PINGA SE JUNTA À NATA DO FUTEBOL DO PASSADO
Por Walmir Rosário*
Os torcedores de Itabuna e Ilhéus que não conheceram a rivalidade entre as duas
torcidas perderam uma grande fase da história entre as duas cidades, principalmente
no futebol de alta qualidade jogado naquela época. O mais grave é que poucos têm
conhecimento que foi um ilheense quem marcou o fatídico gol da Seleção de Itabuna,
contra o selecionado de Alagoinhas (na casa adversária) responsável pelo
Hexacampeonato Baiano de Amadores do ano de 1965, finalizado em 30-01-1966.
E o nosso herói atendia pelo nome de Wilson Dias da Costa, embora batizado no meio
futebolístico como Pinga, como ficou conhecido pelos torcedores e os amigos
Itabunense por toda a sua vida. Nascido no distrito ilheenses de Banco Central, em
1953 veio morar em Itabuna, e como todo o menino daquela época era presença
garantida nos babas do inúmeros campinhos de Itabuna.
Não demorou muito para ser reconhecido pela diretoria do Náutico Juvenil como um
garoto bom de bola, futuro garantido no futebol amador. E não deu outra, Pinga
ganhou destaque no Janízaros, único time amador pelo qual jogou. Com a criação e
entrada do Itabuna no futebol profissional, lá estava Pinga, o centroavante, fazendo
seus importantes gols.
E Pinga não se limitava a se postar na área à espera de bola para partir para o gol, se
o jogo estivesse “devagar” ele sabia recuar e buscar a bola no meio de campo para
“espremer” o adversário na defesa até fazer os gols. Aos poucos, sua atuação em
campo chamou a atenção de dirigentes de outras equipes, inclusive fora de Itabuna,
mas Pinga se recusava a sair de Itabuna.
Em terras Grapiúna tinha emprego garantido no Banco Baiano da Produção, e em
seguida, aprovado no concurso do Banco do Brasil, não descuidou da bola, embora
tivesse o futebol com um esporte que lhe garantia uma segunda fonte de renda. Com
Marinho e Nelsão era um trio artilheiro “matador” que conhecia cada pedaço do velho
e famoso Campo da Desportiva.
Sua história na Seleção de Itabuna iniciou em 1963, ao ser convocado para a disputa e
vitória do Tetracampeonato, repetindo a dose no ano seguinte na conquista do
Pentacampeonato. Certa feita me confidenciou que não existia nada igual ao jogar na
Seleção Amadora de Itabuna ao lado de Santinho, Fernando e Carlos Riela, Tombinho,
Ronaldo, Abiezer e tantos outros craques de verdade.
Certa feita em férias no Rio de Janeiro se encontra com o amigo e colega de futebol,
Bel para acompanha-lo a um treino no Botafogo carioca, onde faria teste. Convite
aceito, ao chegarem em Marechal Severiano, o técnico Paraguaio quis saber quem era
o colega de Bel e o convidou para participar. Não deu outra: dos cinco gols, três deles
foram marcados por Pinga e os outros dois por Bel.
Convidado por Paraguaio para participar de outro treino, Pinga simplesmente
agradeceu ao técnico, declinando do honroso convite, explicando que se encontrava a
passeio no Rio de Janeiro. Com a simplicidade de sempre, retornou a Itabuna para
cuidar dos seus afazeres futebolísticos e bancários, com a mesma naturalidade que
marcava seu perfil.
Os que conheceram Pinga em sua vida profissional e no futebol o admiravam pela sua
conduta exemplar e a responsabilidade com futebol. Alguns diziam que o futebol fazia
parte do seu sangue, e tinham razão. Outros irmãos de Pinga também jogaram futebol
amador em Itabuna, a exemplo de Nau, goleiro do Flamengo, Fluminense e Seleção;
Régis, lateral esquerdo do Janízaros e Seleção; Gílson, quarto zagueiro do Janízaros; e
Dilson, meio-campo do Janízaros.
E como o DNA da Seleção de Itabuna era marcado por moléculas vencedoras, Pinga
não desbotava quando entrava em campo qual fosse o adversário. Jogava para vencer.
Certa feira, após sofrer uma derrota para a Seleção de Ilhéus, não perdoou, mesmo
sendo ilheense e sofreu como se a Seleção Itabunense tivesse perdido para um
adversário qualquer, sem a qualidade dos ilheenses.
Essa história de peso da camisa era mera firula, segundo Pinga, tanto assim que dizia
respeitar cada adversário, mas que entrava em campo para fazer gols e vencer, pois
tinha consciência da qualidade dos companheiros. Ele dava risada quando perguntado
pelas táticas empregadas pelos técnicos daquela época. Sabíamos como eles jogavam
mas se não desse certo, nós mesmos em campo éramos quem tínhamos que resolver.
De toda a sua carreira de futebol Pinga fala com satisfação de sua convocação para a
Seleção de Itabuna. Para ele, o Tetra e o Penta foram bons, embora sua consagração
tenha sido definida no Hexa. Era um jogo na casa do adversário e que tínhamos a
responsabilidade de vencer, pois empatamos no Campo da Desportiva, portanto, em
casa, por 3X3. Bastava marcar um gol e pronto.
Só que nossos adversários complicaram o jogo e Pinga conseguiu marcar aos 35
minutos do segundo tempo. Foi uma festa sem igual, que iniciou em Alagoinhas e só
terminou em Itabuna uma semana depois. Enfim, estava garantida a superioridade
itabunense, conquistando o Campeonato Baiano Intermunicipal de Amadores, por seis
vezes consecutivas.
Mas neste mundo tudo tem seu tempo e no sábado, 8 de agosto de 2026, Wilson Dias
da Costa, o Pinga, aos 83 anos, nos deixa, para a tristeza dos seus familiares e muitos
amigos. Seu corpo foi velado e sepultado em Itabuna, a cidade que adotou e que
amava, com a presença de seus parentes e amigos. Com certeza está reunido com os
amigos futebolistas no Oriente Eterno, os quais formam uma seleção fenomenal.
Os Craques Amilton (E) e Pinga (D)
*Radialista, jornalista e advogado.



