COM QUE ROUPA EU VOU, ESSE É MEU DILEMA
Por Walmir Rosário*
Todo fim de ano me embaraço com o dilema da escolha da roupa que vestirei no
Réveillon, seja num evento externo, que merece uma apresentação de razoável para cima,
ou em casa, quando não chega a tanto, mas nem por isso tampouco. Pra começo de
conversa, não sou daqueles que sabe a combinação ideal das peças de roupas, como os
desenhos verticais e horizontais, as cores dissonantes, e por aí afora.
É sempre assim! Por mais que tente, não consigo me conscientizar suficientemente sobre
a harmonia de cores e tons, muito menos as mais apropriadas para cada ocasião. É uma
lástima! Mas nem me incomodo, embora não posso dizer o mesmo em relação ao que
pensa a minha mulher, sempre a dar pitacos sobre o caimento e as disparidades. Não
adianta, não consigo fazer essas aulas entrarem em minha cabeça.
Se hoje incorro, constantemente, nos mesmos erros, com um guarda-roupas pra lá de
sóbrio, imaginem no século passado, a partir das décadas de 1960/70 e mais um pouco,
com as roupas extravagantes que ditavam a moda. Ainda lembro das camisas
estampadas, nas quais as cores fortes formavam desenhos de caracóis e outras figuras
fractais, bastantes chamativas.
As calças bocas de sino do mais legítimo brim americano índigo, das marcas Levi’s, Lee,
ou as nacionais, mais modestas, a exemplo da far-west da Alpargatas, Topeka ou
Calhambeque. Sempre mudávamos o visual usando as calças coloridas, imitando os
grandes artistas do Rock internacional ou da Jovem Guarda brasileira. Uma noitada ou
uma domingueira nos clubes mereciam trajes escolhidos com esmero.
Com o tempo, os ditadores internacionais da moda entraram num clima de relax e nos
fizeram mudar o guarda-roupa, com tons mais amenos, no máximo, tons sobre tons, o
que perdura até hoje, guardadas as devidas proporções. Mas então volto a me complicar
com as vestimentas para o dia e para a noite, os eventos sóbrios e os alegres, os
complementos como os blêizeres.
Confesso que acho muito complicado se apresentar nesses eventos do dia a dia, quanto
mais nos temáticos. E o pior de tudo é ser visto por um colunista social desafeto de
redação ou de outros imbróglios corriqueiros. No dia seguinte estará estampada na página
assinada pelo dito cujo, com as comparações maldosas sobre o meu modo brega de me
vestir numa apresentação da sociedade. Ninguém merece!
Juro pelo que há de mais sagrado neste mundo e além, que essa preocupação não é coisa
de minha cabeça, pois garanto que existe há décadas e até foi até cantada nos anos 50 do
século passado em diante. Ainda lembro do grande cantor Miltinho, que interpretava
sambas e boleros, muitos dos quais de Noel Rosa, entre eles, “Com que roupa”, de
sucesso garantido em todo o Brasil.
Na voz estridente, porém afinada e modulada, Miltinho cantava e encantava. “…Pois esta
vida não está sopa/ E eu pergunto: Com que roupa?/ Com que roupa que eu vou/ Pro
samba que você me convidou?/ Com que roupa que eu vou/ Pro samba que você me
convidou?”. E olhe que o excelente compositor Noel Rosa se vestia nos trinques: terno e
gravata borboleta, isso para frequentar os cafés e cabarés cariocas.
Como se não bastasse, em 1967 o cantor e compositor Wilson Simonal, no seu álbum
Alegria, Alegria, trouxe a canção “Vesti azul”, garantindo que se deu bem ao aceitar o
conselho de um broto para que vestisse azul: “Dizendo que eu devia vestir azul/ Que azul
é cor do céu e seu olhar também/ Então o seu pedido me incentivou/. Vesti Azul!/
(Popopopó!)/ Minha sorte então mudou/ (Popopopopó!).
Do meu singelo conhecimento, não posso garantir o que disse Simonal, mas o certo é que
azul é a cor mais utilizada no mundo, mas nem por isso é a cor predileta das festas de
réveillon. Pelo que tenho visto, se vestir de branco pode trazer a paz por um ano inteiro, já
os trajes nas cores dourada e amarela é batata! Garante muito dinheiro no bolso, além de
paz de espírito no ano seguinte.
Cá pra nós, não sei qual o defeito de minhas vestes, que além de não atrair o vil metal aos
meus bolsos, ainda me deixam desprovidos dos valorosos reais, haja vista os altos preços
cobrados nessas festas. Daí que já decidi ficar em casa na passagem de 2022 para 2023,
num evento bastante módico, com comes e bebes relativos ao meu baixo poder aquisitivo,
mas com promessas de melhoras no ano vindouro.
Se tento economizar nas comidas e bebidas, minha mulher já decretou: “Com roupa
usada, nem pensar!” e receitou minha passada numa boa loja para organizar meus trajes,
dignos de um promissor Réveillon. Na lista, camisa, bermuda, meias e tênis novos, nas
cores amarela, branca e azul, respectivamente. Pelo que li num site de modos e etiqueta
de comportamento, não basta simplesmente seguir os manuais, mas, sobretudo, ter fé,
confiança, pensar positivo.
No ano que vem informo se funcionou.

*Radialista, jornalista e advogado


