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SARTRE, SIMONE E JORGE CHUPARAM CACAU EM ITABUNA

SARTRE, SIMONE E JORGE CHUPARAM CACAU EM ITABUNA

Por Walmir Rosário*
Era uma sexta-feira daquelas qualquer, que não prometia nada de especial ao
Itabunense. Entretanto, o dia 19 de agosto de 1959 entrou na história do povo
grapiúna. Logo pela manhã chega o voo de Salvador e descem quatro
personagens internacionais. Naquele dia, nada de recepções, banda de música,
charanga ou uma bela comissão de boas-vindas. Tudo normal, ou quase isso.
Assim que o avião estaciona no aeroporto Tertuliano Guedes de Pinho, apenas
uma pessoa demonstrava nervosismo ao vislumbrar quatro passageiros
assomarem a porta do aparelho e descerem a escada. Era Moisés Alves da
Silva, um generoso mecenas, tido como grande amante das artes, incluída aí a
literatura e a filosofia.
Assim que os dois ilustres casais pisam em solo grapiúna trocam longos e
afetuosos cumprimentos e efusivos abraços com Moisés. Pelo que se sabe ele,
Moisés, era o segundo itabunense a ter contato com o casal de filósofos
franceses representantes do existencialismo, Jean Paul Sartre e Simone de
Beauvoir. Eles mesmos, em carne e osso em solo grapiúna. Um sonho
realizado.
O outro casal era bastante conhecido, sendo ele um itabunense da gema,
nascido em Ferradas e considerado o mais lido romancista do mundo, portanto
um conterrâneo de renome internacional. Ao seu lado, como esperado, sua
esposa, Zélia Gattai, chamada pelos jornalistas do Diário de Itabuna de Zélia
Amado, em respeito ao nome de família do esposo, nosso ídolo das letras.
Pelo que se comentou, a visita teria sido programada pelo deputado federal e
líder do governo federal na Câmara, Aziz Maron. O silencio em relação às visitas
seria apenas uma estratégia para não transtornar a permanência dos visitantes
com centenas ou milhares de pessoas de toda a região, tornando improdutiva a
pesquisa que pretendiam fazer sobre a vida do homem do campo, mais
exatamente na cacauicultura.
Do aeroporto direto para o Lord Hotel, onde foram acomodados por Nelson
Muniz Barreto. Após uma rápida toilette e um lanche partiram para a fazenda
Progresso, do Coronel Nicodemos Barreto, parte do grupo de fazendas que iria
até Buerarema. Apesar de não contar com a presença do coronel e dos filhos,
foram recebidos nababescamente na propriedade.
De início, beberam mel de cacau, chuparam a polpa das amêndoas, doces e
ácidas, subiram nas barcaças onde secavam as amêndoas, não se
amedrontaram e entraram nas plantações, apesar de serem alertados sobre os
riscos de animais peçonhentos, cobras, inclusive. Conversaram com os
trabalhadores rurais para conhecer de perto o “operário agrícola”, sua vida,
família, moradia e salário.

Após agradecer a gentil e tradicional hospitalidade da família Barreto,
almoçaram no Lord Hotel e rumaram para Ilhéus. Desta vez, a curiosidade de
Sartre era conhecer a vida e o trabalho numa pequena fazenda de cacau, uma
burara, como explicou Jorge Amado. Em Ilhéus visitaram amigos de Jorge, o
porto e locais turísticos da cidade.
À noite novos compromissos, e já reservada para os visitantes receberem os
intelectuais itabunenses e da região, uma considerável legião de admiradores,
que colheram autógrafos dos filósofos franceses e do escritor conterrâneo em
seus livros. De acordo com os jornalistas do Diário de Itabuna e da Rádio Clube
de Itabuna, foi uma festa da inteligência, da elegância e do culto à ilustração.
Na manhã seguinte, um sábado, 20 de agosto, Jorge Amado, Sartre e Simone
concederam a prometida entrevista à Rádio Clube de Itabuna, capitaneado pelo
diretor Otoni Silva, coadjuvado pelo advogado Wilde Oliveira Lima e o jornalista
Cristóvão Colombo Crispim de Carvalho. A esperada entrevista foi anunciada
para ir ao ar nos próximos dias, em data e horário exaustivamente anunciados.
Como não poderia deixar de ser, no sábado Jorge e Zélia Amado, Otoni Silva e
Moisés Alves da Silva ciceronearam os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de
Beauvoir ao distrito de Ferradas, berço de Jorge Amado. Posaram para fotos
em frente à casa do escritor, num preito de gratidão e reconhecimento à terra
natal de Jorge Amado.
Em seguida, seguiram para o aeroporto Tertuliano Guedes de Pinho, em
Itabuna, e tomaram o primeiro voo com destino a Salvador, onde os
aguardavam vários círculos da mais fina intelectualidade baiana. E assim
Itabuna viveu dois dias como sendo a capital do existencialismo da liberdade
individual, embora eu não conheci o prometido estudo do trabalhador do cacau.

*Radialista, jornalista e advogado.

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