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CANTINA TICO-TICO É HOMENAGEADA AOS 75 ANOS

CANTINA TICO-TICO É HOMENAGEADA AOS 75 ANOS

Por Walmir Rosário*
No nosso tempo de menino em Itabuna uma das maiores diversões era assistir
ou participar dos jogos de futebol. Era a nossa mania municipal. Campinhos
não faltavam nos bairros e até no centro da cidade. Bastava uma bola, a
marcação das traves, muitas vezes com pedras, e a meninada com vontade de
brincar. Sobravam muitos, geralmente os sem habilidade.
Agora, bom mesmo, era assistir aos jogos e treinos dos times amadores,
principalmente da invencível Seleção de Itabuna. Como nem sempre estávamos
providos de recursos para o ingresso, recorríamos aos jogadores amadores que
possuíam a carteirinha da Liga de Desportos Atléticos (Lida), e entrávamos com
eles. Claro, sem pagar nada.
E existiam os funcionários que dificultavam nosso ingresso, enquanto outros
facilitavam. E uma dessas figurinhas carimbadas era Raimundo Pereira Borges,
um multifuncional no Campo da Desportiva, pois “jogava nas 11”, era
bandeirinha, árbitro, goleiro, diretor da Lida e dono do bar interno da
Desportiva. Uma figura alegre, brincalhona, afável, mas que sabia ser sisudo
quando o assunto requeria.
Raimundo Pereira Borges poucos conheciam – só os mais velhos –, para nós
era Zinho, apelido que ganhou quando em 27 de janeiro de 1950 inaugurou,
junto com sua esposa Miralva, a Cantina Tico-Tico, bem próximo do Campo da
Desportiva, na rua Almirante Tamandaré, ao lado do conhecido Jardim do Ó,
local em que funciona até os dias de hoje.
E a escolha do nome foi pra lá de inusitado: um dia Zinho informa a seu irmão
Antônio, conhecido como Tote, dono do Bar dos Operários, que iria abrir uma
cantina e aproveita para pedir uma sugestão quanto ao nome que daria. Nesse
momento, Tote saia de detrás do balcão e se dirigia ao banheiro com um rolo
de papel higiênico, e mostrou ao irmão: “Bota o nome de Tico-Tico, como essa
marca de papel higiênico”. E imediatamente foi aprovado o nome.
O local era pequeno, mas abrigava a todos, principalmente quando as
empresas próximas liberavam os empregados para a “merenda” da manhã e da
tarde. Bem em frente, onde hoje existe a Igreja Universal, funcionava uma
revenda Volkswagen, com cerca de 50 funcionários, muito deles com o lanche
anotado no caderno.
Refrigerantes, sucos e refrescos, pastéis bem recheados de carne, banana real,
bolos de milho, tapioca e aipim, além das batidas de gengibre e maracujá
fazem o maior sucesso. Com o passar dos anos a Cantina Tico-Tico ganhou
conceito e frequência diversificada, com mecânicos, radialistas, jornalistas,

bancários, advogados, comerciários, muitos dos quais buscavam o lanche fora
da hora de grande movimento.
Eu mesmo fui cliente assíduo da Cantina Tico-Tico quando a redação do Jornal
Agora ficava do outro lado do Jardim do Ó. Todos os dias, eu, o saudoso colega
Euclides Batista (Zoca) e o diagramador Paulo Fumaça dávamos uma paradinha
nas “Olivetes” para o lanche sagrado. Barrigas abastecidas, trocávamos uns
dois dedos de prosa com Zinho e os filhos Ronaldo Deroaldo (Peu) e Deroaldo
Ronaldo.
E aos poucos o nome Zinho foi sendo transferindo para Tico-Tico, um expert na
área de lidar com o público e que soube repassar esse conhecimento aos filhos.
Lembro-me, ainda menino, de quando ele dirigia o bar do Campo da Desportiva
e num domingo o presidente da Lida o proibiu de vender cachaça, só cerveja e
refrigerante. Foi uma revolta geral, mas Zinho soube tirar de letra e apaziguar.
E todo esse sucesso do Tico-Tico não subiu à cabeça da família que soube se
dedicar a servir bem aos fregueses, com bebidas e comidas de boa qualidade,
muitas delas fabricadas em casa. Um dos filhos, Deroaldo Ronaldo, optou pelo
trabalho na cantina e deu adeus à advocacia, num tempo em que os despachos
e sentenças eram raridades, pela falta de juízes e promotores.
E por todo o sucesso dessa família à frente da Cantina Tico-Tico ao longo de 75
anos ininterruptos, o Serviço Brasil de Motivação e Marketing (Simmbra),
liderado pelo empresário Valdir Ribeiro, prestará, nesta segunda-feira, 27, às 11
horas, uma homenagem à Cantina Tico-Tico, com um Certificado de Excelência.
E Valdir Ribeiro ressalta que uma empresa familiar dificilmente consegue
sobreviver no mercado por todo esse tempo.
Raimundo Pereira Borges, o Zinho, ou o Tico-Tico, nasceu em 7 de maio de
1930 e faleceu em 18 de janeiro de 2011, deixando um legado para a família,
que soube perpetuar um empreendimento, que embora pequeno alcançou e
soube se manter no patamar do sucesso. Além de Ronaldo Deroaldo e Deroaldo
Ronaldo, Zinho deixou as filhas, Cássia, Clélia, Hélia e Alcimar.
Vida longa à família Tico-Tico.

*Radialista, jornalista e advogado.

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