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JOÃO CALÇA FROUXA, FELIZ NO JOGO, INFELIZ NO AMOR

JOÃO CALÇA FROUXA, FELIZ NO JOGO, INFELIZ NO AMOR

Por Walmir Rosário*
Por volta de 1963 apareceu no bairro da Conceição, em Itabuna, um jovem, ainda
adolescente, que começou chamar a atenção pela sua intimidade com a bola. Em poucos
dias, já estava aclimatado com os desportistas e era um dos primeiros a ser escolhido para
os babas em todos os campinhos que chegava. Não tinha medo de zagueiros e zombava
das pancadas que eles davam com dribles desconcertantes, deixando-os caídos ao chão
enquanto partia para cruzar a bola ou entrar na área e fazer o gol.
Garoto acanhado no meio social – talvez pela sua pequena condição social – se
transformava num gigante quando o assunto era futebol. Seu nome: João Calça Frouxa,
apelido que trouxe de sua terra natal, Buerarema, ou Macuco, como ainda chamávamos –
por força de hábito – o recém-emancipado distrito de Itabuna. Passou a ser convidado
para os “babas” e as partidas dos times mais importantes do bairro da Conceição.
Fora de campo, fazia bicos para comerciantes, fazendo a entrega de mercadorias e das
compras na feira para as donas de casa. Se especializou em mandados. Quando não
estava nos afazeres ou nos campos de pelada era visto tomando banho no rio Cachoeira e
pescando. Devidamente ambientado, não queria saber de outra vida, já que conseguia
todas as regalias que sua vida de menino pobre em Buerarema não podia lhe oferecer.
Enquanto ganhava desenvoltura junto à população, principalmente às pessoas ligadas ao
futebol, pouca intimidade tinha com as letras, pois nunca foi afeito a livros, cadernos e
lápis. Gostava mesmo era de driblar os adversários, desmoralizá-los – no bom sentido. Nos
dias em que estava inspirado, mandava fazer fila e saia “costurando” a torto e a direito,
não poupando nem mesmo o goleiro adversário, aplicando meias-luas, banhos de cuias
(chapéus) até jogar a bola no gol.
Desde Buerarema que não frequentava a escola. “Era ‘rude’ pra essas coisas da cabeça”,
diziam frequentemente, enquanto o elogiavam na arte do futebol. Era capaz de passar o
dia inteiro pelos campos, jogando seguidos “babas” ou nas rodas de “bobo”. Nem via o
tempo passar. Só saía mesmo quando tinha um mandado para fazer e ganhar um troco.
Seu traje, invariavelmente, era uma camisa de algodão cru e um calção de estopa ou
mesclinha, que ia até o joelho.
No bairro da Conceição, João Calça Frouxa morava com uma irmã no alto da rua Bela
Vista, até que despertou a curiosidade de um parceiro de “baba”, Carlos Guimarães, o
Caroba, que descobriu a condição de analfabeto do amigo. Com muita paciência, Caroba
pegava na mão de Calça Frouxa para ensiná-lo a escrever, após um trecho de leitura. Até
que ele conseguiu “desenhar” o seu nome: João Cantídio dos Santos, até então
desconhecido de todos.
Quem lembra bem de João Calça Frouxa nas peladas é Raul Vilas Boas, goleiro estiloso
que gostava de imitar as “pontes” praticadas pelo goleiro do Flamengo, Marcial. “João
Calça Frouxa era um ponta-direita habilidoso, que driblava bem, jogava em direção ao gol,

jogava muito. Era considerado um novo Garrincha, pois driblava bem e ia pra cima, com
velocidade. Dava um tapa na bola pela direita e quando o lateral virava ele já estava na
cara do gol.
Quem o levou para a equipe do Botafogo juvenil do bairro da Conceição foi o técnico Zito
Baú, que o considerava como um dos melhores ponteiros do Botafogo, em toda a sua
história. A exemplo de outro ponta-direita, o consagrado Mané Garrincha, João Calça
Frouxa pouca importância dava aos bens materiais. Afinal, se sentia o máximo ao fazer os
adversários de “gato e sapato” e ainda tinha sua fonte de renda garantida para as farras
com mandados que fazia no bairro.
No livro “A bela assustada”, o jornalista e escritor Antônio Lopes dedica uma crônica – O
anjo com a calça frouxa – ao ilustre personagem. Lá pelas tantas, ele cita o entusiasmo do
médico Vilfredo dos Santos Lessa ao ver as diabruras do jovem futebolista:
– Digam-me! Digam-me! De que planeta evadiu-se aquele menino endemoniado, e com a
calça frouxa? Foi o suficiente…o chiste do médico teve o poder de batizar Joãozinho, que
por ser Joãozinho sem nome, passou a chamar-se Joãozinho Calça Frouxa. E nem precisou
de certidão lavrada no cartório de Raymundo Santana Fontes, ou água benta de batismo
em missa do Padre Granja, para essa escolha cair no gosto da população –.
Na mesma crônica, João Calça Frouxa – ainda menino – é chamado por Abel, zagueiro
direito do lendário Bahia de Itajuípe, que não gostava de marcá-lo: “Era o Capeta”. E
Antônio Lopes lamenta que o craque não teve a oportunidade de transportar sua arte de
Buerarema para o Maracanã, dali até os grandes estádios (hoje, sei lá os motivos,
chamados… “arena”) do Japão, Inglaterra, Oropa, França e Bahia, de onde, para virar o
jogador do século, era apenas um passo (ou um passe).
Não deu tempo! O delírio das torcidas com as firulas e o assanhamento de João Calça
Frouxa nos campos de futebol teve vida curta. Enlouqueceu cedo. Lembro que, mesmo
nessa condição, continuou a trabalhar nos mandados, conversando sozinho, xingando a
mãe da garotada que mexia com ele. Certa feita, tomou uma queda e passou meses com
um aparelho de aço espetado no braço, sem os devidos cuidados higiênicos. Uma lástima!
Nas estórias contadas sobre os motivos que o deixaram abilolado (como chamavam à
época) estaria um amor não correspondido por uma bonita moça normalista, filha de um
pequeno cacauicultor, que preferiu continuar os estudos a se dedicar ao namoro. Teria
sido a gota d’água na cabeça do ponta-direita do Botafogo de Rodrigo Antônio Figueiredo,
que nunca mais driblou seus adversários e, ainda por cima, tomou um elástico no amor.
Anos depois, esquecido por estar sumido da torcida e amigos, morre num asilo João
Cantídio dos Santos. João Calça Frouxa torna-se apenas uma lembrança dos amantes do
futebol atrevido, endiabrado, moleque, do menino habilidoso de Buerarema, que poderia
ter encantado o mundo. O tinhoso ponta-direita que prometia ser um segundo Garricha
teve seus últimos dias no estilo de Heleno de Freitas, outro grande craque do Botafogo
carioca.

Feliz no jogo, infeliz no amor!

*Radialista, jornalista e advogado

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