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SOLIDARIEDADE BRASILEIRA AINDA É INSIGNIFICANTE

SOLIDARIEDADE BRASILEIRA AINDA É INSIGNIFICANTE

O jornalista e dramaturgo Nélson Rodrigues atribuiu ao jornalista mineiro Otto Lara
Resende a frase “o mineiro só é solidário no câncer”, e ainda inseriu-a com todo o
destaque na sua peça e filme “Bonitinha mas ordinária”. O amigo Otto sempre desmentiu
a autoria, mas, aqui pra nós, o irreverente Nélson Rodrigues deveria tê-la cunhado assim:
“O brasileiro não é solidário nem no câncer”.

Penso eu que os brasileiros foram educados para serem “sabidos” e que não faria mal ou
pecado algum levar sempre vantagem. Mais uma vez essa insossa teoria foi comprovada
durante o anúncio da pandemia do Coronavírus no Brasil, a começar pelos quais deveriam
dar o exemplo, por se tratar de uma questão de vida ou morte: os comerciantes dos
ramos de farmácia, mercados e congêneres.

Assim que foi feito o anúncio e os cuidados preventivos que deveriam ser tomados, a
exemplo da desinfecção das mãos com álcool em gel e alguns medicamentos, para que os
preços subissem de forma astronômica nesses estabelecimentos. Outros, de forma
desavisada, ou para levar vantagem, partiram para os supermercados e atacadões para
esvaziar o estoque. Como não consumiriam tudo, prejudicariam os próximos.

A solidariedade – ou a falta dela – é determinante na sociedade, pois vai de um pequeno
gesto de gentileza a salvar uma vida. As imagens mais comum que vemos da falta de
solidariedade são os saques às cargas de caminhões virados nas estradas, em que os
“sabidos” sequer olham para o agonizante motorista, sem se interessar saber se precisa
de cuidados. Farinha pouca, meu pirão primeiro.

Mas existem pessoas que sabem fazer a diferença. São aquelas que chegam assim que
acontece um acidente e vai em socorro dos feridos, sem conhecê-los e sabendo que talvez
nunca mais irão vê-los. São aqueles que ao verem uma pessoa faminta não se preocupam
em apenas doar uns centavos, mas estampar um sorriso no rosto, buscar informações
sobre sua situação e, quem sabe oferece-lhe mais que um prato de comida.

A solidariedade – um nobre sentimento – não está presente no gênero, se homem ou
mulher, na faixa etária, na religiosidade, no perfil financeiro, por ser inerente à formação
familiar e humanística. Amar o próximo como a ti mesmo é um mandamento que nem
todos têm a capacidade de interpretá-lo, mesmo assim somos sabedores que é mais
frequente nas classes menos aquinhoadas financeiramente. Quem sabe, a adversidade…
Voltando a nos reportar ao momento atual, fomos surpreendido pelo empreendedor
Maicon Diego Custódio, de uma das farmácias da rede Hiper Farma, sabendo que não
teria estoque suficiente para atender os clientes tomou uma atitude inusitada: pegou os
30 potes de 500 ml que ainda tinha na farmácia, fracionou em quase 250 unidades para
doação, solicitando apenas que trouxesse o vasilhame de casa. E assim fez com outros 70
litros que conseguiu adquirir.

Idêntica atitude solidária demonstrou a Ambev, que destinou parte de produção de suas
fábricas de cerveja para a fabricação 500 mil garrafas de álcool em gel e distribuí-la às

entidades públicas. Procedimento idêntico adotou a empresa O Boticário, dentro de
poucas outras nesse imenso Brasil. Na contramão da solidariedade, os empresários que
aumentaram seus produtos podem ser penalizados pelos clientes, sem qualquer briga.
Nos Estados Unidos a solidariedade é comum, principalmente entre as pessoas mais ricas
e que se beneficiaram de alguma instituição, especialmente de ensino, destinando
milhares de dólares anuais para o seu funcionamento. Em contrapartida, essas
universidades concedem bolsas de estudos às pessoas que não têm condições de arcar
com as pesadas mensalidades.

Entre os americanos, a solidariedade faz parte da vida e alimenta o capitalismo com a
entrada de bons profissionais e que ficariam à margem do mercado por não possuírem
capital para manter os estudos. Frequentemente lemos biografias desses profissionais que
se orgulham das instituições e dos mantenedores, tornando-se mais um deles. Entretanto,
lá, essa prática é vista com seriedade, diferentemente de outros países.

Entre nós, tornou-se muito comuns as campanhas de apoio e ajuda para que instituições
da comunidade – em várias atividades – não fechem, com apelos que chegam a beirar ao
ridículo. Os personagens que encabeçam a campanha são os que mais se beneficiam dela
e são incapazes de realizar qualquer doação e ainda posam de grandes filantropos,
mesmo que as instituições fiquem cada vez mais pobres e eles cada ano mais ricos.
Hoje, com as redes sociais cada vez mais presentes na vida do cidadão, as notícias
afloram com muita rapidez e de maneira bem diferente das produzidas com os requintes
do marketing. Entretanto, precisamos ficar sempre alerta para as fake news, também
produzidas com os requintes do marketing destrutivo, que atua apenas para desconstruir,
sempre na premissa de que o fim justifica os meios. Nada mais falso.
Seja você também mais um a transformar o Brasil num país melhor!

Walmir Rosário

Radialista, jornalista e advogado.

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