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DESENCONTRO NO ABC DA NOITE

DESENCONTRO NO ABC DA NOITE

Cliente assíduo por mais de 40 anos do ABC da Noite, o jornalista canavieirense
aposentado Tyrone Perrucho, passeando por Itabuna, resolveu dar as caras para tomar
umas batidas e rever o amigo Caboclo Alencar. Flanou pelo centro da cidade olhando as
vitrines das lojas da avenida do Cinquentenário e adjacências até que chegasse o horário
do Caboclo abrir as portas, exatamente às 11 horas, como manda a tradição.
E às 10h55min se apresentou e postou-se em frente ao estabelecimento, como um
daqueles alunos rebeldes, ausentes do ABC da Noite por anos a fio, esperando ser o
primeiro a se apresentar ao Caboclo como um aluno repetente. Mas eis que nesta fatídica
quarta-feira o Caboclo Alencar não cumpriu o prometido, conforme a placa afixada na
parede com o horário de funcionamento.
Mas o velho aluno não se fez de rogado e continuou postado no passeio aguardando a
abertura para ter a primazia de ser o primeiro a se deliciar com uma batida de tamarino
ou gengibre – de acordo com a linha de produção do dia. Exatamente às 11h27min, olhou
em sua volta e se deparou com outros fregueses, que assim como ele, aguardavam
ansiosamente o horário de abertura.
Mas nada do Caboclo! Pelo olhar que dirigiam ao ABC da Noite – fechado –, pareciam
crianças perdidas no meio da multidão à espera da mãe, que nunca aparecia. Eis que
então, tomado por uma atitude impensada, dá mais uma olhada no aparelho celular para
conferir o horário, confabula com os outros clientes rejeitados e toma a decisão de ir
embora, sem voltar a se deliciar com as maravilhosas batidas do Caboclo Alencar.
Maravilhosas, deliciosas, apetitosas, tanto faz, e o desocupado Tyrone Perrucho, sentido o
seu orgulho de cliente ferido, resolve ir embora, voltar para sua Canavieiras sem “molhar o
bico” e tirar dois dedos de prosa com o Caboclo. Apesar da grande amizade que os une,
Tyrone se sentiu traído, por sempre espalhar pelos quatro cantos do mundo a precisão
britânica, guiada pelo relógio suíço de Caboclo Alencar, obediente aos horários de abertura
e fechamento.
Antes de dar a meia volta e retornar a Canavieiras para dar expediente na Confraria d’O
Berimbau, estabelecimento que não prestigia os horários, desde que cheguem após as
10h51min, fez questão de mirar seu celular para a frente do ABC da Noite e clicar uma
foto. Da próxima vez que voltar a Itabuna irá exibi-la ao Caboclo com o olhar de
reprovação pelo desleixo num dos costumes mais tradicionais da cidade.
Mas o jornalista não foi o primeiro a dar as caras nas portas fechadas do ABC da Noite em
horário de pleno expediente, colegas frequentadores tantos já tiveram o mesmo dissabor
ao não poder se deliciar das saborosas batidas antes do almoço. Chegam, se postam em
frente do ABC e ficam esperando que, como num passe de mágica, o Caboco Alencar
apareça do nada para servir sua batida predileta.
Como um filhote de pássaro à espera da mãe para regurgitar o precioso alimento, olham
para as portas esperando que se abram, olham para o relógio e não se conformam com o

descumprimento do horário. Aos poucos outros vão chegando e se associando ao
misterioso sumiço do Caboco, que sem mais nem menos deixa os clientes como filhotes
famintos abandonados no ninho.
Ia me esquecendo, e deixo aqui os devidos esclarecimento para os desavisados: Uma
placa de bronze fixada na parede proclama os horários de abertura e fechamento do régio
expediente: De segunda a sexta-feira: das 11 às 12h30min e das 17 às 19 horas; aos
sábados, das 11 às 12h30min; sem expediente aos domingos. De minha parte, acho um
exagero a atitude do exigente Tyrone Perrucho, afinal, aos 89 anos bem vividos, que mal
faz o caboclo relaxar o horário de vez em quando?
Relaxado não é adjetivo para ser aplicado na impoluta figura do Caboclo Alencar,
considerado uma autarquia nos meios em que frequenta. O Caboclo se encontrava no
merecido período de férias, que gozava na aprazível capital alagoana – Maceió – com sua
esposa, integrando uma caravana do não menos impoluto radialista itabunense Cacá
Ferreira, o que justifica a ausência.
Tyrone Perrucho que marque outra viagem a Itabuna!

Por Walmir Rosário;Radialista, jornalista e advogado

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