ALUNOS DO ABC DA NOITE EM SALA DE AULA
Por Walmir Rosário
Nunca, em tempo algum neste Brasil, uma visita foi tão comemorada pelos boêmios do
Beco do Fuxico e adjacências. Entrando o mês de abril, justamente no dia 1º, em que se
costuma a contar mentiras, uma verdade merece ser contada em alto e bom tom: o
Caboclo Alencar, nos seus 90 anos, deu as caras no Beco do Fuxico, o endereço do mais
conceituado boteco de Itabuna.
Sem alarde ou notícias enviadas aos colunistas sociais que emolduram e abrilhantam
nossa imprensa, a visita do Caboclo Alencar teve a simples finalidade de realizar uma
vistoria nas instalações do majestoso ABC da Noite, fechado desde que apareceu a
pandemia. No chamado grupo de risco, o Caboclo preferiu encerrar as atividades –
temporariamente – no seu estabelecimento.
Como faz parte do costume do Caboclo, nesses quase 59 anos de atividades do ABC da
Noite, a simplicidade é a marca registrada deste boteco que se transformou numa
instituição itabunense. E esse mérito pode ser creditado às divinas batidas que são
manipuladas na linha de produção, onde são associadas frutas e raízes às cachaças e
vodcas, transformando-as no néctar dos deuses, e aos seus clientes.
Pois é, mas como com a pandemia da Covid-19 ninguém brinca, o Caboclo Alencar
resolveu fechar o boteco por algum tempo e se refugiar em casa, longe dos vírus
indiscretos que atacam a qualquer hora do dia ou da noite. Mas como os clientes – alunos,
melhor dizendo – não se conformavam sem as aulas diárias, enriquecidas com as batidas
de limão, maracujá, gengibre, pitanga, o Caboclo resolveu trabalhar em casa.
Mas foi logo avisando que não queria nenhum “piseiro” em casa e que os pedidos seriam
feitos pela internet, através do e-mail ou pelo telefone – fixo e celular –, com hora
marcada para retirá-lo. Aos poucos, via whatsapp, as batidas do ABC da Noite eram
exibidas nas redes sociais como se fossem troféus arduamente conquistados em
campeonatos internacionais, como a copa do mundo.
Mas como diz o ditado que gato escaldado tem medo de água fria, o Caboclo Alencar
resolveu sair da toca – o recesso do lar – para dar uma olhadinha no prédio sede do ABC
da Noite, uma simples vistoria de rotina. Sem alardes, saiu pela manhã com o intuito de
fazer umas compras e aproveitou para dar uma passadinha no Beco do Fuxico e vistoriar
se estava tudo em ordem.
E tinha razão o Caboclo, pois assim que o prédio do ABC da Noite ganhou status de
tombado pelo patrimônio histórico como patrimônio material imaterial de Itabuna, com
direito a discursos e muita bebedeira, aconteceu o impossível. No fim de semana, um
inimigo – ou melhor, um amigo do alheio – subiu pela parede de frente, arrombou o
telhado do prédio e surrupiou os R$ 300,00 deixados na gaveta.
É bom que fique registrado que o tal larápio não tocou nos poucos litros de batidas
acondicionados no freezer, talvez por desconhecer a riqueza do conteúdo engarrafado, que
foi disputado pelos clientes. Do alto de sua sabedoria, o Caboclo Alencar analisou o
malfazejo em entrevistas para os programas policiais como sendo arte de um reles
vagabundo chegado ao uso de crack e cachaça vagabunda.
Como dizem que um raio não costuma cair duas vezes no mesmo lugar, o interior do ABC
da Noite se encontrava intacto, sem sofrer qualquer invasão dos larápios, que preferiram
arrombar lojas vizinhas, aquelas que comercializam aparelhos eletrônicos, celulares e
joias. Após uma rápida conferida no estoque, os litros de cachaça de Itarantim e de vodca
estavam intactos, sem qualquer violação.
Se desta vez não houve prejuízo material, o Caboclo Alencar não contava com a
quantidade de espiões de prontidão para fotografar sua chegada triunfal ao Beco do
Fuxico. Tudo coordenado por Alex Alves (Português) que, de celular em punho, registrou
todos os passos do Caboclo, e ainda por cima ligou para outros alunos do ABC da Noite
anunciando que as aulas teriam sido iniciadas.
Mais do que de repente, pelo menos uma dúzia de alunos repetentes se postaram em
frente ao ABC da Noite à espera que as portas se abrissem e pudessem se deliciar com as
festejadas batidas. Nem mesmo nas ausências furtivas do Caboclo, quando ainda
apreciava e fazia uso de uma boa cachaça e cerveja, ou de suas viagens de férias pelo
Brasil afora, seus alunos foram acometidos de tanta carência etílica.
Mas, para o desespero da distinta clientela, a esperada festa durou apenas poucos
minutos. Após o Caboclo Alencar fechar a porta com os cadeados e deixar os clientes com
água na boca, anunciou que seria por pouco tempo. A visita representa alvíssaras de que
em um breve período nenhum dos alunos do ABC da Noite estará fora da sala de aula.
Quem garante é o professor Caboclo Alencar.
Radialista, jornalista e advogado.



