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EM ITABUNA, FUTEBOL É NO CÉU

EM ITABUNA, FUTEBOL É NO CÉU

Walmir Rosário*
Quantos aos desígnios de Deus ninguém discute. A morte é o fim da vida. Cada um presta
contas lá em cima pelo que fez aqui na terra. Esta é a lei implacável dos dons divinos.
Aqui na terra, não chega a ser bem assim, mas as aparências são mais ou menos as
mesmas. O que chama a atenção sãos os seus desígnios, escolhendo os que Ele quer ao
Seu lado, numa espécie de lista, fila, sei lá…
Aos poucos, Ele vai fazendo a chamada. No mês passado levou Pedrinha (Antônio
Oliveira), já nos seus 85 anos de idade, cerca de 40 deles dedicado ao futebol amador.
Meio-campista do Botafogo do bairro da Conceição, fez história formando uma das
maiores tabelinhas junto com Mundeco. E lembrei que em 2016, também levou para a sua
glória três esportistas de uma só vez: Adonias Oliveira, Léo Briglia e Vivaldo Moncorvo.
É um luto daqueles que Itabuna vai vivendo, paulatinamente, com a perda um ou vários
dos seus filhos, embora nunca com os que militaram num único setor, o esporte, e
sucesso assegurado em vida, deixando perplexo os amigos e parentes. Cada um, é claro,
na sua área de atuação. Enquanto Léo era o dono da bola, o goleador, os outros não
podem ser considerados menores.
A Adonias Oliveira, que nunca chegou a chutar uma bola (e se o fez foi totalmente
errado), formou uma plêiade de jogadores. Sua proposta ultrapassava aos retângulos dos
gramados, cujo objetivo era formar cidadãos. Deixou seu legado. De pouca fala – timidez
ao extremo – conseguia se comunicar com os jovens que convocara para os quadros do
Fluminense juvenil e o América da Vila Zara.
Adonias, ou “Dom Dom”, como muitos os chamavam, nunca chutou uma bola, mas sabia,
como nunca, descobrir nos velhos campinhos de bairros valores esportivos. Alguns deles
chegaram ao futebol profissional; outros se destacaram no futebol amador “marrom”, que
ganhava dinheiro sem se profissionalizar. Mas não importa, eram craques que tinham seus
lugares nos mais diversos times de Itabuna.
E todos se exibiam na velha Desportiva Itabunense, onde hoje está implantado o Centro
de Cultura de Itabuna. O fim do velho campo da Desportiva não impediu que eles
brilhassem nos campinhos de bairro ou até no Estádio Luiz Viana Filho, o gigante do
Itabunão, como queriam e querem alguns radialistas. Além de dirigir o América da Vila
Zara e o Fluminense, seu time de coração, foi dirigente da Liga de Desportos de Itabuna.
Vivaldo Moncorvo, de 101 anos, também nos deixou na mesma semana. Radiotelegrafista,
veio da cidade do Senhor do Bonfim para exercer seu trabalho nos Correios e Telégrafos,
em Itabuna, e se apaixonou pela cidade e pelo esporte. Desde os tempos da gloriosa
Seleção Amadora de Itabuna tomou pra si a incumbência de animar a equipe com a
famosa charanga que o consagrou pelo resto da vida.
Se o Itabuna estava em baixa perante a torcida, quem “pagava o pato” era o Moncorvo e
sua charanga, que se colocava na arquibancada ao lado dos torcedores. Não haveria local
mais apropriado para receber as vaias que seriam destinadas aos jogadores. Quando o

Meu Time de Fé estava em alta, Moncorvo era aclamado com sua charanga. Para ele, o
céu e o inferno astral fazia pouca diferença, no esporte ou na política.
Diferente de Adonias e Moncorvo, Léo Briglia atuava dentro de campo, fazendo a alegria
da torcida com seus dribles e gols. E Léo sempre gostou dos extremos: poderia ter sido
um grande cacauicultor ou doutor. Foi estudar em Salvador, mas optou pelo futebol.
Torcedor do Vitória, se consagrou no Bahia; nunca obedeceu às premissas do esporte,
preferindo a vida desregrada; como gozava de saúde férrea, chegou a desprezar cuidados
essenciais. E sempre viveu nessa dualidade.
Mas nada disso tirou o brilho de suas atuações em campo, seja no início de sua carreira
profissional no Bahia, consagrando-se artilheiro da Taça Brasil, ou quando campeão em
pleno Maracanã, estádio em que brilhou por anos seguintes. Não foi à Copa do Mundo na
Suécia, mesmo sendo o melhor da posição, preterido sob a alegação de cáries e outros
pequenos problemas de contusão. Estava no lugar errado e na hora errada, como dizem.
Acabou o futebol, voltou para Itabuna, foi ser servidor do Estado. Continuou o mesmo de
sempre. Uma boa companhia para um bom papo, principalmente numa mesa de bar.
Acostumado aos holofotes da imprensa nacional, ficava nervoso ao se deparar frente a um
gravador ou à caneta do repórter. Em vista dessa característica, sempre preferi conversar
informalmente, transformando nossos bate-papos em crônicas e reportagens. Das boas.
Minhas conversas com Léo tinham dois lugares: a Ponta da Tulha (algumas vezes) e o Bar
do saudoso Raileu, onde sentava praça e dava expediente quando em Itabuna. Não tinha
lugar melhor para ouvi-lo. Ali recebia os amigos com o mesmo entusiasmo de sempre.
Arroubo esse que se estendia o ano todo, com mais intensidade próximo ao Carnaval,
desfilando garbosamente no bloco As Leoninas, fantasiado a caráter: apenas de biquíni.
Essa era a figura de Léo Briglia, que soube gozar a vida como lhe aprazia, feliz consigo
mesmo e irradiando a mesma felicidade para o grande número de amigos que colecionou
ao longo do tempo. Além de tudo o que já foi dito, bom pai, extremado avô, que deixa um
importante legado para os mais novos. Acredito até que ele cultuava aquele pensamento
do nosso poeta português Fernando Pessoa: “Tudo Vale a pena / Se a alma não for
pequena. (Mar Português).

*Radialista, jornalista e advogado.

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