A GREVE DA CEPLAC, O PT E ODILON PINTO
Por Walmir Rosário
Com os primeiros sinais da redemocratização do país, ainda no ano de 1984, os
movimentos políticos e sociais começaram a colocar o povo nas ruas. No Sul da Bahia não
foi diferente e os funcionários públicos municipais deram a partida. Na Ceplac, instituição
conhecida pela eficiência dos seus quadros e hierarquia, o movimento surpreendeu muita
gente – de dentro e de fora –, que não acreditava no que via: era o movimento sindical já
instalado, com as bênçãos e a capacitação do Partido dos Trabalhadores (PT).
Em Itabuna e Ilhéus, as duas maiores cidades da região, as caminhadas e manifestações
percorriam as ruas, tomavam as praças demonstrando as reivindicações e a necessidade
de mudanças, sobretudo na relação patrão x trabalhador. Tímida no início, aos poucos as
fileiras do recém-criado Conselho das Entidades Representativas dos Funcionários da
Ceplac foram sendo engrossada com a adesão dos funcionários mais graduados, na sua
grande maioria pessoas que não militavam na política partidária.
E não demorou a recrudescer o relacionamento entre a direção e os funcionários em geral,
cujo tratamento era o de “colega”. De pronto, os veículos de comunicação foram
acionados para desestruturar o movimento, tido e havido como baderneiros comandados
por alguns poucos incendiários. Mas não resistiu e, aos poucos, os o Conselho das
Entidades foi ganhando a “guerra da comunicação”, haja vista o crescimento da
representação sindical.
Como era de se esperar, a primeira greve na Ceplac era inevitável e foi aprovada em uma
monumental assembleia. Nesse período que antecedeu a primeira greve (que fez história
na região), era grande a movimentação de pessoas ligadas aos ainda considerados
partidos de esquerda: PT, que obtinha o comando quase que total; o PCdoB, em menor
escala; PCB, com alguns “gatos pingados”; e até do PMDB, estes nem tão bem-vistos
pelos petistas, mas aceitos diante das circunstâncias.
Às 4 da madrugada os líderes do movimento saem de Ilhéus e Itabuna e se encontram no
local previamente combinado – o ponto de ônibus em frente à fazenda Primavera, vizinha
à sede regional. Lá, após a visita de reconhecimento aos portões de entrada da sede da
Ceplac, combinam a invasão e o fechamento do órgão – considerado um avanço para os
sindicalistas e um sacrilégio para os dirigentes e os funcionários que ainda não viam com
bons olhos o Conselho das Entidades.
Sem encontrar qualquer resistência, assumem a portaria da Ceplac, colocam as faixas,
fecham as passagens. Ninguém entrava ou saia se não obtivessem a permissão dos novos
mandatários: os piqueteiros. Um pouco mais tarde chegam alguns policiais federais
disfarçados de jornalistas, fazem fotos e vídeo dos grevistas, com direito a pose e tudo
mais e vão embora. Em seguida chega a Polícia Militar, que conversa com os líderes do
movimento e acertam a entrada dos dirigentes e do pessoal de serviços considerados
essenciais, a exemplo do tratamento de animais e plantas pesquisadas.
O primeiro entrevero registrado foi entre o radialista e professor Odilon Pinto, que à época
apresentava o programa radiofônico da Ceplac “De Fazenda em Fazenda”, que ao deixar a
Rádio Jornal – junto com o sonoplasta Renan Brandão – e voltar para o estúdio na Divisão
de Comunicação (Dicom) para gravar os quadros do programa do dia seguinte, foram
impedidos de entrar. Militante do PCdoB durante os “anos de chumbo”, Odilon tinha outro
projeto que não a volta à política, muito menos a sindical, e resolveu desobedecer as
ordens dos líderes do Conselho das Entidades.
Sem esboçar qualquer reação de violência ou de contra-ataque ao piquete formado pelos
sindicalistas, Odilon Pinto continuou na sua intenção de furar o bloqueio sem se incomodar
com o cerco feito a eles. Para conter o ímpeto do radialista, os piqueteiros – já
devidamente instruídos para uma reação desse tipo – jogaram uma bandeira do Brasil ao
chão, justamente no caminho que Odilon pretendia seguir.
Como uma esfinge – que pouco se manifesta e de quem não se sabe o que pensa ou
sente e qual a reação – Odilon continuou o seu caminho, deu dois passos apenas,
ultrapassou a bandeira jogada no chão e continuou sua caminhada para o trabalho. Por
certo, naquele momento deve ter passado por sua mente toda sua luta contra o regime
militar, o que lhe custou mudanças de endereço, prisões e torturas.
E esse terrorismo praticado contra Odilon Pinto – e Renan Brandão –, que passou a ser
chamado pelo Conselho das Entidades – leia-se Geraldo Simões e sua turma – de “Pisa na
Bandeira”. A prática continuou a ser feita também contra outros ceplaqueanos que
ousassem a não se submeter aos caprichos do grupo. E esse método perdurou até que o
grupo de Geraldo Simões assumiu a direção da Ceplac, quando passou a cometer as
mesmas injustiças das direções passadas. Sem a moral de antes, tudo voltou ao normal.
E o movimento perdurou por vários dias sem que se chegasse a uma negociação
conforme o interesse de ambos os lados. Se para os piqueteiros a greve representava
trabalho dobrado, para outros funcionários era o paraíso, pela oportunidade de frequentar
as praias nos dias destinados ao serviço, pelas viagens antes programadas e que nunca
podiam ser feitas. E tudo continuou como se nada tivesse acontecido.
Enfim, esse é preço que se paga em qualquer movimento de ordem política, seja para
atender o social ou não.
Radialista, jornalista e advogado



