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ILHÉUS DA BAHIA (OU DE BARCELONA?)

ILHÉUS DA BAHIA (OU DE BARCELONA?)

Por Sérgio Barbosa*

A capitania dos Ilhéus foi reconhecida desde 1534 como promissor território
capaz de gerar riquezas, uma vez povoado e explorado economicamente.
Primeiramente com a cana de açúcar posteriormente com o cacau atravessou
quatro séculos e ainda, hoje, agrega possibilidades com a indústria e os
serviços da cultura e do turismo. O perfil de atividade econômica, daquele local,
foi se ampliando na medida que o processo cultural da civilização foi
compreendendo, em etapas ou eras, novas formas de ocupar e explorar o
território nas suas potencialidades.
Sem dúvidas que foi a era da agri(cultura) cacaueira que, até agora, mais se
expressou como perfil da cultura do território posto que se enraizou, também,
na literatura e deu contornos saborosos ao locus com o imaginário da
sensualidade e do amor de dois migrantes que se fundiram como uma explosão
de sexo, pleno de liberdades e libertinagens num tempo de profunda rigidez
social. Uma trama, do diabo que os deuses do cacau – theobroma –
abençoaram.
O forjador dessa fundição, um grapiúna de raiz, deu sabores picantes ao
território capaz de chamar a atenção do mundo por mais de século para essa
terra de felicidade sem fim, cheia de histórias de amor, experiências, picardia e
esperanças…
Jorge Amado, Gabriela e Nacib formaram um triângulo, longevo, rico de
nuances que poderá impulsionar por mais outros séculos quem queira navegar
nesta fórmula capaz de estimular curiosos amantes e consumidores a se
interessar pela produção dessas terras de possibilidades, tal qual a cidade
turística de Verona na Itália, que perdura no imaginário dos visitantes na
sombra dos amantes Romeu e Julieta.
Assim percebeu, no seu tempo, um outro “imigrante suíço” – Hans Schaeppi –
que, nos anos 1970/80 se consagrou ilheense, dentre outros feitos, ao batizar
sua fábrica de chocolates com a marca raiz ILHEUS e “linkar” sua produção
picante de marcas “Cacau do Nacib” e “Flor da Gabriela”.
Um marketing positivo para o território, invocando um registro de 1534 e
abrindo vetores futuros de exploração de outras marcas como átomos
dinâmicos de bom comércio e bons frutos. Hans Schaeppi estava bem
posicionado no seu tempo e com ampla visão de um mentor de
desenvolvimento para o território, mas parece não ter conquistado, ainda, bons
seguidores no seu exemplo.

Assim dito, a cultura futebolística ilheense parecer ter inspiração inversa ao
“suíço-Ilheense” pois os clubes que brotaram, até agora, do território-marca de
1534, buscam nos seus nomes de batismo prestígios copiados extra
territorialmente como Colo-colo, Flamengo, River, Vitória, e agora, um
Barcelona menor, cuja única identidade com a Catalunha, penso, é nenhuma e
se apoia tão somente de momento do clube catalão ou talvez no desenho das
bandeiras das cidades. E só.
Lastimável exemplo de demarketing territorial, e ausência de pertencimento,
pois, uma vez crescendo o futebol desse clube seus êxitos serão sempre
remetidos a lembranças da cidade catalã que nem patrocina, sequer, nosso suor
atrás da bola. Colherão, eles, os frutos sem plantá-los nem os regar.
Parece não ser razoável nem inteligente que a cultura das instituições ilheenses,
de quatro centrão, se acomode com esses desperdícios de exposição que a
mídia futebolística oferece, e, que o Itabuna, o Ceará, o Fortaleza e o Bahia
desfrutam, muito bem, capitalizando suas marcas-territórios ao seu locus de
berço.
Assim procedeu a indústria vinícola europeia, no século passado, a criar regras
restritivas chamadas de “denominação de origem” vinculando as marcas dos
seus “terroirs” com suas vinícolas. Cartão vermelho para qualquer um mortal
que se atreva, doravante, a produzir um espumante de vinho com o rotulo de
Champanhe exclusividade daquela região francesa que os deuses do comercio
passaram a chancelar. É a mesma bebida que as corridas automobilísticas faz-
nos beber como sinônimo de êxito e por elas pagar.
Oxalá os orixás nos ajudem a não permitir que os deuses do futebol não se
motivem da mesma maneira das vinícolas e venham a exigir royalties pelo
batismo-indevido ao nosso clube ilheense quando este se sagrar campeão.
Quem sabe se nossos orixás se unirem e lançarem fagulhas de criatividade e
incendiarem, de espíritos “Schaeppianos” misturando à larva “Amadiana”, as
novas lideranças dos traders Ilheensi de modo que doravante estejam vigilantes
criando talvez um Ilheus-Theobroma F.C., uma SAF de uso múltiplo e
arrendado a novos investidores na nossa Capitania. Uma ideia, bem-humorada,
picante de desdobramentos e cheiro de século XXI.
*Um ilheense de coração nascido em Salvador – serbarsil@gmail.com

lhéus, vista da Catedral – Foto: José Nazal

 

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