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A CHOCANTE MATÉRIA DAS URNAS FUNERÁRIAS DE ISOPOR

A CHOCANTE MATÉRIA DAS URNAS FUNERÁRIAS DE ISOPOR

Mauro Horta e a urna revolucionária: desafio era superar a descrença*

Por Walmir Rosário*

Estávamos em setembro de 1999. À época, entre outras atividades, eu exercia o cargo de assessor
de comunicação da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Itabuna, uma instituição até hoje
bastante ativa no setor econômico e social. Semanalmente, publicávamos um tabloide, de nome
Momento Empresarial, com 12 páginas, encartado no jornal Agora, de bastante sucesso, e volta e
meia nossa matéria de capa se tornava a principal manchete do Agora.
Na semana de 11 a 17 de setembro de 1999, a bendita capa apresentava a seguinte manchete:
“Urnas funerárias fabricadas em isopor”. Celeuma é pouco para o fuzuê criado na cidade. E a
confusão se iniciou ainda na elaboração da matéria, o que garantia o sucesso da publicação. Eu
era o editor, redator, repórter, editorialista, articulista, produtor e mais que houvesse de
necessidade na produção do jornal.
Imaginem, então o sufoco que passei desde a elaboração até a circulação do Momento
Empresarial. E fiz tudo dentro da conformidade dos manuais da técnica e ética do jornalismo, com
todos os detalhes. Um título decente, uma reportagem que ouviu todos os principais interessados,
matéria principal equilibrada, secundária com sustentação científica e destaques. O grande
problema era apresentar o simples isopor para substituir as tradicionais urnas de madeira.
O assunto chegou a meu conhecimento numas das concorridas reuniões de quintas-feiras da CDL,
na qual o empresário Mauro Horta apresentou a novidade que prometia transformar Itabuna na
primeira sede dessa inusitada indústria. Garantiu que com a tecnologia existente, a urna (caixão)
de madeira seria substituída por outra, esta produzida a partir da espuma de poliestireno,
conhecido popularmente como isopor.
O empresário revelou que a urna funerária de isopor estava patenteada junto ao Instituto Nacional
de Propriedade Industrial, e prometia revolucionar o mercado de “caixões”, principalmente junto
aos menos favorecidos economicamente. Porém ele alertava que seria preciso vencer o aspecto
tradicional e religioso, por despertar a desconfiança das pessoas em acreditar ser o isopor frágil,
que não suportaria transportar o mais simples mortal ao cemitério, o que era um engano.
E as engenhosas urnas de isopor seriam entregues, como manda a tradição de nossa última
viagem num caixão funerário de madeira, acrescida dos mais diversos acessórios, a exemplo de
forro de cetim branco acolchoado por dentro, cetim roxo por fora e outros motivos religiosos como
a cruz. A vantagem seria o baixo custo do sepultamento, que seria reduzido dos atuais R$ 170,00
a R$ 5 mil, para módicos R$ 80,00, um alívio para os menos favorecidos economicamente.
Ainda defendia o empresário, que devido ao baixo custo, o uso inicial das urnas de isopor deverá
ser mais intenso entre os indigentes e a população de baixa renda, que geralmente procura o
serviço social das prefeituras para custear o enterro. O invento de Mauro Horta já tinha ganhado,
segundo afirmou, o apoio do prefeito de Itabuna, Fernando Gomes, e de secretários municipais.
“Um caixão tem que ser simples, singelo e barato, e esse é o ideal”, defendeu com ardor.
A preservação do meio ambiente era outro carro-chefe da invenção, evitando que no processo de
desencarne os líquidos contaminassem o solo e o lençol freático. Esse processo seria realizado em
apenas 90 dias, ao contrário dos cinco anos de hoje. Com o aumento dos problemas urbanos, a
nova urna funerária resolveria a questão do espaço nos cemitérios, que segundo os cálculos do
empresário, a relação de espaço poderá ser reduzida em até 16 vezes.
E o projeto de Mauro Horta ia além da produção de urnas funerárias de isopor e pretendia colocar
no mercado um serviço de seguro funerário, no qual as pessoas de baixo poder aquisitivo

pagariam um valor mensal para adquirir o seu “caixão”, despreocupando a família no caso de sua
morte, que não teria de arcar com despesas inesperadas. A intenção era aliar os custos à
funcionalidade, no sentido de beneficiar a população.
Entretanto, para a colocar fábrica de Itabuna em funcionamento, o empresário estava em
busca de recursos para implantar o projeto, que poderá gerar cerca de 400 empregos, entre a
fabricação de cinco mil urnas mensais e demais tipos de embalagens que serão produzidas. E
se tivesse dificuldade em implantá-la na cidade, poderia levá-la para o Rio Grande do Sul, cujo
governador já teria manifestado interesse no projeto.
Para os céticos, a urna funerária de isopor seria apenas uma brincadeira ou falta de respeito
às tradições e religiões. Pouco importavam que a urna fosse moldada e injetada, com três
pares de alça, revestimento interno em cetim, externo em pigmento roxo e visor de acrílico ou
suportasse, com segurança, 220 quilos. Daí a desconfiança dos investidores e dos demais
segmentos interessados, a exemplo das funerárias e parentes dos defuntos.
O maior problema da reportagem foi tentar convencer os donos de funerárias a tecerem
comentários a respeito do ambicioso projeto do empresário Mauro Horta. Por telefone,
mesmo me identificando como sendo o jornalista Walmir Rosário (conhecido de sobra),
assessor de comunicação da CDL de Itabuna, não consegui nenhuma palavra a respeito
do tema da reportagem que elaborava.
Pelo contrário, ouvi muitos xingamentos com palavras de baixo calão, impublicáveis nesta
singela e familiar crônica, para o bem e o respeito que devo aos meus queridos e
respeitáveis leitores. Como se não bastassem as palavras chulas, ofensivas e obscenas, fui
ameaçado de morte matada, caso não calasse a boca e parasse de injuriar os inocentes
mortos, decentemente enterrados de acordo com o ritual cristão.
Assim que o jornal Agora foi publicado, com a manchete do caderno Momento
Empresarial, a confusão foi grande e os debates se afloraram, divergindo desde o novo
padrão de sepultamento até a matéria jornalística. Confesso que me resguardei por uns
dois dias e ficou nisso mesmo. O certo é que o empresário Mauro Horta não conseguiu o
financiamento para o seu projeto, nem em Itabuna ou nos pampas gaúcho.
E os mortos sequer puderam inaugurar uma nova tecnologia funerária.

*Radialista, jornalista e advogado

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