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COMO O DIREITISTA CACIFÃO SE COLIGOU AOS COMUNISTAS

COMO O DIREITISTA CACIFÃO SE COLIGOU AOS COMUNISTAS

Walmir Rosário
O Sindicato dos Comerciários de Itabuna, entidade quase secular, durante muito tempo
elegeu um só presidente, Agenor Medeiros, sem vínculos político-partidários. Quando
chega a redemocratização do país e as agremiações (ainda chamados de esquerda) como
o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) iniciam uma
ampla campanha junto à categoria com a finalidade de eleger seus prepostos.
Eis que entra na campanha (mesmo sem ser candidato) um personagem importante: Iram
Marques, o conhecido “Cacifão”, um dos mais ilustres representantes da “direitona”
itabunense, com passagem de distinção e louvor pela UDR, pela campanha presidencial de
Ronaldo Caiado, e dá uma ajuda providencial aos comunistas. O que interessava a Iram
era não deixar o PT de Geraldo Simões assumir o sindicato.
Enquanto o PT pressionava os comerciários, pretendendo ganhar a eleição no grito, com a
ajuda do recém-eleito prefeito de Itabuna, Geraldo Simões, Cacifão faz um acordo com os
cururus do PCdoB. Imediatamente passa a trabalhar nas bases comerciárias não ligadas a
partidos políticos, principalmente os filiados mais antigos e que não admitiam o
aparelhamento do sindicato por partidos políticos.
Na surdina, Cacifão passa a visitar os comerciários mais velhos sindicalizados e até mesmo
os aposentados com direito a voto e “faz a cabeça” da turma mais antiga que não gosta
de política partidária e que tinham horror de esquerdistas. E a inteligência de Cacifão era
tamanha que ele conseguia elaborar uma narrativa que diferenciava os comunistas do
PCdoB dos petistas.
No seu discurso, Cacifão fazia os velhos colegas acreditarem que há muito tempo os
“cururus” deixaram de comer criancinhas e se tornaram pessoas sociáveis e até
carnavalescos, participantes da Lavagem do Beco do Fuxico. Para ele, os caras sisudos
eram os petistas, que onde passavam deixavam um rastro de destruição, haja vista as
greves que promoviam no comércio e que entupiam as fechaduras das lojas com Araldite.
E esse trabalho de convencimento incluía, ainda, manter o relacionamento em segredo,
com o intuito de não despertar uma campanha mais acirrada, fazendo crer aos petistas
que sairiam vitoriosos na eleição. E não era pra menos, pois a máquina pública municipal
foi colocada à disposição dos “companheiros” para tomar a direção do Sindicato dos
Comerciários do pelegos.
Cacifão – ou Iram – era incógnita para os novos membros do Sindicato dos Comerciários.
Há muito tempo que ele se dedicava à compra e venda de gado, fazendas e casas, sem
qualquer vínculo empregatício. Vivia no meio político, embora não gostasse dos cargos
públicos, exceção feita somente ao prefeito Fernando Gomes, quando exerceu o cargo de
diretor de Turismo da Prefeitura de Itabuna.
Outra atividade que nosso personagem se tornou conhecido foi a participação nas
campanhas políticas, dando ideias, palpites, traçando estratégias, colocando às ruas
grupos de apoiadores disseminando notícias, melhor dizendo, fuxicos. Até hoje imagino

que esse tal de fake news foi criado por Cacifão e exportado para os Estados Unidos e
países da Europa, e que retornou com esse nome chic.
Finalmente, chega o dia da eleição e, para o espanto do PT, quem primeiro aparece no
Sindicato dos Comerciários para votar é o associado Iram Marques. Foi “um pega pra
capar” até ele provar que era associado e em dia com o pagamento das mensalidades.
Deu seu voto ao candidato comunista Ramon Cardoso e continuou na “boca-de-urna” até
o final da eleição, garantindo votos importantes como os da rede Messias de
Supermercados, onde exercia forte liderança.
Passada a surpresa dos petistas – muitos deles ocupantes de cargos na Prefeitura de
Itabuna –, chega a hora das comemorações. Alegria de um lado, tristeza e desolação de
outro. Onde foi que erramos, era a grande pergunta dos petistas. Lá pelas tantas,
resolvem perguntar a Cacifão pela origem de sua filiação ao Sindicato dos Comerciários
(ainda dos tempos em que trabalhou na empresa J. S. Pinheiro & Irmãos), Cacifão não se
fez de rogado e disse:
– Não tem segredo. Faço igual ao que Antônio Carlos Magalhães com o Sindicato de
Jornalistas Profissionais da Bahia. Todo primeiro dia útil do ano eu vou ao Sindicato dos
Comerciários e pago as mensalidades devidas do ano inteiro – disse para desespero dos
petistas, que já queriam anular a eleição pensando que Iram Marques teria votado na
eleição sem ser associado.
Mais alguns anos Iram Marques morre, mas o PCdoB continua até hoje mandando no
Sindicato dos Comerciários de Itabuna com o apoio pioneiro do extrovertido Cacifão.
Radialista, jornalista e advogado

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