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COMO A PRAIA DOS MILIONÁRIOS RECEBEU ESSE NOME

COMO A PRAIA DOS MILIONÁRIOS RECEBEU ESSE NOME

Por Walmir Rosário*
No final da década de 1960 e início de 1970 o point ilheense era o distrito de
Olivença. Distante 18 quilômetros da sede, era frequentada por poucos
ilheenses e ainda menos itabunenses. Estrada de chão, muita poeira, areia e as
chamadas costelas de vaca tornavam a viagem uma aventura. O local de área
veraneio, férias ou outros desafios. Destino de alguns abastados.
Alguns itabunenses também possuíam casas, sítios ou fazendas na antiga
estrada Pontal-Olivença, entre eles a família Messias. Num desses domingos,
Berger Brasil, da Loja Consul, que atendia a Classe A de Itabuna, se dirigiu para
encontrar o amigo José Badaró e encontra outro chegado, Antônio Brito, que o
convida para passar o dia com eles.
Após as desculpas de praxe, Brasil explica que tem compromisso firmado em
Olivença, onde iria jogar um baba, e para tanto, carregava uma bola e um
isopor cheio de cervejas em lata. Diante da extensão do convite para o próximo
domingo, prometeu que apareceria com os colegas para o prometido baba. E
chegou com uma boa turma, boa de bola e de cerveja.
De maneira informal, começaria ali a primeira partida do futuro Baba dos
Milionários, que fez história e batizaria uma das mais importantes praias da
zona sul de Ilhéus. No domingo seguinte – o terceiro –, apareceram também
alguns ilheenses, a exemplo de Ninho (Marcos Vieira). A ideia era manter os
jogos entre os itabunenses e os ilheenses.
E tudo combinava favoravelmente entre eles, pois na semana posterior
apareceu um senhor de nome Sidrak, com uma galinhota (carrinho de mão)
carregada de cerveja gelada. A turma jogou o baba, bebeu a cerveja que
levaram e ainda acabou todo o estoque do Sidrak. Naquele dia ficou mais que
provado que o baba teria vida longa e os jogos seriam entre as seleções de
Itabuna e Ilhéus.
Na segunda-feira, Renato Cunha e Ninho resolvem comprar os uniformes das
duas seleções. Nisso Berger Brasil encarrega Iram Marques (Cacifão) de
comprar as camisas para a Seleção de Itabuna. E por ironia do destino, ele
encontra as camisas nas cores amarela e preta, no padrão da bandeira
itabunense. Agora seria apenas imprimir o nome.
De repente, Renato Cunha e Ninho resolvem mudar o nome dos times, para
evitar o acirramento da rivalidade existente entre as duas cidades no futebol
amador. A ideia era nomear a tal Seleção de Itabuna com um nome tupi-
guarani. Ao dar a contra ordem a Cacifão, Brasil ouve o que não queria:
– Agora é tarde, Brasil, as camisas já estão impressas. E o nome é Os
Milionários –, informou Cacifão.

E para justificar, Iram Marques, do alto de sua sabedoria e criatividade,
convenceu os amigos com a narrativa de que o nome criado por ele era
perfeito, pois só participava do baba quem tinha dinheiro, possuía carro,
argumentando que nem todos poderiam ir, já que sequer existiria linha de
ônibus. E assim Os Milionários foi o nome aprovado.
E o baba se tornou sucesso em Itabuna e Ilhéus, tanto que Os Milionários
também passou a dar nome à conhecida a praia onde as partidas eram
jogadas. A cada domingo chegavam novos pretendentes, muitos
desconhecidos, o que levou Cacifão a adotar nova estratégia para manter o
grupo pioneiro unido.
O controverso Iram Marques (Cacifão), que à época não possuía carro, saía de
Itabuna para Ilhéus no ônibus das 5 da manhã e conseguia chegar de táxi
primeiro que todos. Munido de uma prancheta e papel pautado, escalava os
times a seu bel prazer, além de ditar todas as regras no sentido de afastar os
menos favorecidos, financeiramente.
E Cacifão passou a instituir taxas para a lavagem do material esportivo (30,00,
em moeda da época), além da quantidade de cervejas e tira-gostos que cada
um deveria levar. Mesmo que o pretendente fosse bom de bola, era vetado,
não importando os pedidos. Com isso, os incidentes entre a rivalidade entre as
duas cidades também permaneceram zerados.
E o baba dos Milionários, como passou a ser chamado, ganhou a atenção dos
boleiros e da mídia. Um dos primeiros jogadores profissionais a jogar no baba
foi Jorge Campos, atacante do Bahia, levado pelo seu irmão César Campos. Em
outra feita apareceram o jogador do Flamengo e Seleção Brasileira, Júnior
(Capacete) e o técnico Cláudio Coutinho.
Dentre os frequentadores pioneiros do baba dos Milionários: Berger Brasil,
Renato Cunha, Antônio Brito, Eduardo Brito, Iram Marques (Cacifão), José
Verdinho, João Carlos Fontes, Cesar Campos, Antônio Wense com os filhos
Ronie e Marcos, Edulindo, Erick Etinger, Tonho Bicudo, Tonhão, Ninho, Geraldo
Sessa, George Cordeiro, Alcides Paulino, Chico Orelinha, Dr. Alair, os 4 irmãos
Andrade, Haroldo Messias, dentre outros.
Essa é a verdadeira história da Praia dos Milionários, desbravada por
itabunenses e que se transformou na grande e festejada praia das grandes
cabanas da zona sul de Ilhéus. Hoje os responsáveis por essa criação são
respeitáveis senhores que, aos sábados, ainda sentam praça no Beco do Fuxico,
especialmente na Fuxicaria. Outros já não habitam mais entre nós, a exemplo
de Cacifão, o homem das ingrisilhas, que deixou suas histórias a serem
contadas.

 

*Radialista, jornalista e advogado.

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