OS 69 ANOS DA CEPLAC EM BRANCAS NÚVENS
Por Walmir Rosário*
No dia 20 de fevereiro passado recebi um zap do colega ceplaqueanos Marco
Franco lembrando que aquela da era especial: os 69 de fundação da Ceplac.
Claro, não poderia estar longe de minha memória, mas fiz questão de ficar
calado, até mesmo para auscultar o nível de lembrança de um aniversário tão
festejado em épocas passadas.
Prometi ao colega tocar no assunto em seguida, o que farei a partir de agora. E
acredito que fiz bem por aguardar, pois recebi de outro colega ceplaqueano,
Luiz Ferreira da Silva, um dos primeiros engenheiros agrônomos contratados, o
livro “Ceplac Revivida”, recém-saído da gráfica. Uma coletânea de lembranças
de seu tempo (da Ceplac) áureo.
Pois bem, na sexta-feira (20-02), também recebi algumas mensagens nos
grupos de Whatsapp e até um vídeo com membros da atual diretoria
ressaltando a data e os feitos da Ceplac, com promessas de breve ressureição.
E todos os pálidos feitos prometidos para o futuro se baseavam numa
esperança dos efeitos de um decreto federal editado recentemente.
Bem que eu gostaria de eu a força da tinta sobre o papel – no caso, o Diário
Oficial da União – tivesse o poder de garantir tal proeza. Não se trata de tolo
ceticismo, mas de simples percepção da situação atual do governo federal, sem
recursos suficientes para fazer andar a máquina pública, que anda sem a
lubrificação necessária em reais para cumprir seu papel.
Acredito mesmo que os discursos dos dirigentes tenham sido pelo estrito
cumprimento do dever de ofício, e como se diz nas forças armadas: dar moral à
tropa. Não se faz ciência sem pessoal altamente especializado, principalmente
na economia cacaueira, cultura perene em que as pesquisas podem levar até
mais de 20 anos para produzir resultados positivos.
Infelizmente, o quadro de pessoal da instituição sofre baixas diárias com a
aposentadoria, produzindo resultados negativos, como escritórios de extensão
fechados, laboratórios sem profissionais especializados para produzir ciência, e
recursos para fazer a engrenagem andar. A situação se agrava, ainda mais,
com a debacle nos preços internacionais. Mesmo assim torço pelo milagre.
Para facilitar aos que pretendem dar a volta por cima na Ceplac, gostaria de
apresentar o novo livro de Luiz Ferreira, ex-dirigente do Cepec e da Ceplac na
Amazônia, cuja folha de serviços – como a de outros colegas – chega a ser
invejável. Trocando em miúdos, o livro Ceplac Revivida é um desenho em letras
de como a Ceplac elevou a produção de cacau em 310%, passando de 123 mil
toneladas, nos anos 1960/65, para 380 mil toneladas, no quinquênio 1980/85,
assinalando um recorde de 457 mil toneladas no ano agrícola 1984/85.
E a revolução produtiva teve como base a visão holística da direção da Ceplac,
que sempre colocou o cacaueiro no seu epicentro, mas atrelado ao produtor de
cacau, à ecologia integral e ao crescimento socioeconômico, estabelecendo um
cavalete de 4 pernas de atuação: pesquisa, extensão, educação e apoio ao
desenvolvimento. Hoje, simplesmente, o produtor não tem certeza se amanhã
continuará a trabalhar a sua terra.
No livro, o autor explica que as terras dos pequenos produtores foram
regularizadas para que eles tivessem acesso a financiamento, pesquisa e
extensão. Tudo isso com o conhecimento feito por uma equipe multidisciplinar
bastante motivada, pois a Ceplac era vista por seus funcionários como uma
escola, lar e p
rovedora.
Além da formação de práticos e técnicos agrícolas pela Escola Média de
Agricultura da Região Cacaueira (Emarc), em Uruçuca, Valença, Teixeira de
Freitas (BA) e Ariquemes (RO), engenheiros agrônomos, economistas, biólogos,
educadores, e outras especialidades foram contratados para elaborar um
estudo regional e assistir os produtores.
Para Luiz Ferreira, um dos grandes problemas foi o fim da taxa de retenção
cambial, que permitia investimentos maciços em recursos, humanos, com várias
campanhas feitas por grupos de produtores. Com o fim da autonomia
financeira, a Ceplac se transformou em apenas uma sigla do Ministério da
Agricultura, e sujeita a interferências políticas.
Se antes os recursos da taxa de retenção cambial não fossem suficientes para
cobrir o orçamento da Ceplac, a liderança do secretário-geral José Haroldo era
suficiente para negociar com o ministro da Fazenda a manutenção dos recursos
orçamentários. No ano seguinte, com o aumento da produção esses recursos
eram cobertos e não havia contingenciamento.
Hoje, pelo atual enquadramento da Ceplac como um simples apêndice do
Ministério da Agricultura, mesmo que os dirigentes queiram injetar mais
recursos não conseguirão êxito, até pela escassez. Seria de bom alvitre que as
lideranças políticas de então conseguissem retornar a pujança da Ceplac, com
seu cabedal de conhecimento e a necessidade do desenvolvimento regional.
O livro Ceplac Revivida, de Luiz Ferreira da Silva, é editado pela Scortecci
Editora e está disponível nas grandes livrarias físicas e pela internet.
*Radialista, jornalista e advogado.



