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ITAJAÍ, O XERIFE DE DUAS SELEÇÕES

ITAJAÍ, O XERIFE DE DUAS SELEÇÕES

Por Walmir Rosário*
Pouquíssimos jogadores de futebol foram aquinhoados com a felicidade de
serem convocados para duas seleções, e dentre os notáveis estão Ferenc
Puskás (Hungria/Espanha), Mazzola (Brasil/Itália), Robert Prosinečki
(Iugoslávia/Croácia), Thiago Motta (Brasil/Itália) e Diego Costa
(Brasil/Espanha). Eles aproveitaram a dupla nacionalidade ou a dissolução de
países. Eu ainda incluo Evaristo Macedo no Barcelona e Real Madrid.
Mas não só exemplos famosos do futebol internacional podem ser incluídos
nesta seleta lista. Um grapiúna – itabunense de quatro costados – tem lugar
entre os especiais: José Itajaí Andrade Teixeira, nos campos de futebol
simplesmente Itajaí, que jogou pela Seleção de Ilhéus e, em seguida foi
convocado para a Seleção de Itabuna, a Hexacampeã baiana.
Sem qualquer paixão ou proselitismo, podemos considerar a participação de
Itajaí nesta seleta lista – guardada as devidas proporções –, por se tratar de
um jogador amador, portanto exposto à paixão dos torcedores devido à
rivalidade entre as duas cidades. A convocação nas duas seleções foi motivada
pelo futebol técnico e sério que jogava.
Vou logo alertando ao torcedor mais jovem que para enfrentar a vibrante,
numerosa e apaixonada torcida daquela época era preciso que o jogador
possuísse domínio dos nervos, em campo ou fora dele. A primeira palavra que
saia da boca de um apaixonado – melhor dizendo, fanático – torcedor, era
traidor da pátria, seguida de xingamentos nada amistosos.
No caso de Itajaí, pelo seu comportamento durão, daqueles que não leva
desaforo para casa, o oponente pensava duas vezes antes de atacá-lo, pois a
resposta vinha pronta, sem pestanejar. Mas os explosivos torcedores
aguardavam outras oportunidades para lançar os impropérios, principalmente
quando separados pelo alambrado que divide o gramado da torcida.
Itabunense, Itajaí foi morar em Ilhéus por decisão da família para estudar o
ginásio, no final da década de 1950. É aí que o um tio morador em Ilhéus e
diretor do Vitória ilheense, o convida para residir com ele na vizinha cidade.
Convite aceito por ele e a família, Itajaí nem bem se ambienta na nova cidade,
recebe o convite para treinar no time, ocupando a mesma posição da equipe
anterior: zagueiro.
No Vitória, inicia o treinamento e no primeiro jogo – num domingo –, na
primeira bola em que pega um jogador adversário lhe dá um violento pontapé
no tornozelo, que virou o pé. Ao voltar pra casa sua tia Djalma, que era muito
enérgica disse que iria tratá-lo, mas quando estiver restabelecido, teria que
fazer a mesma coisa com ele, se não irá apanhar.
Após passar 20 dias imobilizado (no gesso) Itajaí retorna aos treinamentos e ao
disputar uma bola com o mesmo adversário não se contem e vai a forra, numa
disputa mais enérgica e aplica um leve bico de chuteira no joelho do colega,
tirando a rótula de lugar. E Itajaí diz que ele pagou na mesma moeda. Em
seguida se arrepende de ter ido à forra, mas ressalta que serviu como lição.

Meses depois, num treino do Vitória, o técnico escala oito aspirantes para jogar
contra o quadro titular, no qual jogava Sílvio Mário. “Marquei ele que não
andou em campo”, lembra Itajaí. E essa partida foi fundamental para que
iniciasse a jogar de quarto zagueiro no time titular. Daí foi um pulo para ser
convocado para a Seleção de Ilhéus, na qual jogou de 1960 a 1962.
De volta a Itabuna, Itajaí é convidado para jogar no Fluminense e fecha um
contrato no valor de Cr$ 50 mil (Cinquenta mil cruzeiros), com o diretor Davi
Pinheiro, o que era considerada uma boa fortuna. O compromisso era jogar um
ano pelo Fluminense amador. Cheque na mão procura o tio Zelito Fontes e
comprou 83 bezerros, com direito a pasto grátis.
E não deu outra, também foi convocado para a Seleção de Itabuna, o que
despertou a ira dos torcedores ilheenses, logo na primeira partida disputada
entre as duas seleções rivais. E como o noticiário da imprensa – jornais e rádios
– era motivo de discussão entre os torcedores, a primeira partida “pegou fogo”
com Itajaí na quarta zaga da seleção itabunense.
Embora os debates entre os torcedores “incendiavam” as duas cidades, no meio
dos jogadores o clima era ameno, pois eram amigos fora de campo, embora
não houvesse regalias dentro de campo. Eram adversários. Certa feita um
jogador ilheense chegou a lhe confidenciar que alguns torcedores lhe
procuraram em particular, oferecendo uma boa soma em dinheiro para que
quebrasse a perna do “traidor” Itajaí. E tudo terminou em risadas.
Na Seleção de Itabuna e nos clubes Itajaí era titular e jogou as grandes
decisões do Campeonato Intermunicipal, no qual o selecionado itabunense foi
hexacampeão baiano de amadores. E Itajaí diz com toda a tranquilidade que
eles entravam para decidir o jogo, em Itabuna e nos campos dos adversários,
pois eram os melhores da Bahia.
Aos 26 anos Itajaí resolve se aposentar do futebol quando jogava para o
Itabuna Esporte Clube, já profissional. Daí se dedicou à carreira de bancário e,
posteriormente, empresário da comercialização de cacau, cacauicultor,
pecuarista e industrial do leite. Itajaí lembra com satisfação o período em que
jogou futebol e foi um dos líderes daquelas equipes vencedoras que tantas
alegrias proporcionaram à torcida itabunense.]

*Radialista, jornalista e advogado

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