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JOÃO FRANÇA SANTANA, UM EXEMPLO DE POLÍTICO

JOÃO FRANÇA SANTANA, UM EXEMPLO DE POLÍTICO

Por Walmir Rosário*
A sabedoria popular diz – com acerto – que a cada legislatura municipal, os eleitores terão
saudades da bancada anterior. De minha parte, juro que não encontro base científica para
tal assertiva, mas sou obrigado a dar o braço a torcer. Antes que me tomem como
ressentido, vou logo avisando que nada tenho contra os senhores edis com assento nas
câmaras municipais por este Brasil afora.
Como dizem que a voz do povo é a voz de Deus, sou impelido a aceitar a sabedoria
popular, mormente quando as mídias sociais deixam claro e transparente atos e fatos da
vida pública de um vereador. E tomo por base os cinco mandatos do vereador itabunense
João França Santana, em tempos idos, o que me dá total garantia da tese elaborada por
anos pelo povão de Deus, que conhece como ninguém a política e os políticos.
Pra início de conversa, considero uma das eleições mais difíceis do poder legislativo a do
vereador, haja vista a ampla e próxima base de eleitores, formada, na essência, por
amigos. E aí é que a porca torce o rabo, pois essa base se torna fácil de ser minada, pois
os amigos são os mesmos de mais da metade dos candidatos a vereador. E estou dizendo
isso levando em consideração a Itabuna dos anos 1950/60 e 70 do século passado.
E são exatamente esses vereadores do passado os eternos lembrados por terem deixado
marcas positivas em seus mandatos. Em Itabuna, políticos do naipe de José Soares
Pinheiro, Paulo Ribeiro, Raimundo Lima, Pedro Lemos, Mário César, Plínio de Almeida, Titio
Brandão, o próprio João França Santana, e mais recente Edmundo Dourado, Orlando
Cardoso, José Japiassú, João Xavier, são vistos como referência positiva.
Assim que se formou em Direito, em Salvador, João França Santana volta a Itabuna e
inicia sua atuação na advocacia. Atencioso no trato às pessoas, se destaca como um
possível candidato a vereador. Uniu as convicções políticas ideológicas com a amizade e
ganhou a primeira eleição. Mesmo assim, seu trato com os colegas no legislativo sempre
foi marcado pela cordialidade, independente dos temas partidários.
Por muitas vezes o vereador esteve na oposição a prefeitos, mas sempre se destacou pela
apresentação de bons projetos e por muitas vezes foi voto decisivo na aprovação de
matérias do executivo. E sempre destacava: “Se o projeto vai beneficiar a população, não
tenho o direito de votar contra, pois assumi o compromisso de trabalhar pela cidade e
seus habitantes”, justificava com tranquilidade.
E o ex-vereador contava algumas passagens de sua vida legislativa, quando do
bipartidarismo – Arena e MDB. Como se não bastassem a oposição entre os dois partidos,
cada um deles era dividido em sublegendas. Então existia a Arena 1, 2 e 3, o que não era
diferente no MDB. Ele mesmo era filiado da Arena 2 e era oposição ao prefeito José de
Almeida Alcântara, da Arena 1. Ele fazia oposição cerrada, mas com o foco em Itabuna.
João França Santana ficou na suplência apenas uma vez, pois contava com um cabo
eleitoral muito eficiente, o sogro Antônio Joaquim de Santana, o Marinheiro, forte
liderança política no bairro da Conceição. Àquela época, os votos eram as chapas com os

nomes de candidatos, largamente distribuídas e colocadas num envelope e depositadas na
urna. Era tiro e queda!
Em 27 de outubro de 1965, os vereadores foram surpreendidos com o artigo 10° do Ato
Institucional n° 2 (AI-2), que proibiu a remuneração dos vereadores, o que para João
França Santana nada mudou no seu posicionamento. Continuou o mesmo vereador
dedicado de sempre, procurando cumprir todos os compromissos assumidos quando pedia
a confiança dos eleitores e voto.
Personagens de muitas histórias relevantes em sua vida e nos cinco mandatos, além dos
anos em que foi consultor jurídico da Câmara de Itabuna, todos os anos, por ocasião do
aniversário de Itabuna, João França Santana colaborava contando-as. Pouco antes do dia
28 de julho ele chegava ao jornal Agora, com um texto histórico pronto, acompanhado de
uma ou duas fotos, para publicação.
Ao chegar, fazia questão de cumprimentar toda a redação, diagramação e arte, entregava
seu artigo ou crônica, tecia comentários sobre os fatos e fazia questão de compará-los
com a política atual. Nesses momentos eu aproveitava para consultá-lo sobre outras
matérias históricas que estávamos elaborando, tirava nossas dúvidas, trazia a tona novas
e importantes informações, já com o seu aval.
Uma curiosidade eram as legendas das fotos, elaboradas em seu escritório, ainda na
máquina de escrever (manual). Citava o evento, os personagens e concluía com a
seguinte informação: “Fulano e sicrano já mortos, sou o único vivo da foto”. E assim
atualizava as informações aos mais jovens sobre a verdadeira história de Itabuna,
especialmente na seara política.
Profundo conhecedor do direito público e privado, além das leis e do processo legislativo,
João França Santana atuou, por muitos anos, como consultor jurídico da Câmara Municipal
de Itabuna, a quem prestou relevante contribuição. Casado com Stella, filha do casal
Antônio Joaquim de Santana (Marinheiro) e Joana Oliveira de Santana, morreu em 25 de
janeiro de 2020, aos 96 anos, deixando três filhos e muitos netos.

*Radialista, jornalista e advogado

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