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A QUASE PROMISSORA PARCERIA DE ILHÉUS COM A CHINA

A QUASE PROMISSORA PARCERIA DE ILHÉUS COM A CHINA

No segundo mandato de Antônio Olímpio (AO) como prefeito de Ilhéus, o então deputado
federal Haroldo Lima (PCdoB) trouxe à região uma comitiva da República Popular da
China. O interesse do deputado comunista era ampliar o comércio entre os dois países,
notadamente de cacau, à época atravessando uma das suas muitas crises – esta, causada
pela vassoura de bruxa.
Àquela época, os técnicos em agropecuária da Ceplac, ideologicamente ligados aos
partidos de esquerda – PCB, PCdoB, PT e PSB – convenceram seus dirigentes nacionais
que a saída para o cacau era comercializar o cacau com a China. Após os cálculos feitos
em várias reuniões, acreditavam que se cada chinês tomasse, diariamente, uma pequena
xícara de chocolate, o preço do cacau subiria às nuvens.
Tese aprovada pelos cardeais vermelhos da esquerda brasileira, a primeira providência era
convencer os herdeiros de Mao Tsé-Tung a introduzir esse novo hábito alimentar no
cardápio de seus compatriotas. Para tanto, deveriam convidar uma comissão de alto nível
para conhecer o Sul da Bahia e provar as qualidades alimentares e afrodisíacas do cacau,
que poderia voltar a ser conhecido como frutos de ouro.
Nada mais fácil para camaradas e companheiros arrebanharem as pessoas mais
importantes e decisivas numa negociação entre Brasil e China, que prometiam mostrar ao
mundo capitalista os bons resultados de uma negociação com dois países com governos
ideologicamente próximos, diria até, iguais. Data marcada, a cúpula das instituições
políticas e da cacauicultura do Sul da Bahia se engalanaram para receber os chineses.
Entre os “camaradas” da comitiva estavam o embaixador da República Popular da China
no Brasil (chefiando a delegação), o Cônsul, funcionários graduados da embaixada,
empresários, técnicos e jornalistas. Aqui, cumpriram uma extensa programação, que
incluiu visita a três fazendas de cacau, Ceplac, Conselho Nacional dos Produtores de Cacau
(CNPC) e as prefeituras de Itabuna e Ilhéus.
Convidado pelo prefeito Antônio Olímpio para um almoço no Hotel Canabrava, a delegação
compareceu em peso. Bem falante, o cicerone Haroldo Lima demonstrava todo o seu
conhecimento sobre a região cacaueira – local onde permaneceu clandestino nas fazendas
de cacau durante a ditadura militar –, encantava os chineses com informações sobre a
Mata Atlântica (fauna e flora), além de características sobre a história e a população.
Lá pelas tantas, Haroldo Lima apresentou uma das frutas mais famosas da árvore
Artocarpus heterophylla, a jaca, responsável pela alimentação da população rural e os
doces que poderiam ser feitos com ela. Entusiasmado com as ricas propriedades da jaca,
o embaixador chinês pediu a palavra e discorreu sobre as propriedades medicinais da
fruta, conhecida dos chineses, que a plantam no sul do seu país, junto ao cacau.
Prosseguindo, o embaixador chinês revelou um estudo científico realizado pelos chineses
para combater a Aids, por possuir em sua composição uma substância de propriedades
medicinais, a “jacaína”. A cada frase, o embaixador fazia uma pausa, para que o tradutor

fizesse a transcrição para os presentes, quando foi aparteado pelo prefeito então prefeito
de Ilhéus, Antônio Olímpio.
– Quem bom, embaixador! Essa é uma ótima notícia para a população de Itabuna, que
poderá ficar livre dessa terrível doença. Basta utilizar o bagunço como supositório, que
estarão imunizados – brincou (mas não necessariamente com essas palavras).
Os chineses apenas sorriam – como sempre – mas não entendiam o porquê do silêncio
sepulcral no ambiente. É que a intervenção de Antônio Olímpio causou um profundo mal-
estar entre os presentes de língua portuguesa, inclusive no tradutor, que ficou
embasbacado sem saber como verter a frase para o chinês, para desespero do
embaixador, que continuava sem saber o que estava acontecendo.
Explicações de pé de ouvido entre uns, troca de olhares entre outros, fortes risadas entre
os brasileiros que naturalmente conheciam Antônio Olímpio e sabiam da sua verve
humorística. Na verdade, quem conhece Antônio Olímpio sabe que ele perde o amigo, mas
não perde a piada, e que nem se lembrava ou importava que ele, nascido em Ferradas, à
época distrito e hoje bairro de Itabuna, era um autêntico papa jaca.
Discretos, os chineses não disseram o motivo pelo qual abriram mão de importar milhões
de toneladas de cacau prometidas pelos comunistas brasileiros. Se contaram ficou em
segredo de Estado.

Walmir Rosário;Radialista, jornalista e advogado

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