APÓS 10 ANOS CANAVIEIRAS QUEBRA O TABU EM BELMONTE
Por Walmir Rosário
Imaginem o clima de rivalidade no futebol entre duas cidades-irmãs (ou mãe e filha, como
queiram), a exemplo de Itabuna e Ilhéus, ou entre dois países “hermanos”, do tipo Brasil e
Argentina…não queiram nem pensar! Pois aqui no Sul da Bahia, tem jogos mais acirrados
quando os contendores são os selecionados de Canavieiras e Belmonte, cidades que têm
muitas afinidades, digo mais, parentescos.
Se a partida for disputada em Belmonte, no estádio Orlando Paternostro, então, o buraco
é mais embaixo, como dizem na gíria. E as dificuldades para esse jogo envolvem um
planejamento diferente, como se os dois times fossem se enfrentar numa guerra. E era! A
começar pelos preparativos, que requeriam muito estudo sobre a maré que permitiria
viajar tranquilamente pelos canais que cortam o imenso manguezal.
E essa etapa a ser cumprida era por demais importante, pois a maré baixa era uma
ameaça de interrupção da viagem e qualquer dos dois poderiam tomar um WO, mesmo
que não fosse um jogo valendo pelo campeonato intermunicipal. E explico: caso a maré
permitisse, viajariam no mesmo dia do jogo, para evitar as manifestações contrárias da
torcida belmontense, conhecida pelo fanatismo. Do contrário, teriam de ir no dia anterior.
Em 1960, como conta o ex-jogador João Xavier, a Seleção de Canavieiras estava há 10
anos sem conseguir vencer o selecionado belmontense. Já era considerado um tabu difícil
de ser batido, dito e conhecido como freguês de carteirinha. E nessa condição, os
dirigentes de Belmonte convidaram os canavieirenses para disputar uma partida
superimportante, que marcaria a reinauguração do Estádio Orlando “Setentão”
Paternostro.
Desafio aceito, a Seleção de Canavieiras se prepara para o jogo do século, prometendo
quebrar o tabu de uma década de derrotas e empates. E aqui, vale a pena salientar, que
belmontenses e canavieirenses são grandes amigos, parentes, desde a fundação das duas
cidades, quando por aqui chegaram os portugueses, franceses, italianos e escolheram em
qual foz dos rios Pardo ou Jequitinhonha fincariam moradia.
Fora do futebol, os moradores das duas cidades se completavam, mas ao anunciarem uma
partida entre eles, o clima esquentava. E uma partida para reinaugurar o importante
estádio ficaria na história da cidade. E não era pra menos, seriam lembrados eternamente,
com placa de bronze com os nomes de dirigentes, jogadores e o placar vencedor em letras
garrafais na placa inauguratória.
E pela qualidade dos seus jogadores, Belmonte tinha direito a sonhar alto. Quem ousaria
desafiar uma seleção com os goleiros Padre, Edmílson e Urbano, além Carlos Gama,
Carioca, Arcanjo Cara de Osso, que depois jogou no Vitória da Bahia, Sandoval, Herculano,
Totônio, Porto Seguro, Diniz, Cabo Jorge, que jogou no Galícia e Ypiranga, Edílson e
Lubião? Todos presididos pelo aviador Nena Lapa.
A Seleção de Canavieiras não ficava atrás, pois era formada por craques de primeira,
agora reforçada pelo bancário e craque João Xavier, e Bené, um garoto que viria a fazer
muito sucesso no Botafogo Carioca com o nome de Canavieira. Foram 15 dias de
treinamento tático e físico. Seria agora ou nunca quebrar o tabu de uma década de maus
resultados. E os canavieirenses partiriam pro tudo ou nada.
No dia da viagem apareceram no porto grande para pegar a lancha os jogadores Gilvan,
Nondas, Leto, Chico, Talminho, Natal, Teotônio, Xavier, Super Coelho, Jorge, Bené
(Canavieira), Duzinho, Pequeno, Cavaquinho, Miruca, dentre outros que a memória falha.
A primeira baixa apareceu logo no porto, com o goleiro reserva incapacitado para viajar,
tudo por conta da farra na noite anterior.
Como não tinham tempo para convocar outro goleiro, tentaram a sorte levando apenas
Chico. Sabedores do ponto fraco de Canavieiras, os jogadores de Belmonte não contaram
conversa até tirar o goleiro Chico de campo, com uma grande pancada na perna após
marcarem um gol. E agora, quem substituiria Chico? E a escolha recaiu sobre o
centroavante Cavaquinho, um craque que atuava em qualquer posição, e goleador nato.
Conta João Xavier, que na hora os canavieirenses lembraram do tabu que tanto queriam
quebrar e o desespero tomou conta da turma. Mas os jogadores foram se refazendo e aos
poucos começaram a dominar o jogo. Os belmontenses ainda não conheciam o garoto
Bené, que logo marcou um gol, seguido de Miruca. E o placar do estádio Orlando
Paternostro marcava 2X1, a primeira derrota em 10 anos. Justamente para Canavieiras.
E os torcedores e jogadores de Belmonte pressionaram os adversários até quando o
árbitro, finalmente, deu o espetáculo por encerrado, para o desespero dos belmontenses,
desacostumados a perder uma partida para Canavieiras há longos 10 anos. Na volta, uma
festa e tanta na lancha, em que até o garoto Bené entrou na comemoração, bebendo e
fumando pela primeira vez.
Pelo serviço de rádio do aeroporto, o resultado do jogo já era conhecido em Canavieiras e
sua torcida foi ao porto grande recepcionar os jogadores. E a festa entrou noite adentro e
somente terminou com os primeiros raios do sol. O tabu foi quebrado na casa do
adversário e justamente em tarde de gala na reinauguração do estádio, orgulho dos
belmontenses. E em Belmonte nunca mais se falou desse jogo.

Radialista, jornalista e advogado


