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ANTÔNIO OLÍMPIO E A IMPRENSA INDEPENDENTE (Antônio Lopes)

ANTÔNIO OLÍMPIO E A IMPRENSA INDEPENDENTE  (Antônio Lopes)

Antônio Olímpio fez em Ilhéus, de 1976 a 1981, o que se chamou Governo da
Renovação: substituiu João Lyrio, um prefeito discreto, que, como se diz,
chegou mudo e saiu calado. O que em João Lyrio parecia ausência de vocação
para o cargo, encontrou em AO (aos 45 anos, advogado e professor) o oposto:
vontade de mudar a cidade, transformar, sacudir a poeira do marasmo.
Urbanizou ruas, construiu uma nova Central de Abastecimento, transferiu a
grande feira de Ilhéus da Dois de Julho para o Malhado, atualizou a legislação
sobre uso do solo, doou ao município o velho “Cine Theatro Ilheos”, então
patrimônio da família Rhem.
Esse dinamismo como prefeito lhe amealhou popularidade e reconhecimento
bastantes para eleger-se deputado estadual, com mandato de 1983 a 1986. Na
ALBA (em tempo anterior a esta mania das siglas), teve atuação notável: foi
presidente da Comissão de Agricultura e Política Rural e titular das Comissões
de Turismo, de Minas e Energia, de Ciência e Tecnologia, de Saúde e
Saneamento e de Empreendimento Social, dentre outras.
AO teve seu tempo sabático, voltou à pescaria, à culinária e ao papo com os
amigos, três passatempos que o identificam, retornando aos palanques só no
começo dos anos noventa, quando se elegeu, outra vez, prefeito de Ilhéus para
o período de 1993 a1996, e logo levou seus admiradores a uma indagação
machadiana: “Mudaria Antônio Olímpio ou mudamos nós?”
O fato é que o novo AO não tinha o mesmo ímpeto do primeiro mandato:
mostrava-se desmotivado, sem “apetite” para o exercício da função. Aparecia
(quando aparecia) nas solenidades oficiais com evidente tédio. Mal
comparando: um João Lyrio intelectualizado, verve em dia, ironia à flor da pele,
pronta pra ser sacada contra os críticos. Ia mal a administração, os problemas
se acumulavam. Um deles, as muriçocas, que infernizavam, em zumbidos e
picadas, a vida do ilheense.
Certa feita, o delegado regional Luís do Amaral Carneiro, com ares de
autoridade, interpelou AO, de público: “Não é possível continuar desse jeito,
com as muriçocas me chupando a noite inteira!” Foi mal. A resposta de AO, em
alto e bom som, imprópria para ouvidos pudicos, bendizendo a sorte que o Dr.
Luís tinha, naquela idade etc., fez do bravo delegado um inimigo, por muitos
dias.
Tempos depois, descontraídos entre copos de cerveja, Carlos Farias, amigo de
longa data, levantou a indagação famosa. “O que mudou entre um mandato e
outro?”

– O dinheiro – responde AO, sem pestanejar. E explica que, na primeira gestão,
o programa chamado Caritas “municiou” a Prefeitura de Ilhéus. Na segunda, os
cofres estavam vazios o tempo inteiro. Elementar, meu caro Farias: Sem
dinheiro, não há administrador que preste…
Pra terminar: na segunda gestão de Antônio Olímpio, o Diário da Tarde estava
em mãos de Ariston Cardoso – advogado (primeira turma de Fespi), ex-prefeito
(Arena) e crítico do prefeito – e num dia sim, no outro também, estampava
títulos nada lisonjeiros ao chefe do executivo. AO, na dele, engolia tudo,
adotando a filosofia de que “o bom cabrito não berra”. Num 28 de junho, Dia da
Cidade, quando o jornal aproveitava pra faturar uma publicidade extra em
forma de saudação oficial aos munícipes, vai um desavisado representante do
DT procurar o prefeito, com a proposta de “uma mensagem de página inteira
por apenas…” AO, com toda a educação de que é portador, fez entrar o sujeito
incauto, deu-lhe cafezinho, saudou-o no “como vai, como passou”, “a quantas
anda o preço do cacau”, elogiou a iniciativa das mensagens, descontraiu o
homem e exarou a sentença, final e irrecorrível:
– Por favor, diga a Ariston que eu gosto muito dele e do Diário da Tarde, mas
não posso autorizar esta despesa. Sinto muito por isso.
– !!!
– É que o jornal bateu em mim o tempo todo. Se eu agora pago essa
mensagem os maledicentes, inimigos de Ariston, vão dizer que eu comprei a
opinião dele. Isso será péssimo, pois as pessoas vão achar que o Diário da
Tarde não é mais independente. E eu defendo, como ele sabe, a imprensa
independente…

Jornalista e escritor

 

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