A BOMBA DO ITABUNA ESPORTE CLUBE
Walmir Rosário*
Confesso que o futebol praticado hoje não mais me emociona e nem mesmo os jogos da
seleção brasileira me convidam a uma vaga no sofá na sala, ou numa mesa de bar ou a
casa de amigos, como fazia antigamente. Utilizo a televisão de casa para assistir aos
filmes, documentários, musicais e aos jogos (não me condenem precipitadamente) do
Glorioso Botafogo, costume que adotei do último campeonato brasileiro pra cá.
Confesso que estou bastante satisfeito com as poucas partidas de futebol assistidas, nas
quais vejo os valores individuais jogarem para o coletivo, driblando, lançando bolas para
os atacantes, fazendo os belos e necessários gols para vencer as partidas. Me recuso –
terminantemente – a assistir jogos em que os “craques” de agora têm medo da bola e a
maltratam constantemente apenas para satisfazer os caprichos dos pobres treinadores.
Frequentemente sou chamado de saudosista, o que simplesmente não me ofende, ao
contrário, me deixa feliz por gostar de apreciar o bom futebol e não esses de planos
construídos numa prancheta de um treinador qualquer. Como não gostar dos craques que
sabem dominar a bola e fazem acontecer nos campos desse Brasil afora. Relembro dos
telefonemas recebidos do saudoso professor Gabriel Saraiva, comentando o show de bola
dos craques do Botafogo, e até do Bahia (este não me emocionava).
Pois fiquem os senhores e senhoras sabendo que não apenas os times do Rio de Janeiro e
São Paulo possuíam craques capazes de nos emocionar com jogadas maravilhosas, às
vezes desconcertantes, terminadas em gols, ou não. Para não ir tão longe, vou me abster
aos jogos realizados no meu “terreiro”, com a famosa seleção amadora de Itabuna
(hexacampeã baiana) e o Itabuna Esporte Clube.
Para não encher a paciência dos leitores, não citarei aqui centenas de craques que fizeram
a história futebolística baiana, embora não possa esquecer Santinho, os irmãos Leto,
Carlos, Lua e Fernando Riela, Ademir Chicão, Luiz Carlos, Bel, Tombinho, o baixinho
Ronaldo Dantas, Itajaí Andrade, João Xavier, dentre muitos outros. A grande maioria
desses jogadores formaram o Itabuna Esporte Clube, criado em 23 de maio de 1967.
Devidamente profissionalizados, os craques tiveram que se adaptar ao novo estilo de
preparação física e tática, agora com os profissionais do Rio de Janeiro, São Paulo e até
Rio Grande do Sul. Se antes eram uma só família, esse clã cresceu bastante com os novos
“parentes” contratados nos estados do sudeste brasileiro, aos poucos, a maioria dos filhos
da casa abandonaram (ou foram obrigados) a abandonarem o futebol.
E essa atitude caiu como uma luva para os técnicos daquela época, a exemplo do
conhecido “Velha” e outros que o substituíram, entre eles o gaúcho Ivo Hoffmann, que
aqui chegavam, avaliavam o elenco e pediam grandes reforços. E assim iam ao Rio de
Janeiro com a missão de selecionar craques que não tinham chances nos grandes times e
trazê-los para brilhar e fazer brilhar o Itabuna.
Só que muitos desses jogadores eram arrebanhados nos campos de pelada e vinham em
sociedade com os técnicos, que levavam uma gorda comissão (e bota gorda nisso). Numa
destas viagens, Ivo Hoffmann vai ao Rio de Janeiro para trazer um zagueiro, dois meios-
campistas, dois atacantes e um ponta-esquerda, para substituírem os que se encontravam
“bichados”, ou que iriam para o banco.
Desta turma toda, a maior necessidade do Itabuna Esporte Clube era o ponta-esquerda,
que há muito sofria de uma contusão crônica. Apresentação feita na sede do clube, na rua
Barão do Rio Branco, o destaque era um jogador negro, baixinho, gordinho, de nome
Bolete (acredito que pela compleição), já nomeado pelo técnico Ivo Hoffmann como a
bomba a ser lançada no próximo jogo contra o Leônico, o conhecido “moleque travesso”.
No treino da sexta-feira, que aprontava a equipe para o jogo do domingo, eis que Bolete é
convocado para entrar em campo, e se apresenta todo serelepe correndo pela ponta-
esquerda. Um sucesso! Terminado o treino, os repórteres esportivos encheram o técnico
Ivo de perguntas, sobre o jogo de domingo e a estreia dos jogadores, melhor dizendo, da
bomba a ser lançada contra o Leônico.
Nas emissoras de rádio e nos jornais itabunenses as manchetes eram o lançamento da
bomba. Bomba pra lá, bomba pra cá, o nome Bolete foi logo substituído por Bomba. No
domingo, a vermos a escalação do Itabuna no vestiário do velho Campo da Desportiva, o
Bomba ficaria no banco e deveria entrar no segundo tempo, para arrasar o manhoso
Leônico da capital.
Termina o primeiro tempo da partida em zero a zero. Os jogadores entram para o segundo
tempo e a torcida impaciente começa a gritar: Queremos o Bomba, queremos o Bomba!
Lá pelos 15 minutos o ponteiro-esquerdo bichado pede para sair e o campo da Desportiva
vai abaixo gritando Bomba, Bomba, Bomba. Ele se aquece com uma rapidez
impressionante para o delírio da torcida.
Na primeira bola que pega, sai em disparada pela esquerda em direção ao Jardim do Ó e
quando o lateral direito corre em sua direção para contê-lo, eis que o Bomba tropeça em
suas próprias pernas e cai. E a torcida, em silêncio sepulcral na Desportiva, assiste a
chegada da maca para retirar o Bomba de campo. Ninguém conseguia entender nada. A
Bomba deu chabu e o assunto passou a ser proibido no Itabuna, que dispensou o atleta.
Anos depois, numa conversa com Bel (Abelardo Moreira), que integrou o Itabuna, ele me
contou que no dia da partida não encontraram no vestiário as chuteiras 39 que calçaria
Bolete, o que foi motivo que ele ficasse no banco. A solução encontrada foi ele jogar com
duas chuteiras de número 38. Mas como a Lei de Murphy diz que não há nada que não
possa piorar, as chuteiras eram ambas para calçar o pé esquerdo.
Desse jeito, não há bomba que resista!

*Radialista, jornalista e advogado.


