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NOCHA, UM LATERAL DIREITO RESPEITADO Por Walmir Rosário

NOCHA, UM LATERAL DIREITO RESPEITADO  Por Walmir Rosário

A célebre frase cunhada pelo zagueiro Moisés, em 1982, “zagueiro que se preza não pode
ganhar o Belfort Duarte, aí perde o moral”, por certo não se aplicaria ao lateral direito
itajuipense Nocha. Ele sabia como ninguém desarmar o adversário jogando o bom futebol,
porém sabia ser viril quando a jogada merecia, muitas das vezes sem cometer falta,
embora em alguns casos tivesse que parar o contrário com a energia necessária.

Nocha, que também atende por José Raimundo Freitas, do alto dos seus quase 81 anos,
admite que sempre usou da habilidade e força necessárias para ganhar uma jogada nos
clubes em que atuou, desde sua infância nos clubes de Itajuípe, até pendurar as
chuteiras. E faz questão de ressaltar que nunca foi desleal com o adversário, pois sabia
jogar futebol e não precisava recorrer à violência.

E foi justamente pela sua conduta em campo, destacando-se pelo futebol sério que jogava
que foi descoberto pelos diretores do Bahia de Itajuípe, ainda menino, e levado para o
time sensação do Sul da Bahia no final da década de 1950. E no Bahia de Itajuípe tanto
fazia jogar no primeiro ou segundo quadro para ser reconhecido como um craque do
futebol e cobiçado pelos clubes de Ilhéus, Itabuna e Salvador.

Na pujança do cacau, os cartolas do Bahia de Itajuípe – mesmo amador – iriam buscar um
jogador que se destacava em qualquer cidade próxima, mantendo um verdadeiro
“esquadrão de aço”. E como relembra Nocha, eles participavam da melhor vitrine do
futebol do Sul da Bahia, recebiam constantes convites de outros clubes, na maioria das
vezes bastante tentadores.

Ainda jovens, o que queriam eram jogar bola. E bem. Atrair a atenção dos amantes do
bom futebol e ganhar presentes, fossem em dinheiro ou outros bens materiais como era
praxe nos clubes amadores dirigidos por pessoas de grandes posses. Vencer uma partida
era “bicho” garantido, um campeonato, então, o “carvão” caia direto. E na assinatura e
renovação de contrato era só felicidade.
E assim Nocha recebe uma proposta tentadora do Janízaros, de Itabuna, e deixa o Bahia
de Itajuípe. Com ele também mudam outros craques itajuipenses. No novo clube era uma
garantia jogar na Seleção de Itabuna, que chegou ao Hexacampeonato ao vencer o
Campeonato Intermunicipal Baiano por seis vezes seguidas. E Nocha era um desses
craques vencedores.

Após vencer alguns campeonatos no Janízaros se transfere para o Flamengo de Itabuna,
no qual também se torna vencedor de campeonatos. E Nocha nem se preocupa com a
mudança de time, pois também jogava ao lado da “nata” do futebol itabunense, colegas
na brilhante seleção de Itabuna. E era grande a rivalidade nesses clubes no campeonato
de Itabuna, em que Janízaros, Flamengo e Fluminense se revezavam nos títulos.

E a rivalidade não era apenas nas torcidas. Dentro de campo, os colegas da seleção eram
adversários e o lateral-direito Nocha tinha a obrigação de marcar o maior ponta-esquerda
que se teve notícia em Itabuna, na Bahia e quiçá no Brasil, Fernando Riela. Mas essa

contenda não abalava Nocha, que marcava seu oponente jogando o bom futebol. E a
renhida disputa era equilibrada, com vantagens alternadas a cada jogo.

As décadas de 1950 e 60 foram notabilizadas pelo bom futebol, jogado por craques que
prezavam a camisa que vestiam, principalmente na Seleção de Itabuna. E não era pra
menos, a cada ano acumulava mais um título, vencido com galhardia, contra bons
adversários, a exemplo de Ilhéus, Feira de Santana, Alagoinhas, Belmonte, Santo Amaro,
São Félix, Jequié, dentre outros.

Merecem destaque a eterna rivalidade entre Ilhéus e Itabuna, duas das maiores seleções.
E Itabuna sempre levou a melhor, desclassificando o selecionado ilheense, um timaço,
como lembra Nocha, que faz questão de ressaltar nunca ter perdido uma partida para a
seleção praiana. Outro destaque lembrado por Nocha foram as partidas jogadas contra os
grandes times do Rio de Janeiro, em que jogavam de igual para igual. Sem medo.

Em 1967, com a fundação do Itabuna Esporte Clube, Nocha se profissionaliza e participa
da primeira equipe que jogou o Campeonato Baiano de Profissionais, junto com outros
colegas da Seleção de Itabuna. Quando sentiu que era chegada a hora de parar de jogar o
futebol profissional, ainda no auge, deixa o Itabuna Esporte Clube. Poderia ter jogado
mais um ou dois anos, mas preferiu sair por cima, deixando boa lembrança na memória
dos torcedores.

Mas Nocha não abandonou o futebol e passou a atuar nos times amadores de Itajuípe,
notadamente o Grêmio e o Santa Cruz, pelos quais disputou mais partidas. E por muitos
anos continuou a jogar os babas, sempre com a mesma categoria e virilidade de
antigamente. Hoje critica o futebol jogado pra trás, sem arte, que não empolga os
torcedores e nem produz grandes resultados.

Prestes a completar 81 anos, Nocha mantém uma invejável forma física, passeia
diariamente pelas ruas de Itajuípe, visita os amigos, faz compras e conversa sobre futebol.
Com a simplicidade, diz não recordar muito do seu passado até a conversa fluir e relatar
os bons tempos nos campo de futebol. Como diz o ditado: Quem foi rei nunca perde a
majestade. E Nocha continua sendo uma referência no bom futebol do Sul da Bahia.

NOCHA

Radialista, jornalista e advogado

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