, mangalô três vezes! Nesses
tempos bicudos em impera altivo e absoluto o famoso Coronavírus, especialmente vindo
da China com a missão de massacrar nós pobres brasileiros, já tentei me defender de
todos os modos e jeitinhos possíveis. Já tentei apelar pra tudo, mas onde vou encontro as
portas fechadas pra mim.
Eu não tinha a ideia que esses chineses e seus representantes aqui pelo vasto Brasil
tinham assim tanta raiva de mim, a ponto de proibir minhas incursões semanais às
assembleias do Clube dos Rolas Cansadas e da Confraria d’O Berimbau. Pelo pouco que
pude apurar com os amigos, tá tudo dominado e agora os velhos somente podem sair de
casa com a autorização expressa do prefeito ou governador.
Nem eu mesmo sabia que estava jurado a morrer (não de amor, como na música) de um
vírus internacional, vindo do continente asiático, especialmente da China de Mao Tsé Tung,
que não se contentou de matar milhões de seus compatriotas. Querem mais sangue!
Como sou precavido, procurei cumprir a lei, mesmo sendo sabedor que esses produtos
vindos da China não duram mais de três meses, conforme um zap que recebi.
Como sou bom de memória, lembro de um ditado frequentemente ouvido quando criança
lá pelas bandas do bairro Conceição, Itabuna, que dizia com toda a sabedoria: “Vem o
mau ao cavalo ao bem do urubu”. Filosofia pura, que embora não tínhamos a condição de
decifrar, pelo menos guardamos na cachola. Hoje sei que o “cavalo morto” somos nós e o
urubu de barriga cheia se aplica aos políticos – prefeitos, governadores, parlamentares.
Vou me ater nessas mal traçadas linhas a Canavieiras, onde vi tudo de perto – às vezes
por ouvir dizer, mas por gente de minha confiança – e tenho capacidade de discernir, de
forma fidedigna. Apesar do meu pedigree profissional, não sabia dos infinitos poderes dos
nossos governadores e prefeitos em mandar e desmandar de nós, pobres prisioneiros
mortais – ainda vivos pelo amor de Deus.
Velhos, então, passaram a ser estorvos, merecedores de reclusão, em que os cujos mais
novos passaram a correr deles – nós – como o diabo da cruz. Me sentia – como outros da
minha idade – um empesteado ambulante. Só depois é que me dei conta que nossas altas
autoridades municipais e estaduais – não satisfeitos – jogaram no mesmo saco pessoas de
idades diferentes, acho que para garantir os princípios democráticos.
E com muita sabedoria, ditavam regras onde poderíamos (eles, não eu) frequentar.
Supermercados, postos de combustíveis, farmácias e outros estabelecimentos
privilegiados. E olha que nem precisaram colocar uma placa nesses estabelecimentos uma
placa na porta impedindo a entrada do vírus. Lembro até de supermercados cheios de
gente nas prateleiras – imunes ao vírus –, pois o prefeito baixou decreto mandando fechar
a lanchonete, que fica bem ao lado. Portanto, delimitou, sabiamente, a circulação do vírus.
E não foi só isso, os prefeitos exigiram do presidente da república e dos governadores
poderes excepcionais para encarcerar no domicílio, fechar as atividades profissionais

produtivas, estradas, o escambau. Mas faltava, ainda, o primordial, comprar sem licitação,
do contrário o vírus mataria a todos. De novo, lembrei de um amigo, que com seu
linguajar destravado profetizava com muita propriedade, estar Canavieiras livre de
qualquer coronavírus da vida, e justificava:
– Ora, esse vírus vem do exterior e quem participou do carnaval foram os turistas vindo de
Santa Luzia, Camacan, Una, Santa Maria Eterna e, quiçá, Buerarema São José da Vitória.
Não tendo turista de fora do Brasil, nem passa pela cabeça do Coronavírus perder seu
tempo em Canavieiras. Não deu outra. Bingo.
Desconsolado – mas para não perder o embalo – o prefeito mandou fechar a cidade e
espalhou o terror prometendo choro e ranger de dentes aos desobedientes que não
ficassem confinados. Não satisfeito, gravou – ele mesmo – um áudio e mandou um sem
número de carros de som sair pelas ruas da cidade. Por falta de técnica de comunicação, a
população confinada não conseguia ouvir o extenso áudio e era obrigada a sair de casa
caso quisesse ouvir o lero-lero alcaidiano.
Errou como médico, ao espalhar o terror, errou como prefeito ao tentar disciplinar a vida
comunitária, mas ficou feliz e satisfeito em se fazer o mandatário. Em parceria com o
vírus, já disciplinou até os enguiços e quebras dos caminhões coletores de lixo, que agora
têm dia e hora marcada para emperrar: por decisão do alcaide e do Covid-19, coleta só às
segundas, quartas e sextas-feiras. Sábado, não, os caminhões estão quebrados.
E para o bem de sua saúde é melhor obedecer!

Radialista, jornalista e advogado

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