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MODEL, O RESTAURANTE QUE MUDOU HÁBITOS EM ITABUNA

MODEL, O RESTAURANTE QUE MUDOU HÁBITOS EM ITABUNA

A Itabuna das décadas de 1950/60 era interiorana, mas possuía um charme irresistível. Nas muitas áreas do comércio de luxo os lançamentos aqui eram apresentados de forma simultâneas aos do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, para que não houvesse insatisfação ou qualquer outro evento desagradável, nos grupos mais abastados.

Os bares e restaurantes não ficavam nada a dever de grandes centros, pois eram equipados com o que tinha de melhor, tendo como fonte de inspiração as grandes casas do Rio de Janeiro e até de países europeus. As padarias eram um espetáculo à parte, com pães de vários tipos e tamanhos e uma variedade de biscoitos de dar apetite a cada olhada.

O empresário Antônio Senna

E uma dessas padarias era a Modelo, implantada ali na rua Ruy Barbosa, antiga do Quartel Velho, criada em 1931 e dirigida por Antônio Senna, empresário organizado e “padeiro” exigente na qualidade dos seus produtos. E a freguesia era formada por personalidades desde os “coronéis” do cacau e do comércio, médicos, advogados, até o simples comerciário.

E àquela época, em Itabuna, o costume era de os “coronéis” irem, pessoalmente, escolher os pães e biscoitos que levariam para casa. E no fim da tarde a padaria Modelo se transformava num ponto de encontro qualificado pelos bem-dotados, economicamente. Muitos até ficavam batendo papo até mais tarde e os pães eram levados por filhos ou agregados.

Todo o conceito da padaria Modelo era pouco na imaginação de Antônio Senna, que planejava implantar um tipo de comércio que pudesse satisfazer seus clientes, inclusive mantendo-os até noite a dentro e consumindo produtos de qualidade. Seria uma padaria daquelas do Rio de Janeiro e São Paulo, com serviços rotisserie, com pratos frios e quentes para levar ou consumir no local.

Estavam previstos, ainda, laticínios de qualidade, sanduiches com as novidades recém-chegadas da Europa e Estados Unidos, do tipo hambúrguer e cheeseburger (abreviado para X-burguer). Para beber, sucos de frutas preparados na hora, café, leite, refrigerantes e bebidas alcoólicas das mais diversas, cujo o carro-chefe seria o Chopp, novidade em Itabuna. Outra especialidade era o chocolate da marca Copenhague, estrela da sortida bombonieire.

Para tanto, conseguiu dois prédios na avenida do Cinquentenário, que simplesmente iria até a rua dos fundos, a Paulino Vieira. O cliente entrava por uma rua e saía pela outra se assim quisesse. Serviço de primeira, com o pessoal exaustivamente treinado em todas as especialidades da casa. Tratamento de primeira, elogiavam os clientes.

E o nome foi escolhido com esmero: Model, remetendo a memória à conceituada padaria Modelo, há pouco mais de uma centena de metros de distância. Uma grande inauguração e o mais completo estabelecimento de padaria, confeitaria, caiu imediatamente no gosto do povo pelo paladar e o serviço prestado. Só de olhar as novidades compravam compulsivamente.

Àquela época o itabunense ainda não tinha o hábito de almoçar fora de casa, a não ser em ocasiões especiais. Mas, aos poucos, os grupos de amigos criaram o hábito de passar no Model para beber um chopp para aguçar o apetite e ir almoçar em casa. Aos poucos, o chopp foi se tornando uma habitualidade e o almoço passou a ser uma extensão da bebida, ali mesmo.

O chopp Antarctica servido na Model era acondicionado em barricas e depois em tambores de alumínio ou material que o valha, e embarcados em Salvador em pequenos caminhões refrigerados. Na Model eram depositados em uma enorme câmara fria, onde os outros produtos de laticínio e derivados de carne, na temperatura adequadas. Um luxo para época em Itabuna.

A carta de sanduiches do Model era uma delícia à parte. Coisa de outro mundo, dizia o advogado Gabriel Nunes, que não dispensava o famoso e graúdo sanduiche americano, que liderava as vendas. Servidos com chopp, sucos ou refrigerantes eram os mais pedidos. Os embutidos como linguiças, salsichas e presuntos servidos todos oriundos das mais famosas marcas.

Sem esquecermos que os sanduiches eram acondicionados nos deliciosos pães da consagrada Padaria Modelo, campeões na preferência dos consumidores itabunenses. Vale ressaltar que a cidade era riquíssima de padarias famosas pelos pães, bolos e biscoitos. Mas se estavam expostos nas prateleiras da Model, com certeza, tinham o certificado de qualidade da padaria Modelo.

Mesmo com o apoio dos filhos, especialmente Gilvan, que gerenciava a padaria e era o “arquiteto” da Model, Antônio Senna se desdobrava para estar presente na área industrial e comercial dos seus negócios. Muitos diziam que sequer dormia (um exagero), ou dormia quase nada (o que era verdade). A qualidade dos seus produtos era testada e tinham o certificado de excelência exigido pela sociedade itabunense.

Nesta época mudei de Itabuna, e quando retornei à cidade não mais existia a Model, que mudou de endereço e empresário, embora a Modelo resista até hoje. Foi um dos períodos de ouro da Itabuna que não deixava por menos em comparação com os grandes centros brasileiros. Sem nenhum saudosismo, vivíamos sob a batuta da farta e riquíssima matriz econômica chamada cacauicultura.

Marcas de um tempo de eternas lembranças.

*Radialista, jornalista e advogado.

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