Muito além da vida, da morte e da razão
O livro Os mortos não contam histórias, de Kleber Torres, publicado pela Amazon, reúne 15 contos escritos ao longo dos anos e mergulha o leitor no universo da violência que atinge de forma indistinta aos que vivem no campo e nas cidades tendo como referencial lendas urbanas, histórias contadas de boca em boca e com base na experiência do autor como jornalista que por várias décadas acompanhou o noticiário policial, que oferece um tema inesgotável também para a ficção, uma vez que alguns fatos superam os limites até mesmo da invenção. A obra contempla também no seu bojo, uma experiência literária através do fluxo de consciência, uma técnica iniciada por Édouard Dujardin e que teve desdobramentos em James Joyce, Jack Kerouac até mesmo na contracultura.
A história de Janaú-Dendê-Sete Mocó, fala de um personagem que transita entre o real e a ficção, inserindo-se no conjunto das lendas urbanas, com um final inesperado. Mortos não contam histórias nos leva ao cenário de uma propriedade em um universo distópico e que se situa num mundo paralelo ao da sociedade convencional, com pena de morte estabelecida ao arbítrio de um senhor de terras agindo sempre acima dos limites do bem e do mal.
Lambão, o corrucheiro trata de um ladrão de galinha e seus sonhos para subir na vida, uma história de enredo que parece referenciado em Crime e Castigo, com a participação de um criminoso imediatista, invejoso e que preconizava o lucro no curto prazo. Já a magia e o terror estão presentes em As filhas de Lucrécia, o drama de uma família marcada por poderes mágicos, o que pode ser uma benção ou uma maldição tudo a depender da ótica do leitor que é ao mesmo tempo o observador da história e o seu recriador.
A experiência do autor como jornalista aparece em Fogos Juninos ou o ABC da Lei do Cão, baseado numa história real, ocorrida há décadas numa pequena cidade perdida do interior, em que os festejos juninos servem de pano de fundo para encobrir os tiros durante o assassinato de um preso recolhido na velha cadeia da cidade, um cenário propício à vingança um prato que se come frio.
O Causo da Rua do Cacau envolve o vaticínio de Nenzinho da Feira, ao definir as expectativas letais de um fim de noite agitado no lusco-fusco entre luzes vermelhas e intermitentes onde funcionava o brega de uma cidade qualquer. Ao mesmo tempo, um jogo mortal emerge em A Tacada Final, em que numa partida de sinuca ninguém fica pela bola sete e onde o pano verde serve de cenário para a tortura, um crime hediondo e o homicídio, que às vezes escapa ao controle do estado e se insere nos grupos ou facções à margem da lei.
A cidade dos homens azuis mostra a disputa de grupos pelo poder político e econômico numa sociedade distópica. O contrato narra os velhos acertos de boca para o plantio de roças, uma história em que a corda quebra sempre do lado mais fraco e coincidentemente termina em mortes que acabam não investigadas e se perdem nos meandros do tempo e da impunidade
A história de Um crime misterioso parecido e igualzinho ao do cinema envolve a investigação da morte de homem que amanheceu com a boca cheia de formigas e os dentes escancarados na rua, como consequência de navalhadas no pescoço e na cara, um caso que se relaciona com outros crimes difíceis de elucidar. Já O esquadrão do ferro e do aço aborda a ação de grupos de extermínio agindo acima do bem e do mal na execução das vítimas, um fato comum nas cidades de médio e grande porte.
O Piloto dos sonhos destaca oniricamente a vida de um sonhador contumaz, o qual acaba acordando diante da realidade e quando as bruxas já se espalham pelas plantações dando fim a um ciclo econômico e de vida. The hovercraft mission faz uma reflexão e homenagem insana a H. P. Lovecraft para quem “muitos foram os que desceram pelo abismo do inconsciente sem conseguir voltar. Os manicômios são suas moradias, pois deles são o reino da insensatez. Outros – muitos poucos, apenas os escolhidos – seriam capazes de contar o que há por trás da loucura…”
De forma complementar a este ensaio criado a partir do fluxo de consciência, está o conto Nebulosa Gum que transita entre a informação astronômica de um fenômeno que ocorre no universo e pode os mesmo gravitar em torno de um conto circular ou de reflexões sobre a vida, a morte e outras questões filosóficas ou até mesmo escatológicas numa experiência literária complexa prescindindo por isso de princípio, meio ou fim, até porque de médico e louco qual um tem um pouco.
O livro termina com A morte sem choro nem vela do último coronel do cacau, que nos coloca no cenário das terras amadianas do sem fim. O fato ocorre em função da mortal pandemia da covid-19 que provocou milhões de óbitos em escala global, transcendendo os limites das cores, do sexo, do gênero, da raça, das circunstâncias e das condições sociais dos indivíduos. O conto é o capítulo de um novo romance do autor sobre a região cacaueira da Bahia, que inspirou autores como Jorge Amado, Adonias Filho, Jorge Medauar e Afrânio Peixoto, que viveu na juventude em Canavieiras.
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Kleber Torres


